Deixe rolar…

Deixe rolar…

Não adianta querer controlar tudo. Quanto menos estresse, melhores serão os resultados. Aprenda a confiar nos outros e no fluxo natural das coisas e viva com mais leveza.

Texto • Melissa Diniz

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Há pessoas que não “soltam a rédea” jamais. De maneira geral, são incapazes de delegar, têm mania de perfeição e sofrem mortalmente a cada erro cometido, mesmo que não seja dos mais importantes. Elas também não encaram de maneira prática os imprevistos nem a necessidade de mudança. Para essa turma, só há um jeito bom e válido de agir: o seu. Estamos falando das controladoras compulsivas, aquelas que querem o domínio de tudo nas mãos, até mesmo quando se trata do imponderável. “Elas podem ter características de perfeccionismo e egocentrismo, mas o que mais sentem é medo, pois precisam estar protegidas e acham que centralizando tudo terão mais garantia de segurança”, diz a psicoterapeuta paulista Vera Calvet, autora do livro O Eu Controlador (Instituto Ráshuah do Brasil). “Têm pavor de conferir tarefas e correr o risco de algo dar errado ou fugir de seu controle.”

Se você convive com alguém assim, sabe, com certeza, que o dia a dia ao lado dessa pessoa não é nada fácil. Afinal, o nível de exigência é tão alto que agradá-la é praticamente impossível. E ainda tem mais: o controlador sempre está atento às menores falhas, incluindo aquelas que você cometeu e nem percebeu. Sim, elas serão notadas e apontadas com precisão cirúrgica, muitas vezes machucando quem está por perto. “Por mais bem intencionado que seja, ao fazer uma crítica, o indivíduo estará sempre se colocando como mestre e impondo seu ponto de vista a quem não pediu sua opinião”, afirma Vera Calvet.

Ao destratar o próximo, perdemos a oportunidade de ensinar e passamos por chatos e arrogantes. O que fazer, então, para corrigir sem ofender? “Peça permissão para emitir sua opinião e nunca seja taxativa ao mostrar o erro. Proponha uma nova atitude mais construtiva, valorizando o que há de positivo e sugerindo uma mudança de estratégia. Ou seja: em vez de ser incisiva, pergunte.”

“Lembrar que não passamos de minúsculas partículas num vasto oceano interdependente diminui essa tendência de nos acharmos o centro do Universo”,

Christina Carvalho, estudiosa da filosofia budista

Porém, se você é o alvo da crítica, duas atitudes podem minimizar seu impacto. A primeira é ter a humildade para ouvir e assimilar o que é válido. A segunda é relativizar o comentário, evitando melindres. “Os mestres budistas ensinam que as críticas são sempre mais valiosas do que os elogios, já que nos alertam para os pontos que precisamos melhorar. Com aquele que critica, sejamos compassivos. A marca de um ser elevado é a inesgotável compaixão e a gentileza com que trata os seres humanos”, diz Christina Carvalho, estudiosa da filosofia budista que traduziu para o português o livro As Seis Perfeições – Como Atingir o Bem-Estar Supremo, de Geshe Sonam Rinchen (ed. WMF Martins Fontes).

A difícil arte de validar o outro

Caso a controladora de plantão seja você, conhece de cor e salteado as desvantagens de agir dessa maneira: está sempre estressada, frustra-se com facilidade e vive ansiosa, pensando que os eventos podem não sair como planejou. Mais que isso: sofre a cada segundo quando percebe que não saíram e nunca sairão, simplesmente porque não dá para gerenciar tudo as 24 horas do dia. É difícil assumir essa realidade, mas o mundo não gira em torno de nosso umbigo e sempre vamos precisar de colaboração externa para viver.

Segundo a psicoterapeuta cognitivocomportamental Nancy Erlach Danon, de São Paulo, por não tolerarem a frustração, indivíduos de comportamento perfeccionista e controlador sentem muita dificuldade para se relacionar, tanto na vida íntima como no trabalho. “Quem vive dessa maneira limita a relação, podendo se tornar arrogante, irritado, ansioso e solitário”, afirma.

Algumas vezes, a causa disso remonta à infância. “Crianças muito mimadas ou aquelas cujos pais foram dominadores, que nunca deixaram o filho tirar notas baixas, por exemplo, tendem a ser assim. O mesmo acontece quando não receberam limites, ou seja, não ouviram ‘não’ quando pequenos e cresceram acreditando que eram os melhores”, diz a especialista.

Exatamente por isso, um bom treinamento para quem age dessa maneira é tentar validar as opiniões alheias. “A primeira coisa que um obcecado por resultados precisa perceber é que não existe nada e nenhuma circunstância na vida em que ele esteja completamente só e possa administrar tudo”, diz Vera. “A maioria dos eventos passa pela interferência de alguém. Por isso, é necessário respeitar o arbítrio alheio e perceber que é possível chegar a um bom resultado por diversos caminhos. Esse já é um grande passo.”

Como exercício, a psicoterapeuta recomenda o seguinte: feche-se num quarto e olhe para a própria imagem no espelho. Veja por quanto tempo consegue fazer isso. “A ideia é compreender que realmente não há nada para trocar ou dizer vendo somente a si mesma”, afirma Vera.

Na opinião de Villela da Matta, presidente da Sociedade Brasileira de Coaching, esse tipo de comportamento só se modifica quando há um propósito maior. Por exemplo, um chefe que precisa dirigir a empresa e supervisionar funcionários perderá muito tempo realizando tarefas corriqueiras. Dessa forma, entende que deve apostar no treinamento de pessoas para poder aliviar sua carga. “Delegar exige paciência de ensinar, acompanhar e corrigir. É um investimento, mas, se há um objetivo maior, o benefício vale o esforço”, diz.

É comum também, afirma Da Matta, que a dificuldade se origine do temor de ser superado pelos colegas, caso compartilhe seus conhecimentos. “Essa é uma das causas mais frequentes de demissão, pois o centralizador não interage e, por consequência, não cresce. Fica estagnado naquela função até ser, de fato, ultrapassado por alguém mais dinâmico ou pela própria tecnologia”, diz.
Um pouco mais de paciência…

Infelizmente, muitas vezes o impulso controlador vem associado a uma intransigência desmedida, o que torna os fatos ainda mais difíceis. Afinal, nada pior para quem planeja tudo milimetricamente do que se render a normas, regras ou convenções estabelecidas que invalidem seu cronograma. Por essa razão, não é difícil ver clientes assim dando vexame em bancos, aeroportos ou locais públicos. Claro, ninguém gosta de perder tempo ou de ser maltratado. Mas o controlador não age assim por pen- Fotos: istockphoto sar em todos, e sim por achar que ele merece tratamento vip.

“Ser exigente pode ser definido como querer o melhor naquela situação. Isso significa ter a clara noção do que é realmente possível. Mas o intransigente tem a ilusão de que o impossível é possível, e apenas sua forma e seu resultado pretendido são certos”, afirma Vera.

Na opinião de Christina, para combater o veneno da exigência perfeccionista, nada como uma boa dose de generosidade e paciência. “É importante cultivar o desapego, não só das coisas materiais mas também das expectativas de retorno. Com sentimentos nobres e sendo pacientes, deixamos de esperar tanto do outro e da vida. Na concepção budista, o limite entre a integridade e a intransigência deve ser traçado à base do bom senso”, diz.]

Confie em si mesma

E NO FLUXO DA VIDA O receio de que as coisas saiam erradas muitas vezes nos impede de enxergar que a solução está logo ali. “Vejo muito medo e insegurança por aí. Podemos projetar essa sensação em qualquer ponto quando não temos autoconhecimento. Como não compreendemos bem nossa capacidade, damos todo o poder ao externo”, diz Vera. Outro ponto importante é manter o foco no presente, evitando sofrer por antecipação ou projetar problemas que ainda nem existem. “Cultivar o contentamento e a apreciação do que é simples é uma prática extremamente saudável. Cada respiração pode ser vista como uma bênção e cada gole de água pode ser um néctar incomparável. Assim como certa flexibilidade física é fundamental para a saúde do corpo, a maleabilidade mental é essencial para o bem-estar”, diz Christina.

Para a estudiosa da filosofia budista, a mente que se deixa serenar consegue lidar com as ninharias do cotidiano sem perder o contato com a felicidade profunda. “Um exercício muito interessante e revelador proposto pelo dalai lama é o de ficar atento ao tipo de pensamento que surge em nossa mente logo que o despertador toca. Essa passagem para a consciência, se observada com delicadeza, pode nos dizer muito sobre nosso pano de fundo mental”, diz.

Lembre-se de que, querendo você ou não, há um fluxo incessante na vida, nada nunca permanece como está. “Nossa trajetória é feita de movimentos, a mudança é a regra, e não a paralisação. Ver a magia e a beleza disso é o que nos faz aceitar todos os eventos, inclusive os temidos imprevistos, como algo que vem para nos ajudar a crescer”, afirma Vera.

Segundo Christina, os mestres budistas costumam nos comparar a crianças fazendo castelos de areia à beira-mar, totalmente absortas em sua atividade e esquecidas de que as ondas se aproximam. Para ela, não há nada de errado em construirmos castelos, contanto que tenhamos a maturidade necessária para saber que, mais cedo ou mais tarde, a onda virá. “Então poderemos aceitá-la com a paz no coração”, diz

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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