Acabou-se o que era doce..

Acabou-se o que era doce

Quantas luas se passam entre o primeiro arrepio de paixão de um casal e a fase em que o jeito de um irrita o outro? Cada dois, cada dois, mas não custa expecular Rodrigo Capote/Folhapress Fernando, 50, e Sílvia, 45, que estão juntos há 26 anos DE SÃO PAULO Quanto tempo passa entre a troca encantada de olhares e o momento que você repara nos defeitos do seu amor? Para o senso comum, a prova de fogo vem na “crise dos sete anos”. Uma expressão popular nos Estados Unidos diz que após esse tempo, a coceirinha, a “seven year itch”, começa a incomodar o casal. Já um psicólogo evolucionista chutaria que o prazo de validade do amor gira em torno de quatro anos “”o suficiente para que o homem ajude a mulher a cuidar da criança, até que essa esteja apta a seguir por conta própria na tribo nômade. Mas um levantamento feito com mais de 10 mil casais pela Universidade de Wisconsin encontrou um tempo de duração ainda menor do amor: três anos. É o mesmo tempo apontado em estudo patrocinado pelo estúdio Warner Brothers, feito com 2.000 adultos no Reino Unido. Foram comparados casais em relações curtas (menos de três anos) e longas (mais de três). No primeiro grupo, 52% afirmaram gostar das relações sexuais. No segundo, apenas 16%. É claro que, nesses estudos, amor e paixão foram considerados sinônimos. “Paixão eterna só existe na ficção”, afirma o psicólogo Bernardo Jablonksi, autor de “Até Que a Vida Nos Separe: A Crise do Casamento Contemporâneo” (Ed. Agir). “Na paixão você sofre, para de comer, não dorme. Não tem como durar muito”, afirma o autor, que já passou por diversas separações. O psiquiatra Luiz Cuschnir, do Instituto de Psiquiatria de São Paulo, acha que as pessoas deveriam dizer “eu te amo agora”, porque dizer “eu te amo muito” dá a ideia de que o compromisso não vai acabar. O psicólogo Aílton Amélio concorda. “Amor pode terminar em um dia, porque ele depende dos fatos para ser nutrido. É como andar de motocicleta: se parar, cai”, compara o psicólogo. Há quatro anos, a carioca Beatriz Piffer, 27, namorava, mas conheceu um rapaz numa festa. Passaram a noite conversando, ele contou que era cineasta, ela disse que cursava filosofia. Apesar da atração mútua, não trocaram telefones. E também não perguntaram o sobrenome um do outro. “Fui para casa triste, pensando que nunca mais ia vê-lo. Passei os oito meses seguintes à procura dele”. Viveu dias de detetive amadora: rememorou os detalhes da conversa, montou pastas no computador para juntar pistas até descobrir o e-mail dele. Aí forjou um encontro casual. Deu certo: começaram a namorar já no dia do reencontro. “Eu tinha a certeza de que tinha encontrado o homem da minha vida. Ele achou que era coisa do destino”. O namoro terminou quatro anos depois. “Ele viajava muito”, diz Beatriz. Hoje eles ainda saem, mas para tomar café juntos. “O amor não acabou, só a relação é que mudou. O modelo que todo mundo espera não existe.” OUTRA COISA A atuária Luiza Ferreira, 28, de Brasília, trabalha com números, mas não sabe quantificar quanto dura o amor. Só sabe que o sentimento é passageiro. “Meus pais se separaram quando eu era pequena”, explica. Seu namoro mais curto, lembra, durou um ano, e o mais longo, cinco. “Tem muito casal que vive junto, mas sem amor, só pelo carinho. Com o tempo, amor vira outra coisa.” O supervisor mecânico Fernando Vicente, 50, e a professora Sílvia, 45, estão casados há 26 anos. Dizem nunca ter passado por uma crise. “Se ela não é minha alma gêmea, é a mais próxima disso”, diz Vicente. Mais da metade dos amigos deles já se separaram, acrescenta. MONOGAMIA SERIADA O cineasta Roberto Moreira, 50, diz que o amor pode ser eterno, “mas a probabilidade é pequena.” Para ele, relacionamento que dure mais de dez anos é um “sucesso”. Moreira lançou em 2009 o filme “Quanto Dura o Amor?”, que narra a busca melancólica de uma atriz, uma advogada e um escritor por um amor que dure. “Talvez o melhor título fosse ‘Quanto Dura a Paixão’, porque o amor só vem quando o outro deixa de ser uma projeção sua”, afirma. No filme, os amores são tão efêmeros quanto as relações na cidade. “O final é pessimista, mas mostra que muitas pessoas podem crescer com o amor”, diz Moreira. Professora de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais e autora de “Reinvenções do Vínculo Amoroso” (Ed. UFMG), Marlise Matos não despreza a dimensão biológica “”e mais efêmera”” do amor. Mas se concentra na dimensão que é pura construção social. “O amor pós-moderno é a possibilidade de dissolução.” O psicanalista Francisco Daudt, colunista da Folha, diz que vivemos um tempo de “monogamia seriada”. “É poligamia disfarçada. Cumprimos o papel de polígamos, mas com uma pessoa de cada vez.” Ele tem perguntado a seus pacientes se se imaginam casados com a mesma pessoa daqui a 20 anos. “A negativa é frequente. Estamos menos hipócritas.”

Anúncios

Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s