Análise do Filme “Amor”? Renata Fernandes

 

ANÁLISE DO FILME “AMOR?”

Autor: Renata Fernandes – Monografia apresentada ao curso de especialização em Psicossomática Psicanalítica

 

 

“Sem saber amar não adianta amar profundamente.”

William Shakespeare

 

 

O documentário-ficção Amor? é uma transposição de casos da vida real para o espaço da representação cinematográfica. Os atores se transformaram nos homens e mulheres que deram depoimentos ao diretor, falando sobre suas experiências de relacionamentos amorosos costurados com altas doses de violência física e psicológica. E surge a questão: aquilo seria amor? O diretor não responde à pergunta e os depoimentos intensos e verdadeiros colocam para o público a inexorável realidade, onde o problema e sua dimensão complexa ganham forma e toda resposta simples parece no mínimo, pretensiosa. O primeiro levantamento foi realizado junto a organizações de proteção e apoio a mulheres vítimas de agressão, colhendo dados tanto referentes a estas mulheres quanto aos homens agressores. Entidades como o Centro de Defesa da Mulher (CEDIM), o Centro de Atendimento a Mulher (CIAM), a Casa Abrigo/Rio Mulher, o Instituto Noos, o Juizado Especial de Violência Contra Mulher (RJ), forneceram dados  e abriram caminho para o contato direto com possíveis personagens.

Feita uma primeira triagem, a equipe saiu a campo com apenas um gravador MP3 para colher os depoimentos. O corpo-a-corpo com os entrevistados logo os fez ver que não estavam no caminho certo. Ter boas histórias não era o bastante. Era preciso também que seus protagonistas fossem capazes de refletir (e, portanto, de provocar uma reflexão) sobre elas. E a origem humilde das pessoas que recorrem à ajuda deste tipo de instituição mostrou-se um elemento limitador. O foco da pesquisa voltou-se então para as classes média e média alta, de onde saíram sete dos oito relatos selecionados para o filme. As filmagens com o elenco foram realizadas em uma fazenda, no interior do Estado.

O primeiro depoimento de Laura (personagem interpretada por Lília Cabral), casada, dona de casa, aproximadamente 40 anos, relata o sofrimento vivido pela violência da perda de um ente querido (sua filha): “Aí acabou tudo, meu chão saiu”. Ao que parece, neste exato momento alguns mecanismos inconscientes são disparados e diante da dificuldade em elaborar esta perda, inicia-se um processo de violência contra o outro e si mesmo.

Laura acrescenta: “… eu fui ficando cada vez mais agressiva no sentido de destruir mesmo o outro sabe, sei lá, num sentido canalha”. Gurfinkel (2011) ao pontuar sobre relacionamentos aditivos, patológicos, ou seja, um páthos: uma paixão e uma doença, ou a doença da paixão, faz uma comparação com a perversão. O modo compulsivo, imperioso e violento que se apresenta neste tipo de vínculo, e, por conseguinte como o outro é tratado, demonstra uma enorme incapacidade de reconhecer, justamente, a alteridade do objeto – o que nos remete ao perverso, à incapacidade de se identificar com o outro nos seus desejos e sofrimentos. Porém, a sexualização excessiva, parcializada ou dissociada não é uma característica obrigatória deste tipo de vínculo. Para o autor, nestes tipos de relacionamentos há uma “perversão sublimada”. Esclarece que esses tipos de pessoas são “viciados no outro”, o desejo torna-se voraz e primitivo e tem como objetivo a destruição do outro. Ter o objeto envolve necessariamente incorporá-lo e destruí-lo. Parece que para Laura, a perda da filha foi apenas uma desculpa para que algo tão violento, inerente à sua personalidade, pudesse aflorar e ser descarregado em seu relacionamento.

Freud, (1924), aclara que o sentimento de culpa é possivelmente a mais poderosa “moeda de troca” nos relacionamentos afetivos. Culpar o outro por seu sofrimento, por vezes torna-se fator predominante nos relacionamentos afetivos, e tal sofrimento (provocado pelas neuroses) incita para a tendência masoquista, que nesta situação faz-nos pensar que seria o único e possível vínculo a ser estabelecido entre o casal, naquele momento: “Então, eu agredia e ele agredia”. Freud, ao esclarecer sobre o masoquismo moral, pontua sobre a expressão de uma tensão entre o ego e o superego. O ego reage com sentimentos de ansiedade (ansiedade de consciência) à percepção que não esteve à altura das exigências feitas por seu ideal, ou superego, que neste caso pode ser representado por uma fantasia infantil de onipotência, salvar sua filha. Com isto, o masoquismo moral acentua a necessidade de sofrimento. Na relação ego-superego impõe-se uma satisfação pelo castigo e dor, que aos poucos foi sendo consolidada em sua relação afetiva com o marido. Em contrapartida, a personagem ao afirmar: “Eu sempre fui muito agressiva, acho que era uma defesa minha”, parece-nos demonstrar uma enorme dificuldade em lidar com ódio e a falha básica, que promove a formação de vazios no psiquismo precoce, provocando o primitivo sentimento de ódio, que muitas vezes leva a criança sentir-se rejeitada, não amada, desamparada. Estas sensações incitam sentimentos e pensamentos de impulsividade, conduta provocativa, hostil e beligerante, podendo ao longo do desenvolvimento psíquico tornar-se um mecanismo de defesa poderoso e por vezes intransponível, sendo apenas atuado.

Em outro relato, Laura diz: “ele desmerecia tudo em mim, a coisa mais clichê e mais banal… eu preciso de elogio, a torcida do Corinthians, todo mundo precisa de elogio…”.

Fuks (2008) aponta sobre os conflitos narcisistas. Neste tipo de conflitos, as pessoas se centram mais em si mesmas, sofrem de ambições desmedidas, fantasias grandiosas e necessidade de reconhecimento e admiração dos outros, o que as torna extremamente sensíveis a desilusões e fracassos. O sujeito vulnerável do ponto de vista narcisista responde à ferida narcísica real com um retraimento vergonhoso (fuga) ou com fúria narcísica (luta). No filme, em um diálogo do casal, o marido afirma: “Eu não queria ter feito aquilo, mas sou explosivo mesmo, mas você provocou”, Laura concorda: “Eu provoquei mesmo”. Estas falas fazem-nos pensar que ao sentir-se ferida (não sendo reconhecida da maneira que idealizava) um sentimento de raiva se instaura e começa a ter atitudes que de algum modo provoca uma fúria no outro. Ainda para Fuks (2008), são diversas as formas pelas quais se podem manifestar a tensão narcisista, constituída de sentimento difuso de mal-estar do sujeito consigo mesmo, de desvitalização, de vazio, apatia, inferioridade, entre outros. Estes sentimentos impulsionam diferentes movimentos para sair deste estado penoso, que vão desde a utilização do objeto como forma de obter um sentimento de valia até a obtenção de um prazer muito primário, corporal que possa proporcionar um mínimo de satisfação. Também se considera a sexualidade compulsiva, a ingestão patológica e o masoquismo erógeno, como formas de resolução da tensão narcísica, pois possibilitam ao sujeito voltar a relacionar-se com o prazer depois da perda de interesse que por vezes a depressão ocasiona.

Laura diz: “sabe aquela história que mulher gosta de apanhar, será que eu gosto de apanhar? Não é que eu gosto de apanhar, mas é que eu acho que é preciso apanhar, sabe criança que precisa levar um tapa pra ter limite? Meio por aí que eu vivenciei isso, entendeu?” Para Ferraz (2008, p. 34), entende-se o masoquismo como transformação inconsciente do desejo infantil de ser amado e cuidado, manipulado fisicamente. Tratar-se-ia da permanência em uma posição erótica infantil diante do objeto adulto”.  O masoquismo é aqui entendido como uma fixação na infância e na fantasia infantil de ser espancado. Freud (1919) traz essas fantasias como uma perversão infantil que pode não persistir pela vida toda, podendo ser transformada através da repressão ou da sublimação. Porém “se esses processos não ocorrem, a perversão persiste até a maturidade; e sempre que encontramos uma aberração sexual em adultos – perversão, fetichismo, inversão –… uma fixação na infância”. (p. 228). A Perversão, portanto, remete à sexualidade infantil. Percebe-se nitidamente este funcionamento psíquico, quando a personagem Laura ainda afirma: “outra coisa que eu trabalhei na minha terapia é a possibilidade de efetivamente ser mulher… a partir do momento que eu assumi meu papel de mulher… As coisas, o meu relacionamento se tranquilizou… e ele assumiu o papel de homem depois que me deu porrada… precisei apanhar pra me tornar mulher”.

 “Apesar de ser sempre agressiva eu descobri assim que eu sou uma pessoa carinhosa…uma pessoa meiga, carinhosa, derramada…aí eu tive um encontro com a minha delicadeza.. passei a ter uma atitude receptiva, carinhosa.. “   

Gurfinkel (2011), seguindo Freud aclara que o caráter de homens e mulheres, em sua forma definitiva, se fundamenta nas organizações primitivas pré-genitais, mas só se completa ao se atingir a organização genital e o amor objetal. Para que tal processo ocorra, é necessário que a travessia edipiana ocorra: a elaboração da castração (como papel imprescindível) possibilitando um domínio relativo do narcisismo original das tendências hostis e do princípio do prazer. Desta travessia resultaria um trabalho de integração entre os impulsos libidinais e de ternura para com a mãe, agora em uma relação de objeto total (não parcial), o que aos poucos pode estender-se para o pai e para as outras pessoas do meio social.

Outro personagem, Fernando (interpretado por Eduardo Moscovis), relata sua história em um relacionamento violento: “lógico que tudo isso teve um início pra mim, um início muito claro… minha mãe foi agredida. Quando era menino eu via minha mãe sendo agredida por algumas pessoas com quem ela se relacionava amorosamente.. até meus 15, 16 anos eu vivi esse processo, eu sentia vontade de matar as pessoas que faziam isso com a minha mãe. Meu pai agredia umas poucas vezes minha mãe… porque minha mãe….não justifica… porque minha mãe levou meu pai à loucura.. minha mãe humilhava ele sabe? Meu pai era oficial da marinha… ela dizia: você é um analfabeto… na verdade a família da minha mãe era pobre… ele agrediu muito minha mãe quando ela era menina (o pai dela, sabe?)… então assim surgiu. Ela agredia a figura do marido que era uma forma de agredir o pai ou imitar ele… e eu por desdobramento comecei a agredir as moças com quem eu me relacionava. Eu tinha 18 anos, era uma forma de redimir minha mãe sendo agredida. O tempo foi passando e eu comecei a me viciar em agredir as pessoas, as mulheres com quem transava… eu agredi muito minha esposa. A agressão parou, mas a agressão pesada tipo boxer, isso teve fim. Isso me marcou profundamente o fato de agredir minha esposa… uma mulher que só me fez bem que me amava e eu amava ela, isso é uma coisa que não me perdoo, uma coisa que não tem explicação. Essas coisas surgem das coisas mais triviais da relação humana, tudo é um pretexto, é uma necessidade de agredir, quase fisiológica. Depois que você dá vazão a esse instinto horroroso, aí você se arrepende… tem gente que não se arrepende… isso que é pior… Sabe, trabalhei com odontologia vários anos… fisicamente eu não tenho dúvidas que as mulheres são mais fortes que os homens… a resistência da mulher à dor é infinitamente maior que a do homem… o homem precisa se desatrelar desse Édipo.. dessa dependência desse cordão umbilical, ou o homem se emancipa como ser humano ou vai continuar fazendo as mulheres sofrerem… Normalmente o homem não sabe dar amor… o homem é egoísta que é o melhor lugar dele.. Com minha atual namorada, já tive episódios de agressividade… pela mesma coisa que me desperta sempre a figura feminina, uma insegurança, um ciúme em excesso, uma necessidade de punir… Acho que de alguma forma esse negócio, vem cá, é da minha mãe… coisa difícil de resolver.. você quer saber? Uma verdade, eu acho que minha mãe mereceu as porradas do meu pai… do outro não… mas do meu pai mereceu… Minha mãe levou meu pai à loucura… ele não era de bater em mulher… só que ela humilhava muito..  agrediu ele fisicamente… bateu na cara dele… chegou uma hora que o cara perdeu a bússola.. enfiou a porrada..  aí ele bateu como um oficial da marinha… boxer, sabe? É trágico e cômico.”

Ao que parece, o que podemos observar no relato de Fernando, é fundamentado em Freud 1914, no seu texto sobre o narcisismo. Pessoas com personalidade narcisista têm ideias bastante hostis e violentas em relação ao sexo oposto. Esse tipo de comportamento é um dos principais fatores que contribuem para os relacionamentos violentos, já que uma das características desse tipo de personalidade é nunca conseguir se colocar no lugar da outra pessoa, considerando o outro só um objeto que pode dispor a qualquer momento. Tais traços podem ter origem em uma educação individualista, caracterizada pela ausência de limites, onde o respeito e o egoísmo não foram sentimentos trabalhados na criança. Contudo, todos têm algum traço narcisista quando nascem, e este é necessário para a autopreservação, no entanto, quando se torna exagerado, consequências indesejadas são observadas, e uma delas é a violência. Diferenciar quando o narcisismo é exacerbado é bem difícil, já que ao contrário do que todos pensam os narcisistas não são pessoas seguras, nem se acham melhores que as outras. Pelo contrário, são extremamente inseguros e podem manifestar esse traço de personalidade de diversas maneiras que chamem atenção para ele. Outro traço da personalidade narcisista é não conseguir estabelecer vínculos afetivos saudáveis e duradouros com ninguém. Quando isso ocorre, costumam apresentar muita dificuldade no relacionamento interpessoal, não se preocupando com o outro ou com criar empatia.

Já para Gurfinkel (2002), que a partir de Winnicott retoma a ideia de um “medo de mulher”, este seria uma espécie de correlato da angústia de castração. Seria um medo que não só as mulheres experimentam um medo diante das questões da feminilidade e que pode expressar-se, por exemplo, como medo de uma mulher específica ou medo da dominação. É um tipo de medo que está vinculado à relação de total dependência entre mãe e bebê e que ressurge mais tarde. Historicamente, as mulheres sempre foram tidas como medrosas e os homens, corajosos. Em nossa cultura, pode-se dizer que elas demonstram mais seus medos e que também pedem mais ajuda. Quanto aos homens, questiono se são tão pouco fóbicos, ou se, por trás de outras patologias, não estariam medos incapacitantes ou fobias, que no relato de Fernando parece latente, ao agredir as mulheres com que se relacionava. O medo e possivelmente a ameaça sentida por elas, era um dos impulsos que o fariam descarregar essa energia inconsciente e sem a fundamental elaboração, apenas havia a necessidade de repetir e repetir a agressão.

Conte (2002) pontua a disposição masoquista como uma sexualidade traumática. Para a autora, a pulsão de morte e o masoquismo na segunda teoria das pulsões, encontram-se em uma condição de excesso, dor e passividade que necessitam tornar-se ativos, efetivar-se e desvincular-se da associação entre a dor e o prazer. Possivelmente, Fernando ao ver sua mãe sendo agredida, sentindo-se passivo e impotente diante da situação, experimentou profunda dor, que necessitou ser revivida através de suas parceiras, agredindo-as.

Analisando por outro ângulo, Nasio (1991) afirma que o caráter histérico masculino não difere muito do feminino. Sabemos que o homem histérico quer seduzir, ser amado por todos e não pode escolher, uma vez que se assim proceder, terá que renunciar a todo o resto, sendo que ele não se permite perder nada. Tem uma extremada necessidade de agradar para ser “confirmado” pelo desejo do outro. Quer para si ser o ponto de condensação dos desejos dos demais – o filho único e maravilhoso – o homem histérico tem tanta insegurança quanto à sua identidade sexual, como a mulher histérica. Tem uma necessidade ímpar de se apresentar como “superviril” (supercarros; supermulheres, etc), como uma forma de obtenção fantasiosa de que todos o desejem. Como complemento desse estado de coisas, dessa ostentação machista que se rebelará a mulher histérica, adotando uma atitude frustradora em relação a ele. A relação amorosa entre dois histéricos é uma interminável disputa, ou mesmo uma representação tragicômica. No homem a angústia de castração, aparece mais diretamente como síndromes de angústia, ou mesmo em virtude de certos deslocamentos, como pequenas ou grandes fobias. Sabemos, através da clínica que são menos frequentes, mas existe também a presença de sintomas conversivos. Encontramos aqui uma supervalorização do pênis, equiparando-o ao falo. Notamos que o homem histérico sempre quer ser o melhor e o único, o que significaria que não superou a rivalidade com os pais, nem seu temor à punição pelos seus desejos sexuais proibidos. De uma maneira geral, o pai frágil ou mesmo despótico, teria sido inseguro no exercício da lei. De qualquer forma, ao menino fica faltando à proteção paterna, a qual debilita a periculosidade que atribui aos seus desejos infantis. Como complemento de um pai com estas características, encontraremos uma mãe que – sutil ou manifestamente – o desqualifica como homem. E, esta mesma mãe poderá seduzir o filho em maior ou menor grau, porém o fará sempre com um objetivo narcisista, faltando-lhe o verdadeiro amor de mãe, ou seja: o “amor terno”. O que deve, entre outras tantas coisas ser trazido à tona, através de um trabalho de análise é que, por traz de um homem histérico, portador de sua impotência, haveria uma maior necessidade da obtenção de ternura, do que propriamente de um amor genital. Ao pensarmos nas constantes humilhações direcionadas ao seu pai e consequentemente na passividade do pai diante delas, podemos pensar que Fernando, ao identificar-se com o pai, se sentia humilhado, inferior e inseguro diante das mulheres com quem tentava se relacionar.

Nasio (1991), afirma que a fantasia de castração, salva e protege o histérico do gozo, mas o incomoda em sua maneira de perceber os seres que ama e odeia. De maneira distorcida, a fantasia de castração mergulha o neurótico num mundo em que força e fragilidade decidem em termos exclusivos sobre o amor e ódio. Amarei ou odiarei meu parceiro conforme a percepção de sua força ou fraqueza fálica. Embasado nesta afirmação, o autor pontua que as relações dos histéricos se transformam inevitavelmente em relações de dominador e dominado. Em uma visão infantil, parece sempre que há dicotomia entre o real e o imaginário. O concreto e o abstrato. Ódio e amor. Fernando ao que parece, ao relacionar-se com as mulheres, estava preso nesta dicotomia, porque não, cisão entre ódio e amor. O ódio por ter presenciado inúmeras agressões à mãe, e ódio pela mãe agredir o pai. Ao que parece aos olhos infantis de Fernando, amava a mãe quando era frágil (sendo agredida), e a odiava quando era forte (quando agredia o pai).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

“Tem gente que não tenta por medo de errar, tem gente que não ama, por medo de chorar…”

Djavan, Tem Gente, 2012.

 

 

Quem se arriscaria a afirmar, sem medo de faltar com a verdade, que nunca viveu ou que se considera isento de viver uma relação amorosa marcada por algum tipo de violência – seja ela, física, moral ou verbal? Quem estará livre da veleidade de tomar um rompante de ciúmes, próprio ou alheio, como prova de amor e inocente alimento para a autoestima e não como exercício inconsciente e perverso de dominação e poder? Que outros mecanismos podem fazer com que uma relação baseada à priori no mais sublime dos sentimentos, o Amor, deságue ou degenere em algum tipo de opressão ou violência? Como saber aonde termina o amor e começa o phátos do amor? Até aonde este impulso gregário, intrínseco à condição humana, pode levar, quando o belo, que lhe é inerente, insiste em se manter vivo a despeito e acima de quaisquer circunstâncias, por mais terríveis que elas sejam?

O caráter explosivo e inquietante das histórias que se apoiam no binômio amor e violência, expostas no filme nos faz questionar incessantemente o que os mantêm nesses tipos de vínculo, e principalmente o que alimenta estes tipos de relacionamento. Hoje, ao que nos parece, tão inerente e questionado na sociedade. Como responder à questão do sofrimento vivido prazerosamente?

Não creio que o sofrimento seja a necessária e inevitável condição dos seres humanos neste mundo. Não creio que a essência da vida seja a infelicidade, não obstante, os ensinamentos da religião em contrário, afirmem que a resignação ao sofrimento seja uma virtude. Ao que parece, as pessoas são muito tolerantes ao sofrimento: estão sempre prontas a dizer para si mesmas, “e quem é feliz?”. Podemos pensar neste tipo de condição, quando Laura inicia seu depoimento relatando a perda da filha, parece que diz, olha o quanto sofri e sofro por isto, ou melhor, é tão dolorido, não sentirei o suficiente, mas será sempre meu sofrimento. No mínimo, confuso e intrigante. A resignação ao sofrimento incontestavelmente é mera passividade, o fracasso de alguém em assumir a responsabilidade de sua própria existência e escolhas pode ser o vício humano mais extremo. E como todo vício, prazeroso, porém sofrido.

Pensando a respeito da compulsão à repetição, percebe-se que determinadas pessoas possuem um núcleo doentio de sempre estarem repetindo suas experiências mais dolorosas, indefinidamente, com atitudes destrutivas. A maioria das pessoas não percebe o que faz, optando por acreditar que a insatisfação é apenas fruto de algo externo. E essa negação faz com que ela siga em frente, sempre sofrendo. Pode se manifestar em absolutamente todos os aspectos da vida: no namoro, no casamento, na criação de filhos, na escola, no trabalho. Qualquer um pode perceber que um padrão está sendo repetido – menos ela própria. Outro ponto a ser salientado, são as semelhanças entre cônjuges e seus pais. Habitualmente, o paciente se assemelha com quem ele mais teve dificuldades: o pai frio e distante deu origem ao marido insensível. É a representação de uma relação mal resolvida do passado, sendo basicamente na relação entre pais e filhos que se constroem esses padrões. Uma das hipóteses que podemos aventar é que isso tudo nasce de traumas, grandes ou pequenos, do começo de nossas vidas. Tudo é inconsciente, é claro. Evitar essas repetições destrutivas é muito difícil, porque elas estão consolidadas em nosso inconsciente desde muito cedo. Uma pessoa pode até perceber sua compulsão em agir daquela maneira e, a partir disso, acreditar que poderá controlar-se da próxima vez. E mais uma vez ela age destrutivamente e crê que na próxima ela evitará e assim por diante. Estar ciente de seu padrão de repetições é extremamente importante, o primeiro passo. Um dos caminhos para estancar esse comportamento é ir de encontro ao trauma que está na raiz de tudo. Uma relação afetiva violenta pode ser uma tentativa (por vezes eficiente) de descarregar essa energia acumulada e inconsciente. Contudo, eficiente em descarregar e não em elaborar, o que seria um processo no mínimo lento e doloroso.

Na discussão dos desafios e das dificuldades de relacionamentos amorosos, principalmente relações permeadas por violência física e psíquica, possivelmente há outro aspecto raramente mencionado: pode ser apavorante. Quando nos apaixonamos, sentimos que o outro ser humano tem enorme importância para nós e para nossa felicidade pessoal. Permitimos que essa pessoa entre no mundo privado de nosso íntimo, no qual talvez, ninguém jamais havia entrado ou conhecido. Assim, há uma rendição, não somente uma rendição à outra pessoa, mas aos nossos sentimentos pela outra pessoa. Sem essa rendição, o amor é abortado no início. Abortado ou “violentado”? Qual é a dificuldade em permitir que outro ser humano se torne tão vitalmente importante para nós? Qual o obstáculo? Muito simplesmente, ele está também na possibilidade da perda. Está na possibilidade de a outra pessoa não nos amar de volta. Ou de deixar de nos amar. Ou de morrer… Tantas possibilidades… Perdas reais e imaginárias (a fantasia do mundo infantil também seria parte desta perda), porém extremamente necessárias. Então, a melhor saída seria simplesmente agredir o (a) parceiro (a) e violentá-lo (a) que assim mate seu sentimento por aquela pessoa? Deste modo, o sujeito entra em contato com sentimentos negativos, não somente medo, mas também ira, ressentimento, afinal a necessidade cria uma vulnerabilidade que pode ser aterradora e porque não, enfurecedora. Com frequência há quase ódio por sentirem tanta necessidade do sexo oposto. Seria esta ambivalência comumente citada por Freud em seus textos, e principalmente dramatizada no filme?

Outra questão seria a maturidade e imaturidade nas relações amorosas. Penso que maturidade e imaturidade são conceitos que se referem ao sucesso ou ao fracasso da evolução biológica, intelectual e psicológica de um indivíduo, no sentido de um estágio adulto do desenvolvimento. Em relações maduras de amor, as diferenças complementares se referem predominantemente a forças complementares. Nas relações imaturas, as diferenças complementares tendem a se referir a debilidades complementares. Podemos classificar essas debilidades como necessidades e desejos e outros traços de personalidade que refletem alguma falha no desenvolvimento sadio, alguma falha na maturação psicológica. Seria esta então a necessidade de ser agredido (a) ou de agredir, por vezes relatada no filme? Parece que ouvimos sutilmente: “quando tinha cinco anos, importantes necessidades minhas não foram atendidas – até que sejam satisfeitas, não passarei para os seis anos”. Embora aparentemente sejam pessoas ativas e agressivas, são na realidade passivas, esperando socorro, esperando que lhes digam que são bons meninos ou boas meninas, esperando ser validados ou confirmados por alguma fonte exterior a elas, podendo se organizar em torno do desejo de agradar, de que cuidem delas, ou, alternativamente, de controlar ou dominar, de manipular ou coagir a satisfação de suas necessidades e desejos, por não confiarem na autenticidade do amor, ou do cuidado de alguém. Não confiam que basta ser como são sem falsas aparências e manipulações. Estão alienados de seus próprios recursos internos de força e de apoio; estão alienados de seus próprios poderes. Quer procurem a plenitude e a satisfação dominando ou sendo dominados, controlando ou sendo controlados, ordenando ou obedecendo, há a mesma sensação fundamental de vazio, um buraco clamante, onde um “eu” autônomo fracassou em seu desenvolvimento. Falharam na evolução para um estado de autorresponsabilidade. Falharam ao não aceitar o fato imutável de sua extrema solidão – dessa forma, estão mutilados (porque não pensarmos, literalmente em relações tão violentas psíquica e fisicamente) em seus esforços de relacionamento. Neste contexto percebem os outros seres humanos com suspeita, hostilidade e sentimentos de alienação, ou então os veem como boias com as quais podem flutuar no mar revolto de suas próprias ansiedades e inseguranças. As pessoas imaturas tendem a ver as outras principalmente, se não exclusivamente, como fontes de gratificação de seus próprios desejos e necessidades, não como seres humanos veem seus direitos, mas como uma criança vê seus pais. Dessa forma, seus relacionamentos tendem a ser dependentes, manipuladores e podem até mesmo se tornarem violentos. Em lugar do encontro de dois seres autônomos que se sentem livres para se exprimir com honestidade e para se apreciarem mutuamente, vemos o encontro de dois seres incompletos, que procuram no amor e no ódio a solução do problema de suas deficiências internas, imaginando que isto lhes permitirá “fechar” magicamente o que ficou incompleto em suas infâncias, destarte, preenchendo lacunas de suas personalidades. Fazem do “amor” o substituto da evolução no sentido de maturidade e da autorresponsabilidade. Além disso, precisamos reconhecer que um homem ou uma mulher, ambos altamente evoluídos e maduros podem, mesmo assim, ter momentos de “imaturidade”, sentimentos e respostas que estão muito abaixo de seus níveis gerais de atuação. Porém, estes momentos tendem a ser aceitos por estas pessoas pelo que são: não se transformam em motivos de autoculpabilidade ou autocondenação, muito menos do parceiro. A diferença talvez seja essa, um homem ou uma mulher, maduros, aceitam sentimentos imaturos ocasionais como sendo normais e mesmo prazerosos. Em contrapartida, um casal imaturo nega estes sentimentos e permanece aprisionado neles. Creio que esse seja o masoquismo inerente às relações afetivas. Mas pode-se considerar também aquele masoquismo que adia a satisfação imediata, que faz com que o olhar para outro seja de compreensão, aceitação, respeito, espera mesmo que naquele momento não seja a expectativa de um dos parceiros, à espera da maturidade. Ao que parece, há um limite tênue entre o que chamaríamos de masoquismo saudável e o masoquismo doente. Em fração de segundos, o que seria inerente a todos os casais e, por conseguinte necessário para uma relação saudável, torna-se de forma trágica, um filme de terror.

Como o dito popular nos ilustra: quando casar sara. Talvez nestes tipos de vínculo, o contrário seria a realidade: quando sarar casa.

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Quem matou Norma?

Quem matou Norma?

Por Sandra Maia | 

Quem matou Norma, da novela ‘Insensato Coração’?

Pois é, para quem assistiu a trama toda fica claro: Norma já estava morta havia muito tempo.

Morta de amor por um homem que a enganava descaradamente. Todos entendiam. Todos sabiam, inclusive ela. Ele era um amor bandido! Então ficam a questões: por que permanecemos, se tudo nos diz PERIGO, PERIGO? Por que não escutamos os sinais de alerta? Por que ficamos na história quando todos, absolutamente todos, nos aconselham o contrário?

Bem, olhando só para essa personagem, não vamos tratar aqui do parceiro, quero crer que a “dependência emocional” misturada à vaidade comanda o caso.

Sim, porque uma das características de quem depende emocionalmente do outro é achar que “comigo vai ser diferente”. Desta vez ele vai ser diferente. Desta vez ele está falando a verdade. Desta vez e só por esta vez, vou acreditar. E, assim, passam-se anos em relacionamentos que nada tem de saudável.

Um que usa e outro que sabe que está sendo usado e “faz de conta” que está tudo NORMAL.

Será? Será mesmo que é isso que liga dois? Um que depende e outro que manipula, isso é amor? Será esse o nome do sentimento de alguém que se doa e cobra? Dá e não recebe.

Cobra e controla outro que mente, inventa, dissimula? Aceita mentiras, aceita humilhação, agressões e diz estar tudo bem?

Será mesmo que dá para construir uma relação com base em mentiras e manipulação?
Por que então ficamos?

A meu ver, a explicação maior passa por baixa autoestima, medo, ilusão e crenças erradas que trazemos da infância. Tudo isso nos coloca num quadro de confusão de sentimentos e pensamentos que nos tira da verdade. Remete-nos a um mundo ideal, no qual fantasiamos que, sim, um dia tudo vai ser diferente. O outro vai nos amar. Vai nos escolher. Vai nos preferir.

E que doce fantasia viver esse sonho. Que na verdade é um pesadelo! E, a qualquer momento, seremos lembradas disso. Então, quero crer que, quanto antes entendermos, melhor. Quanto antes sairmos de cena, melhor. Quanto antes compreendermos que nossa história é um thriller e não uma comédia romântica, melhor!

Até porque, para fazer parte de uma história como essa, precisamos nos anular completamente. Morremos! Nos abandonamos para que o outro exista. O outro tenha o poder e a força. O outro nos dirija, como e para onde quiser.

Funciona? Não! Infelizmente não funciona. Um belo dia, quando não houver mais nada que interessa a esse outro, ele se vai e, então, bem, perdemos tudo o que nos mantinha de pé: a crença de que conosco seria diferente. Arrogância, vaidade, ego, tudo isso e mais um pouco.

Deixamo-nos perder para não sofrer e sofremos em dobro. Durante e depois de tudo.
O que fazer para não cair nessa armadilha? Buscar ajuda para mudar o padrão vicioso de comportamento que só quer confusão, só quer relações complicadas. Sair do círculo do medo, da ilusão e do ego e passar para o círculo da verdade, do amor e do self.

Fácil? Não, meus caros, nada é fácil quando a questão é sentimento, coração, emoção. Mas há de se tentar. Há de querer mais. Há de deixar de fazer pelo outro para começar a fazer por nós mesmos.

É possível?

Vale experimentar. Quem conseguiu sair desse círculo vicioso nem acredita que um dia viveu essa terrível experiência.

Escolhas, sempre escolhas.

Sandra Maia é autora dos livros Eu Faço Tudo por Você — Histórias e Relacionamentos Codependentes, Você Está Disponível? Um Caminho para o Amor Pleno e Coisas do Amor.

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Apenas uma em cada dez relações tem amor saudável, diz especialista

04/08/2011 – 07h00

Apenas uma em cada dez relações tem amor saudável, diz especialista

Márcia Moreno
Especial para o UOL Ciência e Saúde
  • Não gosto nada da metáfora da metade da laranja, isso é bem patológico. Somos uma laranjinha inteira, e o outro também é, diz psicóloga“Não gosto nada da metáfora da metade da laranja, isso é bem patológico. Somos uma laranjinha inteira, e o outro também é”, diz psicóloga

O namorado ciumento, a moça obsessiva, a esposa possessiva, o homem dependente… Segundo a psicanalista Tatiana Ades, de cada dez relacionamentos apenas um tem um amor saudável. Os outros apresentam um amor ‘doentio’ como a co-dependência, a depressão afetiva, o ciúme exagerado, que podem chegar a agressões físicas e verbais.

“O amor patológico é a incapacidade de se relacionar de uma forma saudável”, explica a especialista no assunto, autora do livro sobre o tema “Escravas de Eros”. “Numa relação ideal não há jogos de poder e competição, não há dominador e submisso”.

“O amor patológico é considerado um distúrbio mental, há pesquisas que o consideram muito semelhante à dependência química. Os sintomas principais e até crises parecidas com abstinência ocorrem nas pessoas que sofrem desse problema”, descreve a psicóloga Eliana Arruda.

Algumas pesquisas mostram que a abstinência de quem sofre amor patológico é a mesma da pessoa viciada em cocaína. “Elas têm tremores, vômitos, falta de ar, síndrome do pânico e uma forte depressão”, descreve Ades. “Sou co-dependente. Isso significa que sou uma pessoa dependente de outra para viver. Ou melhor, da situação que vivo com o outro. É como ser viciado em uma droga: eu preciso daquilo para seguir em frente”, conta Samara (nome fictício), que sofre da doença.

Para as especialistas, o amor doentio é cada vez mais frequente nos últimos tempos. “As relações sociais mudaram”, afirma a psicóloga. “Cada vez mais o outro é visto na sociedade como uma coisa passível de apropriação. Assim a ideia de possuir, de ter o outro como uma extensão e objeto de minha necessidade é um gatilho para provocar a manifestação da patologia”, diz.

“Os relacionamentos de hoje não são saudáveis”, diz Ades. “Trata-se de um problema cultural, onde os laços entre os indivíduos são precários. Tem um autor que gosto muito, Zygmunt Bauman, que mostra que vivemos em uma sociedade líquida, com amores rápidos”.

Hora de buscar ajuda

Engana-se quem pensa que sendo amor, ele é bom e não traz problemas. O amor patológico precisa de atenção. “Assim como na maior parte das doenças mentais, o extremo do sofrimento pode levar a pessoa a oferecer perigo a si mesma ou ao outro. Isso explica ser tão comum a violência entre casais, crimes em que um companheiro faz o outro de refém, ameaças de morte, ameaças de suicídio, até mesmo matar por não se conformarem com a perda do outro. Isso precisa ser tratado”, afirma Arruda. “É um vício que pode  matar”, alerta Ades.

Na maioria dos casos, o paciente precisa de um acompanhamento psiquiátrico. “Muitas vezes torna-se necessária, sim, a administração de medicamentos, especialmente os que diminuem a ansiedade. Quando há outras patologias associadas, pode-se indicar também estabilizadores de humor e/ou antidepressivos. Somente os médicos podem avaliar caso a caso a necessidade de cada um”, conta a psicóloga.

Mas o primeiro passo é saber identificar que a ajuda profissional é necessária. “Eu percebi que não quero ser mais co-dependente. Quero conquistar meu espaço e ser feliz, mas preciso de um empurrãozinho”, confirma Samara, que freqüenta um consultório de psicanálise.

Os grupos de apoio também são excelentes alternativas, já que ali a pessoa percebe que o que sente é uma doença. “O mundo também tende a romantizar o próprio nome do transtorno. Amor, a princípio, é uma virtude. No grupo, a pessoa percebe que o suposto amor é na verdade uma doença de dependência de um lado e co-dependência do outro”, explica Arruda. A psicanalista lembra que “observar que há pessoas que passam ou já viveram e superaram situações semelhantes ajuda no processo”.

Amor saudável

Mas o que é ter um relacionamento saudável? “Se eu tivesse a fórmula do amor ideal, nem venderia, doaria a patente para o bem da humanidade”, brinca a psicóloga.

“O que deve ser construído na relação é um espaço em que duas pessoas se sintam bem. Não gosto nada da metáfora da metade da laranja, isso é bem patológico. Somos uma laranjinha inteira, e o outro também o é. E tem-se a vontade e o prazer de ficarmos juntos, esse seria o ideal. Enfim, cada um tem de ser e manifestar-se em sua identidade, ou seja, ser espontâneo, estar com o outro da forma que é e por querer. Tentar agradar demais, perder sua identidade para isso, ou exigir mudar o outro tanto a esse ponto é sinal de alerta!”, avalia.

“O amor saudável é o que permite que cada um seja realizado, é vontade e não necessidade de se estar junto, é respeitar a individualidade de cada um e administrar, conviver com as diferenças”. “Não é um conto de fadas e construir um bom relacionamento dá trabalho”, finaliza a psicanalista.

 

Homens são metade dos meus pacientes, diz especialista em amor patológico

Márcia Moreno
Especial para o UOL Ciência e Saúde

Engana-se quem acredita que o amor patológico e a co-dependência são exclusivos das mulheres. “De acordo com a pesquisa que fiz, com os homens que amam demais, entre 30 e 35 anos, eles são muito mais dependentes afetivamente do que sexualmente. A partir daí achei importante discutir o tema”, diz Tatiana Ades, que escreveu o livro “HADES, Homens que amam demais”.

No livro, explica que desde pequenos os homens são ensinados a serem fortes, a não chorar e nem sofrer. Ela frequentou grupos de ajuda por dois anos e ficou inquieta por não encontrar um espaço dedicado aos homens vítimas do amor patológico. Decidiu então ouvi-los e escrever um livro sobre o tema.

Todos os depoimentos do livro são verídicos e contam que esses homens, depois de terem suas vidas destruídas, perceberam que estavam doentes por amar demais. “Os homens precisam prestar atenção no grau de sofrimento que um amor está lhe causando. A partir do momento que está num relacionamento e sente-se infeliz e cansado, mas não consegue sair fora dele, precisa de ajuda”, diz.

“Se ele se percebe que está se afastando dos amigos, que não pratica as atividades que gosta, está cada vez mais isolado e obcecado pela parceira querendo modificá-la e colocando-a no centro de sua vida, ele está doente e viciado em amor”, explica a psicanalista, que diz que no seu consultório existem 50% de mulheres e 50% de homens.

Mesmo assim os homens não costumam assumir a doença facilmente.  “Percebemos que em geral as mulheres acabam procurando mais tratamento quando ocorre o amor patológico do que a população masculina. Pessoalmente, acredito que as mulheres parecem pedir ajuda antes das consequências serem mais graves. Os homens parecem querer vivenciar o problema sozinhos”, afirma a psicóloga Eliana Arruda.

“Para mim, a sensação de que a incidência é mais feminina relaciona-se mais à busca pelo tratamento do que a estatística de casos reais. Quando se trabalha com um casal, em geral a mulher busca tratamento e, quando o homem é chamado, dificilmente enxerga o lado doente da relação”, diz a psicóloga.

“Eu preciso ter alguém. Quando fico sozinha, me sinto num beco sem saída”, conta paciente de amor patológico

Márcia Moreno
Especial para o UOL Ciência e Saúde

Enquanto as lágrimas escorrem pelo rosto, a voz sussurra: “eu vou morrer sem saber o que é felicidade”. E assim é durante toda conversa sobre sua vida: casos de sofrimento, de humilhação, perda e dor.

Samara (nome fictício) tem 46 anos e é promotora de vendas. Ela sofre de amor patológico. “Sou co-dependente”, avalia. “Isso significa que sou uma pessoa dependente de outra para viver. Ou melhor, da situação que vivo com o outro. É como ser viciado em uma droga: eu preciso daquilo para seguir em frente”, conta.

“O amor patológico é a incapacidade de se relacionar de uma forma saudável”, explica Tatiana Ades, psicanalista, especialista no assunto e autora de livros sobre o tema. “Eu preciso ter alguém. Quando fico sozinha, me sinto num beco sem saída”, conta Samara.

Não é fácil assumir uma personalidade assim. Pior ainda é saber que quem se busca como parceiro afetivo é sempre uma pessoa problemática. “Todos meus relacionamentos amorosos foram doidos”, conta Samara. “Desde adolescente eu me envolvo com homens com problemas para se relacionar, distúrbios de personalidade ou viciados em drogas ou álcool”.

Apanhou de todos eles.  “A mulher co-dependente acha que tem dedo podre para homem, mas na verdade procura homens com problemas, pois se alimenta deles”, acrescenta. “Os interesses pessoais são substituídos pela necessidade de somente estar perto do parceiro”, descreve a psicóloga Eliana Arruda.

E para Samara é isso que basta: estar perto e poder cuidar do outro. “Sou viciada em um padrão de relacionamento que não é normal, mas foi o que aprendi na minha família, que é desestruturada”, assume. “A mulher co-dependente busca repetir padrões que vivenciou na infância. Quando era criança, não tinha consciência para discernir o que é certo e errado e acaba repetindo modelos”, explica a psicanalista.

Mas nem sempre os problemas familiares na infância são a causa. “É verdade que aprendemos nossos primeiros modelos de amor com a família. Mas há pessoas que tiveram boa relação familiar e desenvolvem o amor patológico. Para mim, o mais importante fator que o favorece seria auto-estima muito rebaixada. Em geral, são pessoas que se projetam no outro, não acreditam que conseguiriam ter um companheiro melhor, e assim o outro passa a ser sua principal razão de viver”, afirma Arruda.

“Elas são muito carentes e realmente têm a auto-estima muito baixa”, completa Ades. “Elas procuram fazer tudo pelo outro para ter o reconhecimento”. E Samara se sente assim. “Sempre fiz tudo para todo mundo em troca de carinho e, quando preciso de alguém, não tenho ajuda”.

Amor doentio na separação

Durante 30 anos, a secretária Elisa (nome fictício) achava que tinha o casamento ideal. Casou porque estava grávida do primeiro filho, mas estava muito apaixonada. “Ele foi meu primeiro e único homem. Nós éramos muito grudados”, afirma. Eles tiveram três filhos. “Sempre foi um bom marido, pai exemplar e provedor de toda família”, disse. Como Elisa mesma descreve, ela vivia em um castelo encantado. “Meu grande erro foi não deixar nenhuma janela pro mundo”, afirma.

O castelo foi caindo aos poucos. “Eu percebi que ele não tinha mais interesse em mim, me procurava pouco e foi ficando cada vez mais distante”, conta. Não demorou muito e descobriu que era traída. “Meu chão sumiu. Achava que tinha o casamento perfeito. Eu não admitia a separação”, afirma.

Elisa ainda viveu com o ex-marido durante alguns meses antes de colocar um basta. “Mas ele me humilhava muito, dizia que se eu não tivesse descoberto a traição, ficaria comigo para manter as aparências”, diz.

Em casos de separação, quando uma pessoa não consegue se ver sem o parceiro afetivo, o amor patológico também pode ser revelado. “Em um relacionamento, nenhuma das partes deve se doar mais do que 50%. Se a doação for de 51%, já tem algo errado”, afirma a psicanalista. “O medo de perder e o ciúme não podem ser exagerados”, completa.

Depois de 6 meses de separação, muita terapia e ajuda médica, Elisa acha que já está curada. “Eu me vejo outra pessoa. Eu o amava demais e o colocava antes de tudo. Mas hoje eu me coloco em primeiro lugar”, afirma.

“Sou uma pessoa muito possessiva e passional, não admitia que poderia ter problemas no meu casamento. Mas tento ver tudo que passou como uma experiência positiva para não cometer os mesmos erros”. Declara-se preparada para um novo relacionamento e dá dica: “se você se sentir dependente de outra pessoa, vá procurar ajuda”.

 

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De 0 a 10, quanto sua insegurança pode destruir sua chance de ser feliz?

De 0 a 10, quanto sua insegurança pode destruir sua chance de ser feliz?

De 0 a 10, quanto sua insegurança pode destruir sua chance de ser feliz? Sentir-se inseguro diante do desconhecido ou do novo, é completamente natural. Insegurança diante da impetuosidade da paixão ou da falta de garantias no amor, também pode ser compreensível. Entretanto, na linha tênue do coração, é preciso encontrar uma medida saudável e criativa para todos os sentimentos. Se você vive inseguro, sentindo-se ansioso, tenso e com a sensação de que, a qualquer momento, pode perder a pessoa amada ou ser substituído por alguém “mais interessante”, talvez seja momento de relaxar e rever seus conceitos sobre si mesmo. Esta semana, presenciei um comportamento decorrente de uma insegurança desmedida e destrutiva e comecei a observar o quanto uma pessoa pode construir seu próprio futuro de modo mascarado, empobrecido e equivocado sem se dar conta, tão afetada que está pela falta de reconhecimento de suas próprias capacidades. Em decorrência dessa miopia, certamente vai experimentar relações doentias, magoar-se recorrentemente diante da constatação de que suas estratégias são frágeis e ineficientes e, especialmente, amargar uma solidão dolorosa, que é fruto de sua dinâmica interior. Pessoas inseguras, principalmente quando estão se relacionando, correm o risco de inventar “verdades” para justificar comportamentos agressivos e insanos, sobretudo para afastar aqueles que, por motivos também inventados, parecem representar uma ameaça à sua suposta felicidade. Pois pode apostar: felicidade autêntica não carece de insegurança, e muito menos é ameaçada por quem quer que seja. Se o que você vive realmente é amor, se está construindo um relacionamento saudável, em busca de amadurecimento e cumplicidade, certamente não precisa afastar ninguém, porque seu coração está em sintonia com o universo e com a pessoa amada. Passar seus dias pensando em estratégias para derrotar inimigos que nem existem só vai fazer você perder a maravilhosa oportunidade de ser feliz neste relacionamento ou com a simples possibilidade de vir a se relacionar. E, certamente, você se transformará numa pessoa mal-humorada, pesada, briguenta, chata e… feia! E o pior é que não só você perderá com tudo isso, mas também as pessoas que você mais ama, sejam seus familiares, amigos e até seu par! Sugiro que você faça uma autoavaliação bastante honesta e, para efeito de percepção, dê uma nota de 0 a 10 para sua insegurança. Tente se dar conta de como tem nutrido sua autoestima, do quanto tem valorizado suas qualidades e do quanto, acima de tudo, tem trabalhado suas limitações. Admita que tem medo de perder, que sente ciúme, que ainda não se tornou a pessoa que gostaria de ser. Assim, estará no caminho de se tornar… E isto é evolução!

Por Rosana Braga

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O Transtorno de Personalidade Borderline

O Transtorno Borderline de Personalidade1

The Borderline Disturb of Personality Michele Melo

Resumo: Revisamos o conceito de Transtorno Borderline de Personalidade na literatura psicanalítica: Freud, Laplanche, Green, Kernberg, Mahler e Bergeret com ênfase no diagnóstico clínico psicanalítico.

O paciente borderline está cada vez mais presente nos consultórios talvez porque seja possível diagnosticá-lo com maior precisão nos dias atuais. Há controvérsias quanto a definição do conceito Borderline: para Kernberg é uma organização de personalidade Borderline, enquanto para Bergeret e Kohut é uma estado limítrofe, por exemplo. Entretanto, é preciso entender que Borderline é uma parada no desenvolvimento do sujeito, consistindo em estruturas de transição. Não é uma patologia simples (se assim pode ser chamado) no sentido de que é preciso compreender, além da sua sintomatologia, o seu real funcionamento, sabendo diferenciar de outros diagnósticos. Assim, pensamos em apresentar um entendimento psicodinâmico acerca da psicopatologia dos pacientes Borderline, discorrendo sob o enfoque de diversos teóricos. Devido às diferentes terminologias utilizadas para designá-lo, adotamos a palavra Borderline para nos referirmos a tais pacientes, pois dessa forma fica mais claro entender os diferentes conceitos dos teóricos neste trabalho mencionados. No início, o termo Borderline se encontrava na “fronteira da psicose”, mais especificamente na esquizofrenia. Com o tempo, esse transtorno se aproximou dos transtornos afetivos (Mc Glashan, apud Gabbard, 1998). Conforme Kaplan (1997, p.693) “os pacientes com transtorno de personalidade Borderline situam-se no limite entre neurose e psicose, e se caracterizam por afeto, humor, relações objetais e auto imagem extraordinariamente instáveis”. De acordo com Bedani (2002) o surgimento dos estudos sobre Borderline origina-se em 1801, tentando ser designado e conceituado, porém somente na década de 40/50 que se consegue aproximar do entendimento atual, que ainda difere entre alguns pesquisadores. Green (1986) lembra que esta terminologia foi adotada primeiramente pela psiquiatria, e que após alguns anos foi percebido que não eram psicoses latentes, mas organizações originais, estruturas autônomas e estáveis na medida em que necessariamente não evoluíam para a psicose. Para este autor trata-se também de desorganização de limites no interior do aparelho psíquico e não apenas da relação ego-objeto. Comparando esses pacientes com o setting terapêutico, ele afirma: “O interesse desse limite, o interesse de todo esse limite, é não somente delimitar dois espaços, mas sobretudo ver quais são as passagens, as transgressões que poderão ocorrer de um espaço para outro, e nos dois sentidos.” (p.19). Laplanche (1992) utiliza-se do termo “caso-limite” e entende que é uma “expressão utilizada na maioria das vezes para designar afecções psicopatológicas situadas no limite entre neurose e psicose, particularmente esquizofrenias latentes que apresentam uma sintomatologia de afeição neurótica” (p.60). Ele refere que a expressão  não possui significado nosográfico rigoroso devido às incertezas deste campo e que os autores tentaram englobar diversos tipos de personalidade aqui. Tal autor diz que a psicanálise propiciou revelar uma estrutura psicótica nos casos de distúrbios neuróticos demonstrando que os sintomas neuróticos desempenham a função de defensiva de irrupção da psicose. Green (1986) comenta que esses pacientes expressam a angústia de separação (problemas acarretados por luto intermináveis ou não vivenciados). Ele agregou com a angústia de intrusão, pois assim fala dos limites entre ego e objeto (fora do alcance do investimento) ao contrário de quando o objeto persegue o ego. Para ele não basta que o objeto esteja presente para que não haja a angústia de separação. Não é possível separar a angústia de separação da angústia de castração, nem a angústia de intrusão da angústia de penetração. A angústia de perda é entendida como perda de uma parte ou perda do todo, e a angústia de intrusão, de ameaça para a identidade, seja de uma parte, seja do todo. Na década de 50, o termo Borderline inicialmente era sinônimo de paciente difícil (Kernberg 1991). Tais pacientes apresentavam boa capacidade geral de teste da realidade, tinham regressões transferenciais e mostravam uma condensação de conflitos edipianos e pré-edipianos cujas origens psicogênicas residiam na subfase de reaproximação do estágio separação-individuação, descrito por Margaret Mahler. Conforme Gabbard (1998), Kernberg observou nesses pacientes sintomas obsessivos compulsivos, fobias múltiplas, reações dissociativas, sexualidade perverso polimorfa, tendências paranóides, preocupações hipocondríacas, ansiedade latente flutuante, abuso de substâncias, etc.; ele acreditava que o diagnóstico se baseava nas manifestações inespecíficas de fragilidade do ego; no desvio em direção ao processo do pensamento primário (regressão do pensamento); relações objetais internalizadas patológicas. Kernberg (1991) refere que talvez o diagnóstico mais preciso seja representado pelo DSM IV, porém não é ideal para fins clínicos porque não difere os aspectos comuns entre os distúrbios graves e menos graves da personalidade. Ele propõe um conceito contendo melhor tratamento para a sua resolução: o conceito de organização Borderline da personalidade (descritivo e estrutural), o qual baseia-se em alguns critérios: Difusão da identidade: é a falta de integração do conceito de self. São as autopercepções contraditórias e comportamentos e percepções empobrecidas e contraditórias dos outros e a incapacidade de mostrar-se, sentimentos de vazio crônico (incapacidade de mostrar-se e comentar ao terapeuta as suas interações significativas com os outros. Gabbard (1998) acrescenta que Kernberg considerava que os pacientes tinham uma tendência a “regredir a um pensamento semelhante ao psicótico na ausência de uma estrutura ou sob a pressão de fortes afetos” (p.298). Eles tinham dificuldades em sublimar impulsos e utilizar a consciência. “…um aspecto do funcionamento do ego é a capacidade de retardar a descarga de impulsos e modular afetos como a ansiedade” (p.298). Nível das operações defensivas: os níveis de organização Borderline manifestam defesas primitivas (essas defesas protegem o ego de conflitos, dissociando as experiências contraditórias do self) especialmente a clivagem. Esta consiste na divisão do self de objetos externos em totalmente bons ou maus. Idealização primitiva: é o exagero de ver objetos externos como bons, excluindo falhas e não tolerando imperfeição. Em contraposição, há a desvalorização dos outros ou a percepção deles como persecutórios e perigosos. Identificação projetiva: tendência para continuar a experenciar o impulso e projetar em outra pessoa; medo da outra pessoa (acha que está sob controle daquele impulso projetado); necessidade de controlar aquela pessoa. Denegação: tem consciência de que seus pensamentos, sentimentos e percepções são opostos aos expressos, porém isso não consegue influenciar o seu estado mental atual. Onipotência e desvalorização: derivadas da clivagem, são representadas pela alteração de recursos egóicos que refletem um self altamente inflado que relaciona-se com representações diferenciadas dos outros (incluindo a projeção de aspectos desvalorizados do self). A capacidade do teste de realidade “de diferenciar entre o self e não self e entre as origens intrapsíquicas e externa das percepções e estímulos, e de avaliar o próprio afeto, comportamento e pensamento em termos de normas sociais comuns” (p.17) é mantida. As características estruturais secundárias afetam o prognóstico do distúrbio, mas não estão relacionados. Elas são manifestações inespecíficas da fraqueza do ego (falta de controle de impulso, falta de tolerância à ansiedade e falta de canais desenvolvidos de sublimação), patologia do superego (sistema de valores imaturos, características anti sociais, exigências morais contraditórias) e relações objetais caóticas. Conforme Kernberg (apud Gabbard, 1998) os pacientes atravessaram a fase simbiótica (descrita por Margaret Mahler) com sucesso, onde o self e o objeto foram diferenciados, mas se fixaram na fase de separaçãoindividuação. Sob esse ponto de vista, o paciente Borderline revive esta crise infantil, através do medo de ser abandonado, não tolerando a solidão (devido a alteração da disponibilidade emocional da mãe, devido a agressão da criança e problemas maternos com a paternidade o que gera a falta de constância objetal no paciente, onde os pacientes não tem imagem interna da mãe).  Mahler (apud Gabbard, 1998) assinalou que é reducionista não considerar outras subfases e influências edípicas. Kernberg também foi criticado por não considerar uma possível regressão de aspectos edípicos a conflitos mais precoces, diz Meissner (apud Gabbard, 1998). Storolow e Atwood (apud Gabbard, 1998) sugeriram que as observações agressivas de Kernberg a estes pacientes pode ser vista com “origem na confrontação e interpretação precoce da transferência negativa” (p.306). Masterson e Rinsley (apud Gabbard, 1998) enfocavam a subfase de reaproximação, enfatizando a conduta da mãe como causadora disso. Nas suas pesquisas viam que elas eram conflituadas em relação ao crescimento dos filhos gerando a dependência do vínculo materno. Eles foram criticados por culparem as mães e não levarem em conta fatores constitucionais. Adler (apud Gabbard 1998) dizia que a maternagem insconsciente não cria um objeto continente. Compreendia que estas pessoas buscavam funções de objeto do self em figuras externas por não possuírem introjeções confortadoras. Ele falava que assim como as crianças entre 8 e 18 meses, esses pacientes numa situação de estresse não conseguiam evocar figuras importantes que não estivessem fisicamente presentes. A falta de objeto interno cria sentimentos de vazio e tendências depressivas, dependência, não disposição de recursos internos adequados, tendência a fragmentação do self acompanhada por um profundo vazio descrito por “Pânico de aniquilação”. A ausência de introdução continentetranqüilizadora leva a uma raiva oral severa. Adler foi criticado por valorizar as questões orais e por negligenciar aspectos edípicos dos pacientes Borderline e também por enfatizar os déficits cognitivos, diz Meissner (apud Gabbard, 1998). Gunderson (apud Gabbard, 1998) referiu que os cuidados parentais inadequados acontecem ao longo de todas as fases da infância. Kernberg (apud Storolow e Lachman, 1983) menciona que tanto os pacientes fronteiriços como os narcísicos se fundamentam, numa organização defensiva centrada no splitting. Para ele a perturbação narcísica da personalidade é uma variante da condição fronteiriça, diferentemente de Kohut que as distingue claramente. O narcisismo compreende aquelas operações mentais cuja função é regular a autoestima (o colorido afetivo da representação do self) e manter a coesão e a estabilidade da representação do self. A auto-estima é constituída por um quadro afetivo coeso do self, onde a auto-estima elevada é a predominância de afetos prazerosos e a baixa auto-estima é uma predominância de afetos desprazerosos. Para eles, a diferença entre os transtornos narcísicos e o Borderline, é que o primeiro alcança um self coeso, mesmo que arcaico e constrói imagos parentais coesas e idealizadas, não estando ameaçados com a possibilidade de descompensação irreversível. Além disso, conforme Kohut (apud Zimerman, 1999) a existência dos self objetos (objetos parentais que são responsáveis pela estruturação do self) com falhas empáticas gera os vazios existenciais, presentes nos transtornos narcisistas e no Borderline.  O narcisismo está mal estabelecido e frágil, necessitando de compreensão, respeito, afeto e apoio refere Stern (apud Bergeret). Para Bergeret (1998) o estado limítrofe (organização – provisória) apresenta-se entre a neurose e a psicose (estruturas irreversíveis – estáveis) e é próprio da estrutura neurótica repousar no conflito latente que opõe id ao superego através do ego, concebido como genital e edipiano. A estruturação psicótica corresponde a um conflito entre pulsões e realidade, onde o ego é excluído. Ainda, para este autor, as organizações limítrofes constituem estados (mal ordenados) indecisos do ego ainda não estruturado, onde as defesas conservam um grau de flutuação. As organizações limítrofes resistem mal às frustrações atuais que despertam antigas frustrações. Utilizam-se de traços de caráter paranóico para afastarem quem poderia frustrá-los. A regressão não incide sobre as representações e há uma degradação parcial da própria pulsão. Além disso, Bergeret fala na evolução do tronco comum dos estados limítrofes: o ego superou o momento em que as relações iniciais com a mãe poderiam operar uma pré-organização do tipo psicótico. Por ocasião do Édipo, vive o risco de perder o objeto (trauma psíquico precoce) onde “uma emoção pulsional sobreveio em um estado ainda mal organizado e imaturo demais quanto ao seu equipamento, suas adaptações e defesas, para que pudesse ser enfrentado em condições inofensivas” (p.120). É difícil para a criança negociar tal relação triangular com os objetos, negociar tais sentimentos de amor e hostilidade assim como utilizar o recalque para eliminar da consciência o excesso de tensão sexual ou agressiva. As imperfeições/fracassos serão freqüentes fazendo com que a criança apele para defesas mais arcaicas. Este trauma será o primeiro desorganizador da sua evolução, esta que se encontrará fixada em uma pseudolatência (mais precoce e mais durável que a latência normal), em que bloqueia afetivamente a maturidade afetiva do ego, em que este não está sexualmente diferenciado constituindo o tronco comum dos estados limítrofes. Esse tronco não é uma estrutura, apenas consegue ficar em situação ordenada (não fixado). É um esforço do ego com contrainvestimentos ou formações reativas com o objetivo de permanecer a igual distância das duas estruturas: psicótica (já superada) e neurótica (ainda não atingida) pela evolução adaptativa e pulsional do sujeito. O núcleo do ego não é atingido pela clivagem. Ele deforma-se em algumas funções e irá operar: Como um registro adaptativo – em todo corpo relacional enquanto não houver ameaça para o indivíduo (plano narcísico e genital). Registro anaclítico: desde que apareça uma ameaça de perda do objeto (plano narcísico e genital). Bergeret (1998) considera ainda dois outros mecanismos de defesa como sendo fundamentais das organizações limítrofes: Evitação (evitar encontrar com a representação constrangedora). Forclusão (faz-se necessário rejeitar uma representação constrangedora – dirige-se a imagem paterna cuja representação simbólica é preciso rejeitar). Ainda este autor considera que a angústia predominante é a de depressão, uma angústia de perda do objeto. Não é uma depressão do tipo melancólico porque o objeto não se acha intrometido e o luto permanece impossível. Desta maneira, “a angústia de depressão situa-se dizendo respeito ao passado e ao futuro” (p.126). E remete a Greenson que diz que “um passado infeliz atesta uma esperança de salvação investida na relação de dependência fecunda do outro” (p.126). O superego possui um papel inadequado. O ideal de ego é o pólo em torno do qual organiza-se a personalidade. A função e o retraimento dos primeiros elementos superegóicos desenvolveu mais essa inflação do ideal de ego, ocupando a maior parte do que o superego deveria se ocupar. Por esse ideal ser mais arcaico que o superego, as personalidades permanecem incompletas e frágeis não constituindo estruturas. Esses sujeitos manifestam imensa necessidade de afeto e são sedutores. Por terem dificuldade para se envolver com outras pessoas tornam-se disponíveis e adaptativos a qualquer momento. O ego “conserva em suas fixações um olhar ainda voltado para a antiga indistinção somatopsíquica (P. Marty, M de M’uzan e C. David apud Bergeret, 1998). Esses sujeitos buscam fazer o bem para conservar a presença do objeto e a relação do objeto permanece na dependência anaclítica. O fracasso não lhes gera culpa e sim vergonha (linhagem narcisista) por se projetarem nos outros. Além disso, em qualquer momento da vida o sujeito pode viver uma descompensação. Para Gabbard (1998) estes pacientes exigem relacionamentos que sobrecarregam ou isolam. Junto a outras pessoas apresentam dupla ansiedade: o medo de fundir-se com a pessoa e perder a sua identidade; e o medo de serem rejeitados e abandonados. Por medo da solidão, podem cometer gestos suicidas. De acordo com o DSM IV (1995) estas pessoa se boicotam quando há uma meta a ser alcançada. Alguns desenvolvem sintomas psicóticos durante situações de estresse. Podem se sentir mais seguros com objetos transicionais do que com relacionamentos interpessoais. Os pais alimentam essa dependência e diante destas exigências e contradições a criança se debate com dois egos ideais, materno e paterno. Conforme Anna Freud (1987), a criança revive este conflito e não introjeta, resultando num superego intolerante. “A introjeção da autoridade externa, isto é, parental, é adicionada a essa nova agência interna durante e depois do período Edípico. Surge, pois, do status de um mero ideal desejável ao de um legislador real e efetivo, isto é, o superego que, doravante, se encarrega de regular internamente o controle do impulso” (p.155).  Hegenberg (2000) menciona que para Jacques Lacan o transtorno de personalidade Borderline não existe, porque para ele as estruturas seriam três: neurótica (castração relacionada com o recalque), psicose (relacionada com a forclusão) e a perversão (relacionada com a recusa). A tendência seria considerá-lo uma histeria grave ou perversa. Este autor refere que para Winnicott o bebê não teve um ambiente suficientemente bom assim reagindo mal às invasões que sofreu na vida. Portanto, não é capaz de usar/destruir o objeto, estabelecendo relações anaclíticas com objetos subjetivos, porque o self não está constituído (o self não é o ego, é o eu). Este paciente não teve holding adequado e por isso não conseguiu desenvolver a capacidade de ficar só, teme sempre a ameaça de aniquilação. Ainda, tal paciente não conhece seu potencial e os padrões a que pretende seguir são inalcançáveis, se atrapalhando mais ainda. Ele é presunçoso e acredita ter sucesso rápido e como isso não acontece, se frustra e desiste da tarefa sem obter resultados. O ideal do ego paralisa a vida dele lhe proporcionando ter uma relação de idealização com o outro, ora idolatrando, ora odiando. As organizações limítrofes têm suas relações de objeto do tipo anaclítica, de dependência, onde ora um é grande, ora o outro é pequeno; um é o perseguidor e o outro é o perseguido. Trata-se de ser amado e ajudado por ambos os pais (Bergeret, 1998). Entretanto, não consegue se opor aos objetos anaclíticos e precisa agredi-los para conseguir se separar. Devido ao fato dele não ter subjetividade construída e ser dominado pelo ideal do ego, tem sentimentos de vazio e não tem objetivos definidos. O Borderline possui dificuldade para compreender e aceitar as necessidades alheias. Quando contrariado pode tornar-se agressivo, ter reações explosivas pois não consegue controlar seus impulsos. Também, pode se auto-agredir quando não encontra apoio. O abuso de álcool e drogas, as ameaças de automutilação e a predisposição ao suicídio são comuns para aliviar a sua depressão. A busca frenética por um parceiro sexual é usual, sendo que não há cuidados com as situações de risco. Apesar de ter ganhos secundários com isso, as suas atitudes são perigosas porque originam-se de uma pessoa com medo e desesperança. Sobre a epidemiologia, Kaplan (1997) menciona que o transtorno de personalidade Borderline acomete de 1 a 2% da população, sendo duas vezes mais comum em mulheres. De acordo com o DSM IV (1995), este transtorno inicia-se na fase adulta, geralmente quando há escolhas ocupacionais, conjugais, etc. a fazer. É cinco vezes mais comum entre parentes biológicos do primeiro grau do que na população em geral. Considerações finais Se pensarmos em uma lista de sintomas para tais pacientes, poderíamos afirmar, a partir do que escrevemos que tais pacientes apresentam boa capacidade geral do teste de realidade, fragilidade do ego, são impulsivos, não toleram dificuldades alheias, têm sentimentos de vazio, são inseguros, idealizam o outro, as relações são intensas e instáveis, o ideal do ego predomina, são sedutores, necessitam de afeto, têm tendências paranóides, podem fazer uso de substâncias químicas, podem ter gestos suicidas e de auto-mutilação, além de serem exagerados e às vezes serem agressivos… E apontaríamos que o uso de fármacos para esta patologia não tem sua eficácia definida. Geralmente, são utilizados antidepressivos inibidores seletivos da captação da serotonina para diminuir sintomas impulsivos e baixas doses de antipsicóticos podem ajudar aliviar alguns sintomas. A prescrição deve ser pouca e acompanhada de tratamento psicoterápico (Kaplan, 1997). Porém, não podemos nos restringir a uma visão reducionista de tentar enquadrar tais pacientes em sintomas pré-listados. É preciso compreender o funcionamento psicodinâmico deles, assim como de qualquer outro paciente. Assim, poderíamos inferir que o paciente Borderline requer adequado tratamento e apoio das pessoas, pois a ansiedade proveniente se deve ao medo de ser abandonado. O mundo externo e as relações vinculares são complexos e por ele não conseguir lidar com isso, sente-se incapaz, cabendo ao analista acolhê-lo, incentivando a dependência dele para juntos conseguirem trabalhar e assim resgatar a sua auto-estima, trabalhando o seu desenvolvimento e construindo o simbolismo que lhe falta. Hegenberg (2000) considera essencial dar holding a estes pacientes para que constituam um self verdadeiro (Winnicott). Considera-se que houve falha durante a maternagem e ele sempre precisará do objeto para recompor sua subjetividade. É uma parada no desenvolvimento, ou seja, certas internalizações para estruturar a representação do mundo não puderam acontecer porque não houve sincronia adequada entre o ambiente e o desenvolvimento da criança (Storolow e Lachman, 1983). O terapeuta passa ser o objeto-subjetivo numa relação anaclítica (apoio) para ele tornar-se sujeito dele mesmo. Dessa forma, o objetivo do paciente Borderline com a psicoterapia individual consistirá no fortalecimento do ego para tolerar a ansiedade e controlar os impulsos; integrar as representações dissociadas do self e do objeto formando um visão coesa de si e dos outros para suportar separações (Gabbard, 1998). Para terminar, recordo Green (1986) que nos remete a uma citação de Freud em Novas Conferências (1932/1996) em que ele revela a preocupação com as relações e os problemas de delimitação entre as instâncias da personalidade psíquica, o qual associou com o conceito Borderline : Ao pensar nessa divisão da personalidade em um ego, um superego e um id, naturalmente, os senhores não terão imaginado fronteiras nítidas como as fronteiras artificiais delineadas na geografia política. Não podemos fazer justiça às características da mente por esquemas lineares como as de um desenho ou de uma pintura  primitiva, mas de preferência por meio de áreas coloridas fundindo-se umas com as outras, segundo as apresentam artistas modernos. Depois de termos feito a separação, devemos permitir que novamente se misture, conjuntamente, o que havíamos separado… É altamente provável que o desenvolvimento dessas divisões esteja sujeito a grandes variações em diferentes indivíduos; é possível que, no decurso do funcionamento real, elas possam mudar e passar por uma fase temporária de involução (p.83).

Referências bibliográficas

BEDANI, Ailton. Texto sobre Borderline. http://www.org2.com.br/histborders.htm Capturado em 30.06.02 às 22h11min

BERGERET, Jean. A personalidade normal e patológica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. DSM IV – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

FREUD, Anna. Infância normal e patológica: determinantes do desenvolvimento. Rio de Janeiro; Guanabara, 1987.

FREUD, Sigmund. Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. Obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1932/1996.

GABBARD, Glen O. Psiquiatria psicodinâmica: baseado no DSM IV. Porto Alegre: Artmed, 1998.

GREEN, André. Conferências Brasileiras, 1986.

HEGENBERG, Mauro. Borderline. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

KAPLAN, Harold I. e outros. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

KERNBERG, O. Psicoterapia Psicodinâmica de Paciente Borderline. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

KOHUT, Heinz. Self e narcisismo. Rio de janeiro: Zahar Editores, 1984.

LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

STOROLOW, Robert D. e LACHMAN, Frank M. Psicanálise das Paradas do desenvolvimento: teoria e tratamento. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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O que é família disfuncional?

“A influência dos relacionamentos entre os membros de uma família nos problemas individuais e familiares é um consenso entre muitos profissionais da área.”

O Que é Família Disfuncional

Uma família disfuncional é aquela que responde as exigências internas e externas de mudança, padronizando seu funcionamento. Relaciona-se sempre da mesma maneira, de forma rígida não permitindo possibilidades de alternativa. Podemos dizer que ocorre um bloqueio no processo de comunicação familiar”. Ainda que este comportamento soe doentio, ele tem que ser mantido, mesmo que para isso um membro da família seja eleito para ‘ser’ ou ‘ter’ o problema. Os sintomas do ‘paciente identificado’ constituem a expressão de uma disfunção familiar e o tratamento deve ser feito considerando as inter-relações que se estabelecem no grupo. Sempre que se fala em família disfuncional, estamos falando de doença nas famílias. Assim, temos todo o funcionamento familiar envolvido nesse problema”. Alguns autores psicanalistas, como José Bleger e Eduardo Kalina, desenvolveram bastante a questão das dinâmicas familiares. Pode-se falar em dois modelos básicos de desestruturação nas relações familiares: “há as famílias ‘cindidas’ e as famílias ‘simbióticas'”. Nas primeiras, os membros das famílias não conseguem se relacionar entre si. Encontram-se divididos, dispersos. Funcionam e se relacionam como se, ao ficarem juntos, todos corressem riscos do ponto de vista emocional. Assim, as pessoas não podem ter um relacionamento afetivo, são frias entre si. A doença dessas famílias cindidas está na dificuldade de convívio. Os membros percebem que ao conviverem entre si eles se machucam e se afetam negativamente, uns aos outros. Já no extremo oposto, temos as famílias simbióticas, aquelas em que os membros da família vivem num estado de fusão. Não há diferenciação entre os papéis familiares, estes são confusos e não divididos. As pessoas sentem dificuldades em viver independente dos outros membros da família, estão num estado de constante ‘grude’. Em ambos os casos, está-se falando de doenças familiares do ponto de vista do desenvolvimento afetivo, inter-relacional e de organização psíquica. A Divisão de Papéis dos Membros de uma Família Disfuncional As disfunções de relacionamento e de papéis dentro das famílias podem afetar seus membros psicologicamente, tanto no contexto individual, quanto no familiar. “As famílias estão doentes e podem eleger um dos membros para ‘representar’ a doença da família”. É o caso que muitas vezes ocorre em famílias psicotizantes: as mães, muitas vezes, possuem este poder de psicotizar algum dos filhos. Este, por sua vez, torna-se o membro doente da família, representando e assumindo toda a carga de dificuldades para si. Segundo alguns autores, a isso se chama ‘paciente identificado’. “Este é o chamado ‘bode expiatório familiar'”, que com a presença de um membro que assuma e representa toda a doença da família, os outros se vêem ‘livres’ de seus próprios conflitos e dificuldades. “A família se sente sã enquanto possui um membro doente”. Além do caso já citado das psicoses e esquizofrenias, vale lembrar a situação também bastante comum entre a família de dependentes químicos. De acordo com o psicoterapeuta familiar italiano Carminne Saccu, em conferência realizada na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, no ano passado, desenvolveu bastante a tese da interferência dos pais na formação de doenças psicóticas nos filhos. As Conseqüências Também Atingem as Crianças Muitas das crianças que são atendidas na clínica apresentam conflitos e problemas de desenvolvimento escolar em função do funcionamento psíquico e emocional dos pais. “As ansiedades e as expectativas dos adultos interferem na vida das crianças. Há os casos clássicos de famílias desestruturadas ou que sofreram perdas e estão vivenciando um período de luto patológico que também interfere no funcionamento de um de seus membros. Mas, obviamente, podemos falar que os usuários de drogas, que se tornam dependentes, são a manifestação de um conflito familiar que deve ser ocultado. Assim, o dependente químico apresenta-se, segundo nos explica o psiquiatra argentino, especialista em tratamento de usuários de drogas, Eduardo Kalina, para se ‘sacrificar’ em nome da família”. A partir do casamento, o casal passa a vivenciar a relação a dois, procurando seu ponto de equilíbrio. “Nesta busca, chega o primeiro filho que, muitas vezes, representou uma exigência indireta da sociedade, dos pais e até uma tentativa do próprio casal de superar algumas dificuldades no relacionamento”. O filho pode ocupar diferentes lugares na família. Para alguns casais, o filho é um presente especial que o marido oferece à esposa, para que ela possa se ocupar. O filho pode ser usado como forma de dar sentido à vida do casal cujos laços estão debilitados. Porém, a chegada de um terceiro elemento requer um processo de aceitação e adaptação. O homem e a mulher que exerciam a função de esposos, passam a desempenhar a função de pais. Exercer estes papéis de forma harmoniosa é uma dura tarefa para aqueles que não tinham alcançado o equilíbrio a dois. Assim como a criança pode apresentar-se para ser um paciente identificado, o dependente químico se envolve com a droga, torna-se doente, para salvar a família de sua doença. Todos podem deslocar e projetar sobre esse membro os seus conflitos, passando a se sentir livres de problemas, enquanto um membro representa toda a doença naquela família. Pais podem se sentir aliviados de seus conflitos de casal ao terem um filho que passa a representar o problema da casa. Tratamento Como não se trata de um problema orgânico, não há como tratar com remédios a família disfuncional. Acredita se que as causas da doença e da desestruturação familiar estão no funcionamento psíquico dos membros da família. Não podemos falar em questões orgânicas, assim, não há como tratar de forma medicamentosa uma família. Claro que existem as repercussões individuais das doenças familiares, que algumas vezes podem se beneficiar do uso de drogas medicamentosas. Mas, deve-se esclarecer, que não é um tratamento para a família e sim para um sintoma de um dos membros da estrutura familiar”. Por exemplo, um membro psicótico pode ser beneficiado com o uso de algumas medicações, em casos específicos. Há os casos de melancolia e de lutos patológicos, nestes casos o uso de medicamentos pode ser eficaz. O tratamento da família disfuncional, portanto, deve ser feito, através de psicoterapias familiares de base psicanalítica. Dessa forma, pode-se trabalhar todas as nuances envolvidas no comprometimento do relacionamento interpessoal dos membros das famílias. No caso das dependências químicas, não basta apenas realizar um tratamento com o membro dependente de drogas. É fundamental e imprescindível que o dependente busque tratamento, mas não podemos esquecer que ele é o reflexo de um conflito familiar. A família está doente como um todo e deve ser tratada. O ideal, nesses casos, é que o paciente identificado tenha ajuda individual e que a família inicie uma psicoterapia familiar, com a presença de todos os seus membros. Assim as dificuldades individuais e familiares estarão sendo trabalhadas. Existe Cura? Há possibilidades real de melhoria nos padrões de relacionamento familiar, em função de um bom trabalho psicoterápico. Quando pensamos em cura devemos ter alguns cuidados, evidentemente, um padrão que existe há anos em um grupo familiar não será modificado de uma hora para outra, sem deixar marcas. Contudo, a qualidade afetiva do relacionamento entre os membros de uma família, a definição dos papéis de cada um, pode ser bastante melhorada, gerando bons frutos para todos os membros. Cada pessoa de uma família deve assumir a sua parcela de ‘doença’ e de responsabilidade pelos problemas de um grupo familiar. Assim, todos poderão viver melhor, sem utilizar um único ‘bode expiatório’ para todos os conflitos de um grupo.

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Amor animal O fenômeno das relações fluidas e descartáveis estimula análises profundas sobre a extimidade humana e pauta pesquisas sobre o vínculo afetivo com o bicho de estimação, com resultados imprevistos

Amor animal
O fenômeno das relações fluidas e descartáveis estimula análises profundas sobre a extimidade humana e pauta pesquisas sobre o vínculo afetivo com o bicho de estimação, com resultados imprevistos

Por Andreia Calçada

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Será que o afago de um bicho de estimação, um abanar de rabo do cachorro ou um miado do gato podem substituir o afeto oriundo do relacionamento com um ser humano? O animal não discute, pode ser punido sem maiores problemas e provavelmente não vai trocar de dono. Controlá-lo é muito mais fácil e confortável. Mas isso basta?

O artigo aqui proposto foi pautado em pesquisa realizada em diversos países pela Ipsos/Reuters, que aponta que um em cada cinco cidadãos do mundo prefere passar o Dia dos Namorados (comemorado em 12 de junho no Brasil e 14 de fevereiro em outros países) com o animal de estimação em vez do parceiro. A Ipsos é referência mundial em pesquisa de mercado e interpretação de dados. Criada em 1975 na França, presente no Brasil desde 1997, consolidou-se como uma das maiores empresas de pesquisa do mundo.

A pesquisa, realizada globalmente, aponta que um em cada cinco adultos (21%) em 23 países (que representam 75% do PIB mundial), se pudesse optar, passaria o dia com sua mascote, e não com seus companheiros. Mas 79% discordam e preferem passar o dia com seus parceiros ao animal de estimação. No Brasil, o número chega a 18%, ficando atrás da Argentina e da Espanha, por exemplo.

Andreia Calçada é psicóloga, psicoterapeuta com formação em Psicoterapia Breve e TCC, Ludoterapeuta, pós-graduada em Psicopedagogia Clínica, especialista em Psicologia Clínica e Psicopedagogia, especialização em Neuropsicologia e Psicologia Jurídica. Autora de diversos livros, entre eles Falsas acusações de abuso sexual – O outro lado da história.

Contrariando o estereótipo, a pesquisa revelou que não é o sexo que determina essa vontade, mas sim a idade. Os mais velhos estão menos propensos a trocar o parceiro pelo animal de estimação.

A pesquisa realizada com mais de 24 mil adultos – mais de mil por país – mostra que os entrevistados da Turquia (49%) são os mais propensos a passar o tempo com um animal de estimação e não com o parceiro, seguidos pelos da Índia (41%), do Japão (30%), da China (29%), dos EUA (27%) e da Austrália (25%).

Por outro lado, na lista dos países onde as pessoas estão menos dispostas a passar o dia com um animal de estimação e não com os seus parceiros, aparece em primeiro lugar a França (10%), seguida por México (11%), Holanda (12%) e Hungria (12%).

A pesquisa ainda revela que os que estão menos propensos a passar o Dia dos Namorados com os animais de estimação deixando de lado os parceiros são homens (79%) e mulheres (70%), com mais de 50 anos (86%), seguidos por aqueles que têm entre 35 e 54 anos (82%) e dos que estão abaixo de 35 (75%), de classe média (80%) e alta (80%), seguidos pela classe baixa (76%).

Apesar do número de pessoas que prefere, claro, passar o Dia dos Namorados com o companheiro ser maioria, o que nos chama a atenção nesta pesquisa é a elevada estimativa dos que não hesitam em trocar a companhia do parceiro pelo fiel bicho de estimação.

Para saber mais
Estudo mundial aponta um número relevante de pessoas que trocariam a companhia do parceiro pelo animal de estimação. Veja alguns países que participaram da pesquisa

Em Psicologia e Psiquiatria, o Narcisismo excessivo se configura no que chamamos de Transtorno da Personalidade Narcisista. Talvez aqui, relacionar-se apenas com seu bicho de estimação seja uma boa saída

Grandes benefícios
De acordo com a literatura pertinente, a companhia dos animais pode trazer benefícios para a saúde e para o estado emocional do ser humano. Há comprovação científica na ajuda do controle do estresse, da pressão arterial e de problemas cardiovasculares.

Tem grande importância para os idosos, pois se deixam tocar e acariciar. São indicados em casos de depressão, tornando-se motivação de vida e ocupando vazios existenciais na vida das pessoas. Estudos demonstram que esta relação aumenta a produção de endorfina, o que melhora sentimentos depressivos. Diminui ainda a percepção “da dor” e aumenta o número de células de defesa do organismo

A convivência com bichinhos de estimação ensina as crianças a respeitarem a natureza, além de torná-las mais calmas e carinhosas. Aquelas com problemas psicológicos também se beneficiam deste contato. Pesquisadores já demonstraram que a posse de um animal de estimação durante a infância é uma influência extremamente importante para a construção de uma conduta adulta favorável e para alcançar um ótimo desenvolvimento social.

O dado de maior relevância nesta pesquisa, que se mostra superficial, já que não foram investigados os motivos sobre a preferência animalesca dos entrevistados, é de que tal preferência estaria mais vinculada à idade e não ao sexo. Estas respostas foram associadas a pessoas mais jovens.

Inevitavelmente, vinculamos a possibilidade da ocorrência de tal resultado a questões culturais e sociais do mundo contemporâneo. Os mais jovens nascem em uma época de consumismo exacerbado, da internet, das informações fugazes e extremamente rápidas que se modificam a todo o momento. Diferentemente do que os mais velhos viviam há poucas décadas, os jovens vivenciam as relações mediadas pelas redes sociais que facilitam a interação por um lado e dificultam por outro. A facilidade hoje é viver o que se chama de extimidade, contrariamente ao que chamaríamos de intimidade. Os segredos, acontecimentos e sentimentos são vividos em exposição pública, divididos nas redes sociais para quem quiser olhar. É a intimidade para que todos olhem.


Pesquisadores demonstraram que a posse de um animal de estimação durante a infância é importante para o desenvolvimento da conduta social 


 Equoterapia 
Na relação homem e animal, o tratamento terapêutico se faz cada vez mais presente e eficaz. O vínculo cavalo-cavaleiro, estabelecido desde as primeiras sessões de equoterapia, desenvolve a afetividade e o ganho da autoconfiança e da autoestima. A intensidade das sensações e das emoções provocadas pela abordagem do cavalo conduze ao indivíduo o confronto consigo mesmo, que é corporal e psicoafetivo ao mesmo tempo.


Sem troca mútua

Ressalto que não há aqui julgamento de valor, mas sim de vivências inerentes a uma época que traz, sim, a dificuldade de viver a intimidade. É comum hoje ver crianças, adolescentes e adultos jovens brincando ou sentados juntos, porém, individualmente vinculados aos seus games ou celulares, buscando e-mails e acessando suas redes sociais. Sem palavras. Sem a observação do outro. Muitas vezes, sem a observação sobre si mesmo. A vida se modifica, o tempo corre e não dá tempo para troca mútua. E quando estamos juntos, a tecnologia media a relação. Será isto preconceito de alguém em torno dos 40? Será que isso se vincula ao resultado da pesquisa?

Relacionar-se é difícil e dá muito trabalho e, além disso, pode gerar dor e sofrimento. Aliás, muitas vezes é o que acontece. É natural. A dor do término, da rejeição, da traição, mas há também a dor da mudança, do crescimento que pode ser alcançado dentro de um relacionamento. A ameaça do abandono e o medo de envolvimento podem ser um dos principais motivos para se querer passar o Dia dos Namorados apenas com o animal de estimação. Nada contra esse desejo, desde que isso seja uma exceção à regra, e não uma constante e feita de forma consciente. Defender-se do amor gera desamor contínuo e infelicidade.

No casamento contemporâneo, tal encontro é ainda mais dificultado pelo individualismo como padrão social estimulado. O eu é priorizado em detrimento ao nós, o que gera dificuldades no relacionamento. A questão então é como se equacionar para que o “NÓS” seja priorizado sem que o “EU” seja totalmente colocado de lado. Segundo a psicóloga Therezinha Feres Carneiro (1998), a constituição e a manutenção do casamento contemporâneo são muito influenciadas pelos valores do individualismo. Os ideais contemporâneos de relação conjugal enfatizam mais a autonomia e a satisfação de cada cônjuge aos laços de dependência entre eles. Por outro lado, constituir um casal demanda a criação de uma zona comum de interação, de uma identidade conjugal. Ainda segundo ela, o casal contemporâneo é confrontado, o tempo todo, por duas forças paradoxais que denomina de “o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade”. Se, por um lado, os ideais individualistas estimulam a autonomia dos cônjuges, enfatizando que o casal deve sustentar o crescimento e o desenvolvimento de cada um, por outro, surge a necessidade de vivenciar a conjugalidade, a realidade comum do casal, os desejos e projetos conjugais.

Vaidade da exposição
Impossível não remeter, ao falar deste assunto, ao Hedonismo e ao Narcisismo, que minimamente a própria cultura incute e expande. A beleza cultuada ao extremo, a vaidade que em algumas pessoas precisa ser mostrada pelo carro maior e mais caro, roupas e acessórios. A necessidade muitas vezes de mostrar ostentação nas redes sociais, por meio de fotos de viagens e conquistas anunciadas. Até mesmo pela quantidade de amigos que se tem no Facebook. A competitividade e o individualismo exacerbados no capitalismo fazem que as pessoas se entorpeçam pela imagem de poder e ali se perdem suas relações.

O Hedonismo é a doutrina que afirma ser o prazer individual e imediato o supremo bem da vida humana. O Hedonismo moderno procura fundamentar-se numa concepção mais ampla de prazer, entendida como felicidade para o maior número de pessoas. Portanto, o prazer individual se estabelece e prepondera sobre o outro. Se há conflito na relação, esta deve ser colocada de lado.

Os ideais contemporâneos de relação conjugal enfatizam mais a autonomia e a satisfação de cada cônjuge aos laços de dependência entre eles

O termo narcisismo e o nome Narciso derivam da palavra grega narke, que significa “entorpecido”, de onde também vem a palavra narcótico. Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, visto que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram por sua beleza.

 O narcisista apresenta dificuldades em estabelecer vínculos reais. O outro existe para satisfazer suas necessidades. Sendo assim, os bichos de estimação não reclamam e dificilmente geram conflito na relação

O narcisista apresenta dificuldades em estabelecer vínculos reais, baseados em relações de troca, em que a empatia se mostra presente numa postura de respeito e consideração ao outro. Suas relações normalmente são superficiais e de controle, e as principais manobras acontecem por meio do poder de manipulação e persuasão, ou poder de coerção e intimidação. Contrariá-lo pode gerar graves conflitos. Preservar a própria individualidade de quem convive com eles é um grande desafio. Normalmente, seus parceiros são pessoas submissas, com baixa autoestima. O outro existe para satisfazer suas necessidades, mesmo que para isto precise feri-las (em vários sentidos). Em Psicologia e Psiquiatria, o Narcisismo excessivo se configura no que chamamos de Transtorno da Personalidade Narcisista. Talvez aqui, relacionar-se apenas com seu bicho de estimação seja uma boa saída. Os bichos de estimação não reclamam e dificilmente haverá conflitos nesta relação.

Freud acreditava que algum nível de Narcisismo constitui uma parte do desenvolvimento humano. Em Psicanálise, o Narcisismo representa um modo particular de relação com a sexualidade, sendo um conceito crucial para a formação da teoria psicanalítica tal qual conhecemos hoje. Portanto, o Narcisismo não é apenas uma condição patológica, mas também importante na estruturação da personalidade, um protetor do psiquismo. Constitui uma imagem integrada de si mesmo. Vai além do autoerotismo para fornecer a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.

 Estudos mostram que relação de afeto com o animal de estimação pode aumentar a produção de endorfina, o que melhora sentimentos depressivos

Entre homens e mulheres
Segundo o sociólogo Clairton Lopes, o contexto cultural que garantia a estabilidade das relações amorosas e de casamento hoje mudou drasticamente. As relações afetivas não são mais garantidas por um quadro normativo e a família não é mais o único espaço de relações de convivência entre homens e mulheres. Os relacionamentos ocorrem por escolha das pessoas, não havendo garantia de estabilidade.

Ainda segundo o sociólogo, os elos das relações afetivas e amorosas são cada vez mais frágeis. As relações são rompidas ou mantidas com base em escolhas que devem ser continuamente confirmadas, exigido contínuo investimento para sua manutenção. As relações entre os sexos, principalmente as amorosas, tornaram-se um trabalho que requer investimento de tempo e energia. E transformaram-se, assim, em um novo fator de estresse. Em primeiro lugar, porque a incerteza é emotivamente ameaçadora e, em segundo, porque o investimento afetivo sobrepõe-se e entra em conflito com outras exigências e outros tempos de nossa vida cotidiana.

Segundo Therezinha Feres Carneiro (2008), o atual momento social é descrito como uma era cujas mensagens e fenômenos são confusos, fluidos e imprevisíveis. O sociólogo Zygmunt Bauman (2003) in Carneiro, denomina esta era como “modernidade líquida” e compara o momento atual com o mundo darwiniano, onde o melhor e mais forte sobrevive. Os sentimentos são descartáveis, assim como os relacionamentos, em prol da sensação de segurança. Assim, a sociedade contemporânea enfrenta um paradoxo. A fragilidade do laço e o sentimento de insegurança inspiram um conflitante desejo de tornar o laço intenso e, ao mesmo tempo, deixá-lo desprendido.

As relações entre os sexos, principalmente as amorosas, tornaram-se um trabalho que requer investimento de tempo e energia. E transformaram-se, assim, em um novo fator de estresse

Demandas paradoxais
O amor passou a ser temido como a morte, sendo encoberto pelo desejo e a excitação de consumir, de ter tudo rapidamente e de poder descartar quando não houver mais prazer. Como se o desejo estivesse submetido à lei da compulsão, posto que não há tempo para o cultivo e a semeadura do desejo. Homens e mulheres mostramse ansiosos por um relacionamento em que não se sintam descartáveis, porém, apresentam temor com a possibilidade de estarem continuamente vinculados. O compromisso é visto como limitador da liberdade e provoca sentimentos tidos como intoleráveis. Como o casamento não é mais uma relação tida como “natural”, pode ser rompida a qualquer momento.

A conclusão é que a referida pesquisa, que em um primeiro momento se mostra superficial, merece maiores aprofundamentos que possam se articular aos questionamentos aqui realizados.


As relações afetivas não são mais garantidas por um quadro normativo e a família não é mais o único espaço de relações de convivência entre homens e mulheres 

Querer conviver com animais é importante, porém, o animal não pode ser substituto das relações humanas. Trocas afetivas amorosas são fundamentais para o crescimento pessoal e social e não podem ser substituídas de forma rígida e inflexível pelo convívio com o animal, correndo o risco de se transformar em defesa neurótica contra o medo do abandono. Amar é risco, se doar é risco, ouvir e ser ouvido é sempre bom.

Olhar as relações como aprendizado talvez seja uma boa forma de continuar investindo e fazendo a sua parte. “Que seja eterno enquanto dure”! Mas com qualidade e equilíbrio. Equilíbrio não só com relação à necessidade desmedida de buscar prazer, mas de buscar dar prazer ao outro. Que o mito de Narciso seja metáfora útil para que não definhemos ao beber a própria imagem, isolados e acompanhados apenas do bichano da vez. Olhe a si mesmo, mas olhe também àquele que está ao seu lado, com suas necessidades, defeitos e beleza.

Referências
CARNEIRO, Feres Terezinha (2008) – Conjugalidades contemporâneas: Um estudo sobre os múltiplos arranjos conjugais da atualidade. Conviver com animais faz bem à saúde – Artigo in www.greepet.vet.br LOPES, Claírton Soares, in www.sociologiaemrede.ning.com.br JABLONSKI, Bernardo – O cotidiano do casamento contemporâneo: a difícil e conflitiva divisão de tarefas e responsabilidades entre homens e mulheres. Família e casal – Saúde, trabalho e modos de vinculação (2007)

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A inveja não mata, mas anula

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A inveja não mata, mas anula

por Merit Rabanésmerit.rabanes@terra.com.br

Tenho aprendido muitas coisas quando analiso as diversas situações que os consulentes apresentam para interpretação do Tarô. Aprendi, por exemplo, que a inveja não mata, como dizem por aí, mas anula o potencial de quem a cultiva, interfere em todas as relações interpessoais e mina as energias do campo áurico. Normalmente o processo de invejar não é algo da consciência do invejoso.

Muitos de nossos erros e de nossa repetência de qualidades negativas, não é algo que fazemos com o propósito de nos desqualificarmos. Fazemos porque aprendemos durante a infância com figuras de autoridade; fazemos porque queremos pertencer a algum grupo; fazemos porque já fomos assim em vidas passadas.

Maria não entendia porque fora a vida inteira hostilizada por sua mãe, a Maria Primeira e, tempos depois, por sua filha, a Mariazinha. Desde pequena, inteligente e versada na arte de aprender com facilidade, sempre foi notada pela maioria das pessoas, ao mesmo tempo em que era agredida, minimizada e humilhada por sua mãe. Cresceu acreditando que era uma pecadora, que tinha o estranho erro de ser inteligente e que precisava pôr um ponto final naquilo. Casou-se, teve dois filhos, separou-se do marido e buscou no Espiritualismo, nos ensinamentos da Grande Fraternidade Branca, o entendimento necessário que a confortasse na relação com a mãe.

Quando entrou na adolescência, sua filha Mariazinha, passou a repetir o mesmo comportamento hostil da avó, maltratando a mãe. Na companhia de suas amigas, falava alto e em bom tom que sua mãe era uma velha ridícula que queria saber mais do que ela que estava estudando… Inúmeras foram as agressões e tantas, que Maria precisou recorrer à Psicanálise e à Psiquiatria, porque não conseguia entender, sozinha, porque apenas seu filho a aceitava e a admirava. Não entendia o que havia feito de errado para a mãe e para a filha, que faziam dela uma vítima da depressão. Havia um fio tênue que separa o sentimento de inveja do de admiração, que impedia que estas duas criaturas gostassem dela, como a maioria das pessoas gostava e admirava.

Maria não é exibicionista e arrogante. Sua simplicidade se destaca em meio à sua cultura, aos seus conhecimentos.

Na Inglaterra do século 15, Maria, sua mãe e sua filha foram irmãs, filhas de um homem que preservava o conhecimento, as artes, a música, a literatura, o espiritualismo, enfim, tudo o que pudesse servir de progresso para o ser humano. Contratou as pessoas mais versadas em vários segmentos do conhecimento humano para dar às filhas excelente educação.

A filha mais velha, a Maria Primeira de hoje (a avó), era uma criatura avessa ao aprendizado que só tinha prazer em uma coisa: conquistar todos os homens da redondeza e esgotar sua energia sexual com eles.

A filha do meio, a Maria de hoje, tinha o espírito parecido com o do pai e estudar e aprender para ela era uma bênção.

A filha caçula, a Mariazinha de hoje, era indolente e não entendia a razão de ter que estudar tanto, já que nem homem era.

Tanto ela como a irmã mais velha, obrigavam os criados do castelo a estudarem e deixarem os deveres prontos para a hora da inspeção de seu pai. Dois daqueles criados são hoje dois famosos políticos europeus… A filha do meio era muito hostilizada por suas irmãs por que, segundo estas, graças à sua “bobeira” o pai não lhes dava sossego. A mãe delas era uma mulher vaidosa que não se importava com o crescimento pessoal e espiritual das filhas, pouco participando de suas vidas.

Daquela época veio a sensação de inveja e de raiva que a filha e a mãe de Maria nutriam, sentimentos que não conseguiam disfarçar. A simples presença de Maria ativava, de alguma maneira, a memória das duas que reagiam da forma aqui relatada.

Maria Primeira, hoje, vive com esclerose múltipla; em períodos de lucidez, ainda ataca a filha. Tem 75 anos.

Mariazinha foi morar sozinha porque não agüentava a mãe que, na sua opinião, é paranóica e megalomaníaca. Já concluiu a faculdade de Sociologia, mas não tem capacidade intelectual para trabalhar com a matéria. É vendedora de uma loja de shopping. Tem 25 anos e muito tempo para aprender a aproveitar o curso concluído.

Maria é uma intelectual. Retornou à faculdade, formou-se e neste ano foi convidada a ocupar uma cadeira de uma conhecida universidade dos Estados Unidos, onde mora atualmente com o filho, que já é doutor em ciência da computação. Tem 55 anos e seu filho 27. Está namorando um americano que fala a mesma língua que ela: a língua do saber.

Não tive acesso à vida atual do pai de Maria na Inglaterra; nem da vida passada de seu filho desta vida.

O conhecimento de vidas passadas feito através da regressão, ajudou Maria a entender a razão de tanta hostilidade.

A inveja não mata ninguém, mas anula, empobrece, mingüa, adoece.

Merit Rabanés
GRUPO ESOTÉRICO E ESPIRITUALISTA RABANÉS e CLUBE ESOTÉRICO RABANÉS
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HOMENS QUE TÊM MUITAS MULHERES …E POR QUE ELAS FICAM COM ELES (Matéria p próxima supervisão)

HOMENS QUE TÊM MUITAS MULHERES …E POR QUE ELAS FICAM COM ELES

 

O sedutor moderno nada tem a ver com o antigo machão. Ele é sutil, dúbio, se envolve e se preocupa em não magoar as parceiras. A mulher que se relaciona com ele também não encarna mais o papel da vítima. Aqui, dois homens volúveis falam de seu comportamento, duas mulheres revelam o outro lado da moeda e uma psicóloga comenta a situação, bem mais complexa do que nas gerações passadas, em que a confusão se resumia em tachar os homens de sacanas e as mulheres de coitadas.
A psicóloga Cinthia Fontes, especializada em psicologia clínica, diz que é impossível generalizar o perfil do sedutor compulsivo. Mas arrisca alguns traços: “É uma pessoa insegura, embora nem sempre aparente isso, com problemas de auto-estima e que tem medo de ficar sozinho. Em geral não recebeu amor dos pais ou teve conflitos emocionais nunca tratados”. Segundo as mulheres que já foram apaixonadas por tipos assim, eles são bons de cama e têm “uma lábia 10”. Nada a ver com a imagem do mulherengo típico, do qual costumam rir. O sedutor é elegante e pode ter uma atuação admirável em várias esferas da vida, mas é dúbio na relação amorosa.

Para a psicóloga, se o homem se sente realizado tendo muitas mulheres e encontra parceiras que o aceitam assim, o problema não se configura e não há por que julgá-lo. “A questão é quando o homem deseja mudar, não consegue e acaba destruindo relações importantes para ele”, avalia a especialista. Segundo ela, esse tipo de homem tem muito medo de se entregar e ser rejeitado, sofre de falta de auto-confiança na área emocional (mesmo bem-sucedido profissional e financeiramente) e tem uma enorme carência. “É como se procurasse em cada mulher a cura para seu vazio existencial e acreditasse que é função da parceira completá-lo em todos os sentidos, o que é missão impossível.”

“Se as mulheres ficam com os sedutores é porque existe um acordo entre eles”, afirma a psicóloga, lembrando que “muitas mulheres acreditam no efeito bumerangue —de que o homem sai, mas voltará sempre para seus braços.” E sua volta pode ser interpretada pela mulher como uma afirmação de que ela é melhor que todas as outras. “É preciso levar em conta o código de cada casal”, observa a especialista, lembrando que nem todos os pactos são explícitos ou conscientes.

“A mulher que vive ao lado de um homem galinha sofre muito. Mas ela o aceita pela mesma razão que aceita um alcoólatra”, diz a psicóloga. “Acha que vai salvá-lo e que, com ela, ele vai mudar.” Sentir-se sempre atraída por homens assim pode indicar ainda um componente reprimido. A relação seria uma forma de vivenciar, através do parceiro, o desejo de ser sexualmente livre e ter vários amantes.

“A galinhagem masculina é uma agressão à integridade emocional feminina”, continua a especialista. O risco que a mulher corre é não conseguir distinguir que o problema é do homem e passar a se autodepreciar achando que, se ele procura outra, o problema é dela, que não consegue supri-lo. Ou, então, o de se vingar, repetindo o comportamento masculino, seduzindo vários parceiros, realimentando o círculo de poder, ciúme e disputa e negligenciando suas próprias necessidades emocionais.

Arnaldo, 39 anos, médico*
“No meu aniversário, estavam presentes seis ex-namoradas além da minha ex-mulher. Hoje, são todas minhas amigas.

Fora do período de sete anos em que estive casado, vivi inúmeros relacionamentos. Não dá para contar, mas teve uma época que, em três anos, tive cerca de 25 mulheres. Alguns casos duraram dois meses, outros duas semanas e outros se prolongaram mais um pouco. Paixão mesmo tive só três. Evito ficar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, mas já aconteceu. Uma ocasião, deixei a namorada no Brasil e viajei para a Europa. Fui apresentado a uma mulher que me encantou. Foram poucos dias de aventura passageira, e ninguém suspeitou de nada. Algumas vezes em que isso me aconteceu, eu tinha remorso, mas nunca contei, porque não iria agregar nada, apenas magoar. Não creio que nenhuma mulher tenha rancor ou raiva de mim.

Quando fico sozinho, aí, sim, exerço a minha solteirice na sua plenitude. É bom demais, é divertido, é colorido. Porque nesses momentos não há compromisso nem cobranças, as relações são efêmeras. Eu acho que todo encontro de homem e mulher envolve uma química extremamente prazerosa. E isso deve ser respeitado. Como poderíamos proibir a química?

Reconheço que sempre tive dificuldade em dormir sozinho, talvez por carência afetiva, solidão. É legal estar com uma pessoa ao seu lado, ter uma troca, independentemente de você ver essa pessoa como uma eterna companheira.

Casar foi uma coisa muito difícil para mim. As pessoas me chamavam de mulherengo, diziam que eu nunca daria esse passo. Quando a relação ia para esse caminho, eu pulava fora. Acabei casando tarde, quando a maioria dos meus amigos já era pai. Fui feliz e durante alguns anos consegui ser fiel. Ela sabia da minha fobia em relação a perder a liberdade e conversamos, verbalizamos esse sentimento. Ela mesma diz que eu fui politicamente correto. Só uma vez, no final, quando a relação já estava degringolando, voltei um dia para casa com o cabelo molhado. Tivemos uma grande briga, mas tinha sido apenas uma aventura.

No final do meu casamento, eu tive dificuldades para me separar e recorri a uma terapia com esse objetivo. Não foi para falar sobre a minha infância. Após um ano de tratamento, eu me separei. Acontece que a minha terapeuta era uma mulher muito interessante. Então resolvi abrir o jogo, eu queria sair com ela. Por questão ética, ela imediatamente me propôs encerrar a relação profissional. Começamos a sair e acabamos nos envolvendo muito. No início, deu um nó na minha cabeça, porque ela tinha a vantagem de conhecer tudo sobre mim e eu nada sobre ela. Essa diferença foi resolvida com o tempo, mas depois essa relação também terminou.

Há alguns anos, num período de total solteirice, eu fazia verdadeiras acrobacias. Às vezes era só para ter companhia, não ficar sozinho. Não tenho nenhuma tática especial, apenas me considero um sujeito bem-educado e com uma boa dose de cara-de-pau. Cheguei a marcar um almoço com uma mulher numa cidade e um jantar com outra, a mais de 100 quilômetros de distância. Mas eu não me sentia um super-homem. Na verdade eu me sentia muito mal. Era um estresse do cão, eu tinha que fazer uma verdadeira ginástica. Mas não magoava ninguém porque não havia nenhum envolvimento emocional. No fundo, achava que cometia um erro, mas eu fazia muito isso. Talvez eu sempre tenha vivido numa busca frenética pela mulher ideal. E quem sabe tenha tropeçado nela e nem tenha percebido a minha chance. Estou namorando há um ano. Para mim é bastante tempo. Ela é uma pessoa maravilhosa e inteligente, bem mais nova que eu, e moramos em cidades diferentes. Fizemos duas grandes viagens e eu, que sempre adorei viajar sozinho, achei maravilhoso estar com ela. Sei que minha vida só pode melhorar com essa relação, mas casar de novo é uma questão que mexe muito comigo. Eu estou passando novamente por esse momento de ter que tomar decisões e com muito medo de ser cerceado na minha liberdade.”

João Pedro, 42 anos, advogado* “Quando eu conheci a minha ex-mulher, ainda era apaixonado por outra menina que tinha me deixado após dois anos e meio de namoro. Eu estava de coração partido e me interessei pela Antônia, porque, de costas, ela se parecia com essa ex-namorada.

Quando a Antônia me fez uma proposta de casamento, senti que era a oportunidade de finalmente eu ter a estrutura familiar que nunca tive. Meus pais se separaram quando eu era garoto, morei uns tempos com uma avó, fui para colégio interno, estudei fora. Eu sentia falta de estrutura, mas, na verdade, casar não era o que eu queria. Antônia insistiu e eu me deixei convencer. Casei com 25 anos, mas acho que ninguém devia se casar antes dos 30. Eu estava numa fossa e ela foi a tábua de salvação. Mas era zero de paixão. Era como se eu não me considerasse casado, não usava nem aliança. Filhos eu também não queria. O nenê acabou vindo por acidente, dois anos depois.

Nós nos dávamos maravilhosamente bem na cama, sexualmente eu estava satisfeito. Mas não existia carinho, ela nunca foi de ficar pedindo beijo ou declarar que gostava de mim. Na época eu trabalhava como relações-públicas numa multinacional, tinha festa de final de ano, eu sempre acabava ficando com alguém. Dessa forma, eu supria a minha carência afetiva. Mas sempre respeitei a minha mulher. Nunca admiti que estava na galinhagem, dizia que estava com amigos ou trabalhando.

Se ela sabia de alguma coisa, nunca me confrontou nem pediu para eu parar. Ela simplesmente fazia que não percebia. Eu me sentia completamente desvalorizado, porque ela não se importava se eu chegava às 4 da manhã ou às 5 da tarde do dia seguinte. Poucas vezes demonstrou sentir ciúme de mim. Só teve uma vez em que deixei ela em casa, depois de um casamento, e fui para uma boate. Nessa noite, ela foi atrás de mim e fez uma cena. Mas depois ela se fechou. Mergulhou no papel de mãe e, como eu sempre fui um pai ausente, ela se empenhou mais ainda na maternidade.

Eu sentia que Antônia me deixava as portas abertas. E eu acho que todas as mulheres têm o seu encanto. Mulher é como ópera, cada uma tem a sua ária. Pode ser bonita, feia, alta ou baixa, gorda ou magra. Sou um eterno admirador do sexo oposto. São criaturas fantásticas, apesar de eu não conseguir entendê-las. Tive cerca de 150 mulheres na minha vida. Tenho mais fama de conquistador do que realmente sou. Herdei o jeito galanteador do meu pai. Não sou muito bonitão. Tenho uma carroceria de fusca com motor de Ferrari, então preciso ter cinco minutos para me deixar conhecer, me tornar interessante.

Durante os 12 anos em que fui casado, além de outras relações esporádicas, tive pelo menos quatro casos que duraram meses, um ano. Às vezes eu me apaixonava. Eu não enganava as mulheres, minhas namoradas sabiam que eu era casado, algumas até conheciam a minha mulher. Nosso casamento já estava estremecido, mas eu não largava a Antônia. Talvez por covardia. Eu gostava dela e a admirava muito, mas não era apaixonado. Além disso, existia uma criança e toda a estrutura familiar, que para mim era importante.

Ela uma vez me traiu durante uma viagem e me contou. Não me achei no direito de rodar a baiana, eu tinha um certo sentimento de culpa. Fiquei bem chateado, mas nunca mais toquei no assunto. Já eu nunca abri o jogo sobre as minhas infidelidades. Sempre procurei ser discreto e nunca imaginei que pudesse magoá-la. Só me sentia às vezes angustiado. Eu não tinha medo de perdê-la, achava que não ia doer se eu me separasse. Mas quando aconteceu foi muito doloroso, fiquei totalmente fragilizado. Logo depois da separação conheci minha mulher atual. Ela me pegou no fundo do poço e me ajudou a deslanchar a minha vida novamente. Fizemos uma viagem a Paris, comprei duas alianças e faço questão de usar a minha.

Comecei uma relação com uma atitude diferente e estou me sentindo preenchido. Ela tem ciúme de mim e eu me sinto valorizado. Estou casado há cinco anos e não sou mais um casanova. Ela fica às vezes grilada quando faço um elogio a alguém. Claro que se passar uma mulher bonita eu vou olhar. Aí ela reclama, mas eu acho graça e tenho ciúme também. Ela não chega a ser possessiva, nunca vasculha meus bolsos, mas eu aprendi a dar satisfação.

Às vezes, me questiono sobre o fato de não ter ficado sozinho entre um casamento e outro. Concluo que tive vida de solteiro quando era casado. Hoje eu seguro a franga. Não posso dizer que é para sempre, mas estou feliz e não quero arriscar. Porém não me livrei de um grande defeito, que é o de desvalorizar o que eu tenho. Sempre fiz isso. Reconheço que não dava valor à Antônia. Pode ser um lado meu que não se dá o direito de ter coisas boas por perto. Hoje estou mais maduro e sou fiel, até prova em contrário.”

A versão delas

Cecília, 38 anos, professora*
“Nunca assumi o papel de vítima ou sofredora. Casei sabendo que ele não era fiel. Namoramos três anos e casamos os dois com 25. Para o homem acho que é muito cedo. Ele queria transar com todas que encontrava no caminho. Mas na cama eu era feliz com ele. E eu me sentia bem por ter ao meu lado um homem bonito que era cobiçado por muitas mulheres.

Desde o namoro, ele já era galinha. Uma vez ele estava comigo, passou uma garota, ele encarou, se virou ostensivamente e rodeou a menina. Achei o cúmulo e meti a mão na cara dele. Ele sempre dava um jeito de inventar brigas, para poder ficar um tempo livre, com outras. Mas depois queria voltar comigo. Numa ocasião, brigamos um pouco antes do carnaval. Ele começou a namorar uma menina, depois do feriado voltamos, mas ele deixou fotos dela dentro do carro. Os dois abraçadinhos, na praia. Quando eu o confrontava, ele não mentia. Dizia que tinha acontecido, mas não se justificava.

Nunca fui possessiva, mas acabei cansando e fui embora para os Estados Unidos. Quando ele sentiu que ia me perder de vez, ficou desesperado e foi me buscar, dizendo que me amava. Casamos, mas nunca me iludi. Eu sabia que não ia dar certo, mas, ao mesmo tempo, achava que ele poderia mudar. Acreditava que o amor ia conseguir superar qualquer obstáculo. Era louca por ele. Hoje sei que ninguém muda ninguém.

Quando engravidei, fiquei toda feliz, tinha aquela idéia de família perfeita. Só que um dia encontrei o crachá de uma menina dentro do carro. Ele disse que a menina havia esquecido, que ele só tinha dado uma carona para ela. O que é que eu ia fazer? Resolvi esperar o bebê nascer. Ainda grávida, soube de outros casos, e isso ia detonando o casamento. Eu não sou de brigar, mas fui deixando de gostar. Nunca o perdoei, mas acho que era tudo imaturidade dele. Eu não descreveria o meu ex como um safado, mas sim como problemático. E eu também me acomodei na situação.

A gota d’água foi coisa de filme: a gente já estava mal e uma noite ele chegou em casa com a boca suja de batom. Ele nem tinha percebido. Brigamos, ele confessou que tinha outra há mais de um ano. Na manhã seguinte, botei ele para fora de casa. Na minha opinião, ele achou até bom, queria ficar livre e se aproveitou da amante para conseguir isso. Assim que a gente se separou, ele largou essa mulher. Ela ligava em casa procurando por ele, passava trote. Mas ele nunca mais ficou seriamente com ninguém. Hoje ele tem uma namorada que quer casar, mas ele foge. Sempre quis ser livre para poder estar com todas as mulheres ao mesmo tempo, sem as responsabilidades de casamento.

O irônico é que ele sempre continuou querendo voltar. Estou separada há anos e no último aniversário ele ainda me mandou flores. Alguns amigos me dizem que ele se arrependeu, e ele se queixa que perdeu o dia-a-dia com o filho. É um pai presente. Mas para mim acabou o amor, a admiração. Esse caráter dele conseguiu exterminar até o tesão. Ele não fazia questão de disfarçar, e eu me sentia magoadérrima. O fato de ele ser casado até facilitava os seus movimentos. Sendo comprometido, não precisava assumir nada com nenhuma outra.

Talvez seja um traço da minha personalidade gostar de homem assim. Depois de separada tive vários namorados galinhas. Só gosto de homem bonito e sedutor —e geralmente esse tipo não é fiel. A diferença é que hoje eu também não sou mais. Saí do casamento querendo conquistar todos os homens. Afinal, tinha ficado anos com um só, que me traía. Depois de separada tive vários casos. Eu quero ser a única, a escolhida —e gosto de competir com outras mulheres. Agora estou namorando um cara que tem um passado negro, uma ficha terrível, mas é um sujeito mais velho e até está procurando envolvimento. Mas tenho dificuldade de acreditar que alguém vai ser legal comigo. Cheguei a me apaixonar duas vezes, e nada deu certo: um era galinha e o outro morava longe.

Não acho que fiquei amargurada com a experiência porque tenho minha vida, amo a minha profissão, meu filho, minhas amigas. Me sinto bonita e jovem e isso ajuda. Acredito que até resguardei uma certa ingenuidade. Só que aprendi a falar menos, a ser menos honesta, a preservar os meus segredos. Não tenho medo de entrar nas relações, até casaria de novo. Mas tenho medo de me entregar completamente.”

Juliana, 34 anos, produtora*
“Sérgio e eu éramos bons amigos. Eu tinha terminado um namoro e ele também. Quando a gente se encontrava, ele brincava, me chamava de gata, me contava os seus casos. Nunca pensamos que haveria algo entre nós. Aí viajei e passei três meses fora do Brasil. Quando voltei, comecei a sair com o Sérgio. Ele continuava a me contar as suas histórias, às vezes até paquerava alguém na minha frente. Era supergalinha, ficava com várias ao mesmo tempo e todas eram enlouquecidas por ele. Não que fosse um homem muito bonito, mas sim sedutor, interessante, boa-pinta.

Tinha 25 anos quando começou a rolar um affair entre a gente e tive que botar as outras para correr. Cheguei a disputá-lo com 15 mulheres. Não era inocente e sempre soube que tipo de homem ele era. O comportamento dele era imaturo, precisava se auto-afirmar, mas era inconsciente, tinha aquela coisa meio machista de achar que tem que pegar 300 mulheres. Ele tem até hoje essa mentalidade.

Nem sei explicar como me envolvi, devo ter atração por homem assim, a disputa me estimula. Talvez seja auto-afirmação da minha parte: se eu conseguisse mudá-lo, provaria ser melhor que as outras. Sou ciumenta e rodo a baiana quando preciso. Disse de cara que não iria aceitar ser mais uma de sua listagem. Aí ele me assumiu. Foi meio tumultuado nosso relacionamento, mas ele sempre me tratou superbem. Quando eu entrava no carro, tinha sempre uma surpresa, um ursinho de pelúcia, flores. Em seis meses fomos morar juntos. Era louco por mim e acredito que durante os dois primeiros anos foi fiel, o que já foi uma vitória.

Até que a gente começou a ter muitas brigas. Nem eram motivadas por outras mulheres, é que nós dois temos gênio forte e pavio curto. Então eu fazia as malas e voltava para a casa da minha mãe. Foi durante as brigas que peguei ele com outras, mas ele sempre me enrolava. Não me deixava acreditar no que estava vendo! Uma vez, o carro dele passou na minha frente e havia uma mulher com ele. Ele mandou a mulher se abaixar. Fiquei na dúvida: será que tinha visto mesmo? A cena se repetiu. Ele percebeu que eu tinha visto tudo e uma hora depois me ligou, fazendo declarações de amor. Conseguiu me despistar dizendo que era um amigo que estava no carro. Sérgio tinha uma lábia 10.

Quando fiquei grávida, tudo mudou. Se dependesse dele, a minha auto-estima tinha ido para o brejo, porque ele deixou de ter ciúme e tesão por mim. Eu me sentia uma grávida bonita. Mas ele me desvalorizou, se distanciou. Não procurei saber se ele foi galinhar, era uma maneira de me proteger. Sempre desconfiei, mas nunca tinha certeza se ele tinha aprontado. Não é que ele mantinha uma amante, mas tinha seus casinhos. Nunca o traí, mas ele tinha ciúme. Deve ter alguma explicação psicológica para eu gostar só de homem sem-vergonha. Meu pai sempre foi muito galinha e eu era apaixonada por ele, que sempre foi o homem da minha vida. Mas vi minha mãe sofrer muito com meu pai.

Quando o meu filho tinha 1 ano e meio, Sérgio teve que viajar. Desconfiei e descobri que ele tinha levado uma mulher com ele. Era uma amiga minha, que freqüentava a nossa casa. Foi duro, mas paguei para ver. Não quero me fingir de inocente, não quero ser uma enganada feliz. Quando o confrontei, ele não teve como negar, porque eu tinha provas irrefutáveis. Ele ficou surpreso e ainda tentou se esquivar fazendo declarações de amor. Mas o casamento acabou naquele dia. Ele me subestimava, sempre achando que ia conseguir me enrolar. Digo ao Sérgio que fiz uma faculdade ao seu lado. Hoje eu namoro um cara que também é um sem-vergonha. Estou na pós-graduação. Sempre acho que posso mudar o homem, mas, na verdade, esse tipo nunca se regenera. E eu estou ficando velha para estar sempre preocupada se vou ser traída. Uma hora vou aprender.

A minha vingança foi mostrar a meu ex-marido a mulher que ele perdeu. Ele me amava, eu sei, e sempre vai ter remorso pelo que fez. Nunca mais casou, tem várias namoradas, voltou à estaca zero, e somos superamigos novamente. Até já administrei algumas confusões que ele arruma com as namoradas dele.”

Por Antonella Kann

* Todos os nomes foram mudados a pedido dos entrevistados

 

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O amor e a felicidade eternos são possíveis (MUITO BOM)

Dr. Connell Cowan

01.novembro.2001

O amor e a felicidade eternos são possíveis

Tania Menai, da Califórnia

O psicólogo americano Connell Cowan, 62 anos, é dono de uma clínica em Beverly Hills, na Califórnia, cujo divã acolhe diversas celebridades de Hollywood. É co-autor do best-seller mundial Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas (leia trechos). Traduzido para 26 idiomas, incluindo o português, o livro derruba o mito de que homens gostam de mulheres submissas, explica como os homens reagem às mulheres poderosas e ainda de quebra ensina como elas devem agir para se envolver em relações saudáveis. Escreveu outros livros que tratam da mesma questão sob ângulos diferentes. Um deles aplica a filosofia do estrategista de guerra chinês Sun Tzu ao relacionamento amoroso. Divorciado duas vezes, pai de dois filhos, Cowan vive há quinze anos com a atriz americana Susan Sullivan, de 58 anos. É um defensor ardoroso da felicidade a dois. De sua clínica, ele conversou com VEJA:

Veja – Existe um parceiro ideal inato, uma alma gêmea que precisa ser encontrada para trazer felicidade?
Cowan – Em primeiro lugar, ser um bom parceiro é saber desmistificar o que é romantismo. O romantismo mostrado no cinema e na TV é bastante diferente da intimidade do dia-a-dia. Depois, a melhor qualidade de um parceiro é a aceitação do outro. É esta a qualidade que constrói a confiança, o conforto e a sensação de segurança. Outro aspecto importante é que a pessoa saiba responsabilizar-se pela própria satisfação de vida. Não devemos esperar que uma união nos proporcione isso. O problema é que as pessoas acreditam que relacionamentos foram feitos para consertar algo errado em sua vida. Felicidade, realização, equilíbrio são metas que se alcançam individualmente. (!!IMPORTANTE!!!)

Veja – Por que tantos casamentos terminam em divórcio – e cada vez mais rapidamente?
Cowan – Uma das grandes causas é a falsa expectativa. As pessoas se casam com expectativas que não podem ser preenchidas, então acabam desiludidas e desapontadas. Os casados despejam a culpa de seus problemas no casamento. Freqüentemente os separados acabam afundados nos mesmos problemas que tinham quando eram casados.

Veja – Por que mulheres inteligentes fazem escolhas tolas no campo afetivo?
Cowan – Existem milhares de razões. Às vezes elas são atraídas pelo desafio de conquistar homens que não se comprometem facilmente. Esse sentimento é de ânsia, não de amor. Esse tipo de relacionamento amarra as mulheres a relações estranhas e vazias. Fiquei bastante impressionado com a vida de várias de minhas clientes. Todas eram inteligentes, bonitas, moravam bem e tinham belas carreiras. Moldaram sua vida de uma forma na qual tudo dava certo, exceto o relacionamento com homens. Era um paradoxo. Por que elas não eram capazes de usar sua inteligência nos relacionamentos amorosos? Isso me intrigou.

Veja – Seu livro foi best-seller em diferentes países, inclusive naqueles onde as mulheres são oficialmente consideradas inferiores aos homens. Como o senhor explica esse sucesso?
Cowan – Fiquei chocado ao saber que meu livro foi publicado na China, na Hungria, no Japão, em Israel e até na Bósnia. Pensei: “O que essas mulheres estão fazendo, lendo esse livro em plena guerra?”. Aprendi que elas desejam entender suas relações com os homens de maneira mais profunda, além de compreender melhor os próprios homens e algumas das razões que levam a erros. Esse tema transborda culturas. Certa vez, recebi uma mulher japonesa em meu consultório – mas quem marcou a consulta foi o marido. Eles vieram do Japão e passamos uma tarde juntos. O marido participou da sessão como tradutor. Horas depois, percebi que ela entendia tudo o que eu falava e era capaz de responder em inglês. A partir daí, passei a me dirigir diretamente a ela, o que tornou a conversa bem mais interessante. Esse caso me chamou a atenção, pois, apesar de o marido controlar a situação, essa mulher é uma grande executiva, dona de uma cadeia de joalherias no Japão. Inclusive, nesse país, meu livro foi adaptado para o teatro cabúqui, com produção de Nova York no estilo da Broadway.

Veja – Há poucos meses, um jovem professor judeu americano, de Denver, colocou uma foto de si mesmo num jornal israelense. Nela, ele segurava um cartaz escrito a mão em hebraico onde se lia: “Procuro uma mulher para casar e ter filhos”. Seis mil mulheres responderam. Será que homens assim são tão raros que a proporção chegue a 6 000 para uma?
Cowan – Seis mil? Isso é impressionante. Deve ter sido a menção a filhos. Normalmente, anúncios pessoais na internet ou em revistas têm um tom bastante egoísta. Os que me dão raiva são aqueles que dizem “Estou na faixa dos 50, procuro uma mulher branca, entre 22 e 28 anos”, em vez de “Quero me casar e construir uma família”. Isso é muito mais atraente para as mulheres.

Veja – Quais são as principais reclamações que o senhor escuta de suas pacientes quando elas falam sobre homens?
Cowan – Reclamam de homens que não assumem um papel ativo na criação dos filhos e na tomada de decisões. Outras se queixam de que não têm tempo para si mesmas. É mais fácil para os homens ficar sozinhos de vez em quando. As mulheres precisam de privacidade tanto quanto os homens, mas não têm sossego. Outras mulheres reclamam de não ser ouvidas. Nem sempre elas querem que o homem resolva seus problemas, querem apenas que as escute.

Veja – O senhor diz que, em relacionamentos, os homens têm prioridades diferentes. Quais são elas?
Cowan – Existe uma gama de prioridades, muitas delas bem estranhas, mas vou falar das relações saudáveis. Os homens procuram mulheres que os alimentem emocionalmente e que os aceitem. Geralmente, eles não buscam mulheres que cuidem deles financeiramente. As mulheres ainda buscam homens que elas julguem capazes de ser bem-sucedidos, protetores, poderosos. O poder é um grande atrativo, pois é uma idéia que remete à segurança. Essa é a prioridade das mulheres. Já os homens não procuram, necessariamente, mulheres poderosas. Não que elas não sejam atraentes, mas o poder não é o suficiente – elas devem ter algo mais. O poder puro e simples seria um pouco amedrontador para um homem. De alguma forma, os homens podem sentir-se intimidados por uma mulher poderosa.

Veja – Que tipo de homem se intimida com mulheres fortes?
Cowan – Acredito que sejam os homens fracos. Apenas homens inseguros se sentem ameaçados por mulheres com algum poder, porque eles se vêem inferiores diante delas, em vez de celebrar o sucesso das parceiras. Esse sucesso ameaça sua autoconfiança e seu próprio sucesso. Já os homens fortes gostam de mulheres fortes. Um homem forte não vê problemas em celebrar o sucesso, a força e as realizações de sua mulher. Por isso é importante que mulheres fortes busquem homens fortes.

Veja – Então mulheres mais femininas, delicadas e com menos iniciativa não necessariamente atraem mais os homens…
Cowan – Exato. Um homem inseguro provavelmente vai sentir-se mais atraído por uma mulher que ele possa controlar, que seja condescendente, que não alcance algo na vida maior ou mais importante que ele. Assim ele se sentirá mais confortável. Mas um homem seguro, eficiente e bem-sucedido pode sentir-se atraído por uma mulher tão ou até mais bem-sucedida que ele no mundo do trabalho

Veja – Por exemplo…
Cowan – Tive um casal de pacientes em que a mulher tinha um diploma de mestrado em administração de empresas pela Universidade Harvard e o marido era um advogado. Ela era apaixonada pela carreira. Já ele, que trabalhava numa empresa de entretenimento, não morria de amores pelo emprego – então pediu demissão para ficar em casa cuidando dos dois filhos. Ela está no mundo, sendo promovida e trazendo dinheiro para casa, enquanto ele está se transformando no “Senhor Mamãe”. Trata-se de um homem extremamente inteligente, capaz, forte e que não se sente ameaçado pelo sucesso de sua mulher. Ele adora o fato de ela ser promovida, pois isso significa mais dinheiro e uma vida mais confortável. As mulheres sempre foram capazes de gerar renda suficiente para sustentar uma família. Agora podem fazer isso com classe.

Veja – Depois de movimentos feministas e conquistas no mercado de trabalho, as mulheres mudaram?
Cowan – Elas mudaram em alguns aspectos. No campo profissional, vemos muito mais mulheres médicas, advogadas, por exemplo. Mas ainda há uma insatisfação. Percebi, por exemplo, que várias advogadas lidavam com homens de alto escalão em ambientes em que se trabalha dezesseis horas por dia, numa atmosfera competitiva, desequilibrada e exaustiva. Muitas delas perceberam que não queriam competir ou fazer parte desse ambiente. Hoje está havendo uma mudança. Há mulheres deixando a carreira para cuidar das crianças. Isso é um movimento saudável.

Veja – Como os homens reagiram à invasão de mulheres no mercado de trabalho e ao fato de receber ordens de alguém de saias?
Cowan – No início desse movimento, eles sentiram-se ameaçados. Inclusive surgiram regulamentações que obrigam as empresas a ter um número determinado de mulheres no quadro de funcionários. Mas os homens se acostumaram a conviver com supervisoras. A idéia hoje é de confiança – os homens aceitam com mais facilidade o fato de ter uma chefe, se acharem que ela é qualificada para tal. Eles buscam profissionais mais pela capacidade do que pelo sexo. E é assim mesmo que deve ser.

Veja – Será que nas próximas gerações ainda veremos casais de idosos caminhando de mãos dadas pelas ruas ou celebrando suas bodas de ouro?
Cowan – Acredito que sim. Hoje, conheço mais gente envolvida em relações bem-sucedidas do que em qualquer outra época de minha vida. Elas se gostam. Acho que essas pessoas serão esses casais aos quais você está se referindo. É lindo ver esses velhinhos juntos, não? Transmitem algo de amor persistente. Ainda acredito nisso. Se formos realistas, generosos e responsáveis, essas relações são possíveis.

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