ANÁLISE DO FILME “AMOR?”
Autor: Renata Fernandes – Monografia apresentada ao curso de especialização em Psicossomática Psicanalítica
“Sem saber amar não adianta amar profundamente.”
William Shakespeare
O documentário-ficção Amor? é uma transposição de casos da vida real para o espaço da representação cinematográfica. Os atores se transformaram nos homens e mulheres que deram depoimentos ao diretor, falando sobre suas experiências de relacionamentos amorosos costurados com altas doses de violência física e psicológica. E surge a questão: aquilo seria amor? O diretor não responde à pergunta e os depoimentos intensos e verdadeiros colocam para o público a inexorável realidade, onde o problema e sua dimensão complexa ganham forma e toda resposta simples parece no mínimo, pretensiosa. O primeiro levantamento foi realizado junto a organizações de proteção e apoio a mulheres vítimas de agressão, colhendo dados tanto referentes a estas mulheres quanto aos homens agressores. Entidades como o Centro de Defesa da Mulher (CEDIM), o Centro de Atendimento a Mulher (CIAM), a Casa Abrigo/Rio Mulher, o Instituto Noos, o Juizado Especial de Violência Contra Mulher (RJ), forneceram dados e abriram caminho para o contato direto com possíveis personagens.
Feita uma primeira triagem, a equipe saiu a campo com apenas um gravador MP3 para colher os depoimentos. O corpo-a-corpo com os entrevistados logo os fez ver que não estavam no caminho certo. Ter boas histórias não era o bastante. Era preciso também que seus protagonistas fossem capazes de refletir (e, portanto, de provocar uma reflexão) sobre elas. E a origem humilde das pessoas que recorrem à ajuda deste tipo de instituição mostrou-se um elemento limitador. O foco da pesquisa voltou-se então para as classes média e média alta, de onde saíram sete dos oito relatos selecionados para o filme. As filmagens com o elenco foram realizadas em uma fazenda, no interior do Estado.
O primeiro depoimento de Laura (personagem interpretada por Lília Cabral), casada, dona de casa, aproximadamente 40 anos, relata o sofrimento vivido pela violência da perda de um ente querido (sua filha): “Aí acabou tudo, meu chão saiu”. Ao que parece, neste exato momento alguns mecanismos inconscientes são disparados e diante da dificuldade em elaborar esta perda, inicia-se um processo de violência contra o outro e si mesmo.
Laura acrescenta: “… eu fui ficando cada vez mais agressiva no sentido de destruir mesmo o outro sabe, sei lá, num sentido canalha”. Gurfinkel (2011) ao pontuar sobre relacionamentos aditivos, patológicos, ou seja, um páthos: uma paixão e uma doença, ou a doença da paixão, faz uma comparação com a perversão. O modo compulsivo, imperioso e violento que se apresenta neste tipo de vínculo, e, por conseguinte como o outro é tratado, demonstra uma enorme incapacidade de reconhecer, justamente, a alteridade do objeto – o que nos remete ao perverso, à incapacidade de se identificar com o outro nos seus desejos e sofrimentos. Porém, a sexualização excessiva, parcializada ou dissociada não é uma característica obrigatória deste tipo de vínculo. Para o autor, nestes tipos de relacionamentos há uma “perversão sublimada”. Esclarece que esses tipos de pessoas são “viciados no outro”, o desejo torna-se voraz e primitivo e tem como objetivo a destruição do outro. Ter o objeto envolve necessariamente incorporá-lo e destruí-lo. Parece que para Laura, a perda da filha foi apenas uma desculpa para que algo tão violento, inerente à sua personalidade, pudesse aflorar e ser descarregado em seu relacionamento.
Freud, (1924), aclara que o sentimento de culpa é possivelmente a mais poderosa “moeda de troca” nos relacionamentos afetivos. Culpar o outro por seu sofrimento, por vezes torna-se fator predominante nos relacionamentos afetivos, e tal sofrimento (provocado pelas neuroses) incita para a tendência masoquista, que nesta situação faz-nos pensar que seria o único e possível vínculo a ser estabelecido entre o casal, naquele momento: “Então, eu agredia e ele agredia”. Freud, ao esclarecer sobre o masoquismo moral, pontua sobre a expressão de uma tensão entre o ego e o superego. O ego reage com sentimentos de ansiedade (ansiedade de consciência) à percepção que não esteve à altura das exigências feitas por seu ideal, ou superego, que neste caso pode ser representado por uma fantasia infantil de onipotência, salvar sua filha. Com isto, o masoquismo moral acentua a necessidade de sofrimento. Na relação ego-superego impõe-se uma satisfação pelo castigo e dor, que aos poucos foi sendo consolidada em sua relação afetiva com o marido. Em contrapartida, a personagem ao afirmar: “Eu sempre fui muito agressiva, acho que era uma defesa minha”, parece-nos demonstrar uma enorme dificuldade em lidar com ódio e a falha básica, que promove a formação de vazios no psiquismo precoce, provocando o primitivo sentimento de ódio, que muitas vezes leva a criança sentir-se rejeitada, não amada, desamparada. Estas sensações incitam sentimentos e pensamentos de impulsividade, conduta provocativa, hostil e beligerante, podendo ao longo do desenvolvimento psíquico tornar-se um mecanismo de defesa poderoso e por vezes intransponível, sendo apenas atuado.
Em outro relato, Laura diz: “ele desmerecia tudo em mim, a coisa mais clichê e mais banal… eu preciso de elogio, a torcida do Corinthians, todo mundo precisa de elogio…”.
Fuks (2008) aponta sobre os conflitos narcisistas. Neste tipo de conflitos, as pessoas se centram mais em si mesmas, sofrem de ambições desmedidas, fantasias grandiosas e necessidade de reconhecimento e admiração dos outros, o que as torna extremamente sensíveis a desilusões e fracassos. O sujeito vulnerável do ponto de vista narcisista responde à ferida narcísica real com um retraimento vergonhoso (fuga) ou com fúria narcísica (luta). No filme, em um diálogo do casal, o marido afirma: “Eu não queria ter feito aquilo, mas sou explosivo mesmo, mas você provocou”, Laura concorda: “Eu provoquei mesmo”. Estas falas fazem-nos pensar que ao sentir-se ferida (não sendo reconhecida da maneira que idealizava) um sentimento de raiva se instaura e começa a ter atitudes que de algum modo provoca uma fúria no outro. Ainda para Fuks (2008), são diversas as formas pelas quais se podem manifestar a tensão narcisista, constituída de sentimento difuso de mal-estar do sujeito consigo mesmo, de desvitalização, de vazio, apatia, inferioridade, entre outros. Estes sentimentos impulsionam diferentes movimentos para sair deste estado penoso, que vão desde a utilização do objeto como forma de obter um sentimento de valia até a obtenção de um prazer muito primário, corporal que possa proporcionar um mínimo de satisfação. Também se considera a sexualidade compulsiva, a ingestão patológica e o masoquismo erógeno, como formas de resolução da tensão narcísica, pois possibilitam ao sujeito voltar a relacionar-se com o prazer depois da perda de interesse que por vezes a depressão ocasiona.
Laura diz: “sabe aquela história que mulher gosta de apanhar, será que eu gosto de apanhar? Não é que eu gosto de apanhar, mas é que eu acho que é preciso apanhar, sabe criança que precisa levar um tapa pra ter limite? Meio por aí que eu vivenciei isso, entendeu?” Para Ferraz (2008, p. 34), entende-se “o masoquismo como transformação inconsciente do desejo infantil de ser amado e cuidado, manipulado fisicamente. Tratar-se-ia da permanência em uma posição erótica infantil diante do objeto adulto”. O masoquismo é aqui entendido como uma fixação na infância e na fantasia infantil de ser espancado. Freud (1919) traz essas fantasias como uma perversão infantil que pode não persistir pela vida toda, podendo ser transformada através da repressão ou da sublimação. Porém “se esses processos não ocorrem, a perversão persiste até a maturidade; e sempre que encontramos uma aberração sexual em adultos – perversão, fetichismo, inversão –… uma fixação na infância”. (p. 228). A Perversão, portanto, remete à sexualidade infantil. Percebe-se nitidamente este funcionamento psíquico, quando a personagem Laura ainda afirma: “outra coisa que eu trabalhei na minha terapia é a possibilidade de efetivamente ser mulher… a partir do momento que eu assumi meu papel de mulher… As coisas, o meu relacionamento se tranquilizou… e ele assumiu o papel de homem depois que me deu porrada… precisei apanhar pra me tornar mulher”.
“Apesar de ser sempre agressiva eu descobri assim que eu sou uma pessoa carinhosa…uma pessoa meiga, carinhosa, derramada…aí eu tive um encontro com a minha delicadeza.. passei a ter uma atitude receptiva, carinhosa.. “
Gurfinkel (2011), seguindo Freud aclara que o caráter de homens e mulheres, em sua forma definitiva, se fundamenta nas organizações primitivas pré-genitais, mas só se completa ao se atingir a organização genital e o amor objetal. Para que tal processo ocorra, é necessário que a travessia edipiana ocorra: a elaboração da castração (como papel imprescindível) possibilitando um domínio relativo do narcisismo original das tendências hostis e do princípio do prazer. Desta travessia resultaria um trabalho de integração entre os impulsos libidinais e de ternura para com a mãe, agora em uma relação de objeto total (não parcial), o que aos poucos pode estender-se para o pai e para as outras pessoas do meio social.
Outro personagem, Fernando (interpretado por Eduardo Moscovis), relata sua história em um relacionamento violento: “lógico que tudo isso teve um início pra mim, um início muito claro… minha mãe foi agredida. Quando era menino eu via minha mãe sendo agredida por algumas pessoas com quem ela se relacionava amorosamente.. até meus 15, 16 anos eu vivi esse processo, eu sentia vontade de matar as pessoas que faziam isso com a minha mãe. Meu pai agredia umas poucas vezes minha mãe… porque minha mãe….não justifica… porque minha mãe levou meu pai à loucura.. minha mãe humilhava ele sabe? Meu pai era oficial da marinha… ela dizia: você é um analfabeto… na verdade a família da minha mãe era pobre… ele agrediu muito minha mãe quando ela era menina (o pai dela, sabe?)… então assim surgiu. Ela agredia a figura do marido que era uma forma de agredir o pai ou imitar ele… e eu por desdobramento comecei a agredir as moças com quem eu me relacionava. Eu tinha 18 anos, era uma forma de redimir minha mãe sendo agredida. O tempo foi passando e eu comecei a me viciar em agredir as pessoas, as mulheres com quem transava… eu agredi muito minha esposa. A agressão parou, mas a agressão pesada tipo boxer, isso teve fim. Isso me marcou profundamente o fato de agredir minha esposa… uma mulher que só me fez bem que me amava e eu amava ela, isso é uma coisa que não me perdoo, uma coisa que não tem explicação. Essas coisas surgem das coisas mais triviais da relação humana, tudo é um pretexto, é uma necessidade de agredir, quase fisiológica. Depois que você dá vazão a esse instinto horroroso, aí você se arrepende… tem gente que não se arrepende… isso que é pior… Sabe, trabalhei com odontologia vários anos… fisicamente eu não tenho dúvidas que as mulheres são mais fortes que os homens… a resistência da mulher à dor é infinitamente maior que a do homem… o homem precisa se desatrelar desse Édipo.. dessa dependência desse cordão umbilical, ou o homem se emancipa como ser humano ou vai continuar fazendo as mulheres sofrerem… Normalmente o homem não sabe dar amor… o homem é egoísta que é o melhor lugar dele.. Com minha atual namorada, já tive episódios de agressividade… pela mesma coisa que me desperta sempre a figura feminina, uma insegurança, um ciúme em excesso, uma necessidade de punir… Acho que de alguma forma esse negócio, vem cá, é da minha mãe… coisa difícil de resolver.. você quer saber? Uma verdade, eu acho que minha mãe mereceu as porradas do meu pai… do outro não… mas do meu pai mereceu… Minha mãe levou meu pai à loucura… ele não era de bater em mulher… só que ela humilhava muito.. agrediu ele fisicamente… bateu na cara dele… chegou uma hora que o cara perdeu a bússola.. enfiou a porrada.. aí ele bateu como um oficial da marinha… boxer, sabe? É trágico e cômico.”
Ao que parece, o que podemos observar no relato de Fernando, é fundamentado em Freud 1914, no seu texto sobre o narcisismo. Pessoas com personalidade narcisista têm ideias bastante hostis e violentas em relação ao sexo oposto. Esse tipo de comportamento é um dos principais fatores que contribuem para os relacionamentos violentos, já que uma das características desse tipo de personalidade é nunca conseguir se colocar no lugar da outra pessoa, considerando o outro só um objeto que pode dispor a qualquer momento. Tais traços podem ter origem em uma educação individualista, caracterizada pela ausência de limites, onde o respeito e o egoísmo não foram sentimentos trabalhados na criança. Contudo, todos têm algum traço narcisista quando nascem, e este é necessário para a autopreservação, no entanto, quando se torna exagerado, consequências indesejadas são observadas, e uma delas é a violência. Diferenciar quando o narcisismo é exacerbado é bem difícil, já que ao contrário do que todos pensam os narcisistas não são pessoas seguras, nem se acham melhores que as outras. Pelo contrário, são extremamente inseguros e podem manifestar esse traço de personalidade de diversas maneiras que chamem atenção para ele. Outro traço da personalidade narcisista é não conseguir estabelecer vínculos afetivos saudáveis e duradouros com ninguém. Quando isso ocorre, costumam apresentar muita dificuldade no relacionamento interpessoal, não se preocupando com o outro ou com criar empatia.
Já para Gurfinkel (2002), que a partir de Winnicott retoma a ideia de um “medo de mulher”, este seria uma espécie de correlato da angústia de castração. Seria um medo que não só as mulheres experimentam um medo diante das questões da feminilidade e que pode expressar-se, por exemplo, como medo de uma mulher específica ou medo da dominação. É um tipo de medo que está vinculado à relação de total dependência entre mãe e bebê e que ressurge mais tarde. Historicamente, as mulheres sempre foram tidas como medrosas e os homens, corajosos. Em nossa cultura, pode-se dizer que elas demonstram mais seus medos e que também pedem mais ajuda. Quanto aos homens, questiono se são tão pouco fóbicos, ou se, por trás de outras patologias, não estariam medos incapacitantes ou fobias, que no relato de Fernando parece latente, ao agredir as mulheres com que se relacionava. O medo e possivelmente a ameaça sentida por elas, era um dos impulsos que o fariam descarregar essa energia inconsciente e sem a fundamental elaboração, apenas havia a necessidade de repetir e repetir a agressão.
Conte (2002) pontua a disposição masoquista como uma sexualidade traumática. Para a autora, a pulsão de morte e o masoquismo na segunda teoria das pulsões, encontram-se em uma condição de excesso, dor e passividade que necessitam tornar-se ativos, efetivar-se e desvincular-se da associação entre a dor e o prazer. Possivelmente, Fernando ao ver sua mãe sendo agredida, sentindo-se passivo e impotente diante da situação, experimentou profunda dor, que necessitou ser revivida através de suas parceiras, agredindo-as.
Analisando por outro ângulo, Nasio (1991) afirma que o caráter histérico masculino não difere muito do feminino. Sabemos que o homem histérico quer seduzir, ser amado por todos e não pode escolher, uma vez que se assim proceder, terá que renunciar a todo o resto, sendo que ele não se permite perder nada. Tem uma extremada necessidade de agradar para ser “confirmado” pelo desejo do outro. Quer para si ser o ponto de condensação dos desejos dos demais – o filho único e maravilhoso – o homem histérico tem tanta insegurança quanto à sua identidade sexual, como a mulher histérica. Tem uma necessidade ímpar de se apresentar como “superviril” (supercarros; supermulheres, etc), como uma forma de obtenção fantasiosa de que todos o desejem. Como complemento desse estado de coisas, dessa ostentação machista que se rebelará a mulher histérica, adotando uma atitude frustradora em relação a ele. A relação amorosa entre dois histéricos é uma interminável disputa, ou mesmo uma representação tragicômica. No homem a angústia de castração, aparece mais diretamente como síndromes de angústia, ou mesmo em virtude de certos deslocamentos, como pequenas ou grandes fobias. Sabemos, através da clínica que são menos frequentes, mas existe também a presença de sintomas conversivos. Encontramos aqui uma supervalorização do pênis, equiparando-o ao falo. Notamos que o homem histérico sempre quer ser o melhor e o único, o que significaria que não superou a rivalidade com os pais, nem seu temor à punição pelos seus desejos sexuais proibidos. De uma maneira geral, o pai frágil ou mesmo despótico, teria sido inseguro no exercício da lei. De qualquer forma, ao menino fica faltando à proteção paterna, a qual debilita a periculosidade que atribui aos seus desejos infantis. Como complemento de um pai com estas características, encontraremos uma mãe que – sutil ou manifestamente – o desqualifica como homem. E, esta mesma mãe poderá seduzir o filho em maior ou menor grau, porém o fará sempre com um objetivo narcisista, faltando-lhe o verdadeiro amor de mãe, ou seja: o “amor terno”. O que deve, entre outras tantas coisas ser trazido à tona, através de um trabalho de análise é que, por traz de um homem histérico, portador de sua impotência, haveria uma maior necessidade da obtenção de ternura, do que propriamente de um amor genital. Ao pensarmos nas constantes humilhações direcionadas ao seu pai e consequentemente na passividade do pai diante delas, podemos pensar que Fernando, ao identificar-se com o pai, se sentia humilhado, inferior e inseguro diante das mulheres com quem tentava se relacionar.
Nasio (1991), afirma que a fantasia de castração, salva e protege o histérico do gozo, mas o incomoda em sua maneira de perceber os seres que ama e odeia. De maneira distorcida, a fantasia de castração mergulha o neurótico num mundo em que força e fragilidade decidem em termos exclusivos sobre o amor e ódio. Amarei ou odiarei meu parceiro conforme a percepção de sua força ou fraqueza fálica. Embasado nesta afirmação, o autor pontua que as relações dos histéricos se transformam inevitavelmente em relações de dominador e dominado. Em uma visão infantil, parece sempre que há dicotomia entre o real e o imaginário. O concreto e o abstrato. Ódio e amor. Fernando ao que parece, ao relacionar-se com as mulheres, estava preso nesta dicotomia, porque não, cisão entre ódio e amor. O ódio por ter presenciado inúmeras agressões à mãe, e ódio pela mãe agredir o pai. Ao que parece aos olhos infantis de Fernando, amava a mãe quando era frágil (sendo agredida), e a odiava quando era forte (quando agredia o pai).
CONCLUSÃO
“Tem gente que não tenta por medo de errar, tem gente que não ama, por medo de chorar…”
Djavan, Tem Gente, 2012.
Quem se arriscaria a afirmar, sem medo de faltar com a verdade, que nunca viveu ou que se considera isento de viver uma relação amorosa marcada por algum tipo de violência – seja ela, física, moral ou verbal? Quem estará livre da veleidade de tomar um rompante de ciúmes, próprio ou alheio, como prova de amor e inocente alimento para a autoestima e não como exercício inconsciente e perverso de dominação e poder? Que outros mecanismos podem fazer com que uma relação baseada à priori no mais sublime dos sentimentos, o Amor, deságue ou degenere em algum tipo de opressão ou violência? Como saber aonde termina o amor e começa o phátos do amor? Até aonde este impulso gregário, intrínseco à condição humana, pode levar, quando o belo, que lhe é inerente, insiste em se manter vivo a despeito e acima de quaisquer circunstâncias, por mais terríveis que elas sejam?
O caráter explosivo e inquietante das histórias que se apoiam no binômio amor e violência, expostas no filme nos faz questionar incessantemente o que os mantêm nesses tipos de vínculo, e principalmente o que alimenta estes tipos de relacionamento. Hoje, ao que nos parece, tão inerente e questionado na sociedade. Como responder à questão do sofrimento vivido prazerosamente?
Não creio que o sofrimento seja a necessária e inevitável condição dos seres humanos neste mundo. Não creio que a essência da vida seja a infelicidade, não obstante, os ensinamentos da religião em contrário, afirmem que a resignação ao sofrimento seja uma virtude. Ao que parece, as pessoas são muito tolerantes ao sofrimento: estão sempre prontas a dizer para si mesmas, “e quem é feliz?”. Podemos pensar neste tipo de condição, quando Laura inicia seu depoimento relatando a perda da filha, parece que diz, olha o quanto sofri e sofro por isto, ou melhor, é tão dolorido, não sentirei o suficiente, mas será sempre meu sofrimento. No mínimo, confuso e intrigante. A resignação ao sofrimento incontestavelmente é mera passividade, o fracasso de alguém em assumir a responsabilidade de sua própria existência e escolhas pode ser o vício humano mais extremo. E como todo vício, prazeroso, porém sofrido.
Pensando a respeito da compulsão à repetição, percebe-se que determinadas pessoas possuem um núcleo doentio de sempre estarem repetindo suas experiências mais dolorosas, indefinidamente, com atitudes destrutivas. A maioria das pessoas não percebe o que faz, optando por acreditar que a insatisfação é apenas fruto de algo externo. E essa negação faz com que ela siga em frente, sempre sofrendo. Pode se manifestar em absolutamente todos os aspectos da vida: no namoro, no casamento, na criação de filhos, na escola, no trabalho. Qualquer um pode perceber que um padrão está sendo repetido – menos ela própria. Outro ponto a ser salientado, são as semelhanças entre cônjuges e seus pais. Habitualmente, o paciente se assemelha com quem ele mais teve dificuldades: o pai frio e distante deu origem ao marido insensível. É a representação de uma relação mal resolvida do passado, sendo basicamente na relação entre pais e filhos que se constroem esses padrões. Uma das hipóteses que podemos aventar é que isso tudo nasce de traumas, grandes ou pequenos, do começo de nossas vidas. Tudo é inconsciente, é claro. Evitar essas repetições destrutivas é muito difícil, porque elas estão consolidadas em nosso inconsciente desde muito cedo. Uma pessoa pode até perceber sua compulsão em agir daquela maneira e, a partir disso, acreditar que poderá controlar-se da próxima vez. E mais uma vez ela age destrutivamente e crê que na próxima ela evitará e assim por diante. Estar ciente de seu padrão de repetições é extremamente importante, o primeiro passo. Um dos caminhos para estancar esse comportamento é ir de encontro ao trauma que está na raiz de tudo. Uma relação afetiva violenta pode ser uma tentativa (por vezes eficiente) de descarregar essa energia acumulada e inconsciente. Contudo, eficiente em descarregar e não em elaborar, o que seria um processo no mínimo lento e doloroso.
Na discussão dos desafios e das dificuldades de relacionamentos amorosos, principalmente relações permeadas por violência física e psíquica, possivelmente há outro aspecto raramente mencionado: pode ser apavorante. Quando nos apaixonamos, sentimos que o outro ser humano tem enorme importância para nós e para nossa felicidade pessoal. Permitimos que essa pessoa entre no mundo privado de nosso íntimo, no qual talvez, ninguém jamais havia entrado ou conhecido. Assim, há uma rendição, não somente uma rendição à outra pessoa, mas aos nossos sentimentos pela outra pessoa. Sem essa rendição, o amor é abortado no início. Abortado ou “violentado”? Qual é a dificuldade em permitir que outro ser humano se torne tão vitalmente importante para nós? Qual o obstáculo? Muito simplesmente, ele está também na possibilidade da perda. Está na possibilidade de a outra pessoa não nos amar de volta. Ou de deixar de nos amar. Ou de morrer… Tantas possibilidades… Perdas reais e imaginárias (a fantasia do mundo infantil também seria parte desta perda), porém extremamente necessárias. Então, a melhor saída seria simplesmente agredir o (a) parceiro (a) e violentá-lo (a) que assim mate seu sentimento por aquela pessoa? Deste modo, o sujeito entra em contato com sentimentos negativos, não somente medo, mas também ira, ressentimento, afinal a necessidade cria uma vulnerabilidade que pode ser aterradora e porque não, enfurecedora. Com frequência há quase ódio por sentirem tanta necessidade do sexo oposto. Seria esta ambivalência comumente citada por Freud em seus textos, e principalmente dramatizada no filme?
Outra questão seria a maturidade e imaturidade nas relações amorosas. Penso que maturidade e imaturidade são conceitos que se referem ao sucesso ou ao fracasso da evolução biológica, intelectual e psicológica de um indivíduo, no sentido de um estágio adulto do desenvolvimento. Em relações maduras de amor, as diferenças complementares se referem predominantemente a forças complementares. Nas relações imaturas, as diferenças complementares tendem a se referir a debilidades complementares. Podemos classificar essas debilidades como necessidades e desejos e outros traços de personalidade que refletem alguma falha no desenvolvimento sadio, alguma falha na maturação psicológica. Seria esta então a necessidade de ser agredido (a) ou de agredir, por vezes relatada no filme? Parece que ouvimos sutilmente: “quando tinha cinco anos, importantes necessidades minhas não foram atendidas – até que sejam satisfeitas, não passarei para os seis anos”. Embora aparentemente sejam pessoas ativas e agressivas, são na realidade passivas, esperando socorro, esperando que lhes digam que são bons meninos ou boas meninas, esperando ser validados ou confirmados por alguma fonte exterior a elas, podendo se organizar em torno do desejo de agradar, de que cuidem delas, ou, alternativamente, de controlar ou dominar, de manipular ou coagir a satisfação de suas necessidades e desejos, por não confiarem na autenticidade do amor, ou do cuidado de alguém. Não confiam que basta ser como são sem falsas aparências e manipulações. Estão alienados de seus próprios recursos internos de força e de apoio; estão alienados de seus próprios poderes. Quer procurem a plenitude e a satisfação dominando ou sendo dominados, controlando ou sendo controlados, ordenando ou obedecendo, há a mesma sensação fundamental de vazio, um buraco clamante, onde um “eu” autônomo fracassou em seu desenvolvimento. Falharam na evolução para um estado de autorresponsabilidade. Falharam ao não aceitar o fato imutável de sua extrema solidão – dessa forma, estão mutilados (porque não pensarmos, literalmente em relações tão violentas psíquica e fisicamente) em seus esforços de relacionamento. Neste contexto percebem os outros seres humanos com suspeita, hostilidade e sentimentos de alienação, ou então os veem como boias com as quais podem flutuar no mar revolto de suas próprias ansiedades e inseguranças. As pessoas imaturas tendem a ver as outras principalmente, se não exclusivamente, como fontes de gratificação de seus próprios desejos e necessidades, não como seres humanos veem seus direitos, mas como uma criança vê seus pais. Dessa forma, seus relacionamentos tendem a ser dependentes, manipuladores e podem até mesmo se tornarem violentos. Em lugar do encontro de dois seres autônomos que se sentem livres para se exprimir com honestidade e para se apreciarem mutuamente, vemos o encontro de dois seres incompletos, que procuram no amor e no ódio a solução do problema de suas deficiências internas, imaginando que isto lhes permitirá “fechar” magicamente o que ficou incompleto em suas infâncias, destarte, preenchendo lacunas de suas personalidades. Fazem do “amor” o substituto da evolução no sentido de maturidade e da autorresponsabilidade. Além disso, precisamos reconhecer que um homem ou uma mulher, ambos altamente evoluídos e maduros podem, mesmo assim, ter momentos de “imaturidade”, sentimentos e respostas que estão muito abaixo de seus níveis gerais de atuação. Porém, estes momentos tendem a ser aceitos por estas pessoas pelo que são: não se transformam em motivos de autoculpabilidade ou autocondenação, muito menos do parceiro. A diferença talvez seja essa, um homem ou uma mulher, maduros, aceitam sentimentos imaturos ocasionais como sendo normais e mesmo prazerosos. Em contrapartida, um casal imaturo nega estes sentimentos e permanece aprisionado neles. Creio que esse seja o masoquismo inerente às relações afetivas. Mas pode-se considerar também aquele masoquismo que adia a satisfação imediata, que faz com que o olhar para outro seja de compreensão, aceitação, respeito, espera mesmo que naquele momento não seja a expectativa de um dos parceiros, à espera da maturidade. Ao que parece, há um limite tênue entre o que chamaríamos de masoquismo saudável e o masoquismo doente. Em fração de segundos, o que seria inerente a todos os casais e, por conseguinte necessário para uma relação saudável, torna-se de forma trágica, um filme de terror.
Como o dito popular nos ilustra: quando casar sara. Talvez nestes tipos de vínculo, o contrário seria a realidade: quando sarar casa.
“Não gosto nada da metáfora da metade da laranja, isso é bem patológico. Somos uma laranjinha inteira, e o outro também é”, diz psicóloga




O narcisista apresenta dificuldades em estabelecer vínculos reais. O outro existe para satisfazer suas necessidades. Sendo assim, os bichos de estimação não reclamam e dificilmente geram conflito na relação
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