10 passos para ter emoções em equilíbrio

10 passos para ter emoções em equilíbrio

Bem-estar, harmonia interior, paz de espírito. A missão de BONS FLUIDOS, nesses últimos 10 anos, tem sido proporcionar uma verdadeira transformação na vida das mulheres. Para melhor! E esse é nosso compromisso também para a próxima década de sua vida. Assim, preparamos uma série de reportagens com os 10 passos para ter emoções em equilíbrio. Siga a nossa trilha e viva muito mais feliz!

Texto • Bons Fluidos

(primeiro passo) amor companheiro
Tolerância, afeto, diálogo e sinceridade. Eis os ingredientes que não podem faltar para se construir uma relação duradoura e feliz.

Amor companheiro

Tolerância, afeto, diálogo e sinceridade. Eis os ingredientes que não podem faltar para se construir uma relação duradoura e feliz.

Texto • Melissa Diniz

Todo mundo busca, mas pouca gente consegue encontrar um amor que supere o maior dos desafios, o tempo. Qual seria o segredo para um casal continuar junto apesar das mudanças de temperamento dela, da teimosia dele e das inúmeras divergências de uma vida toda? “Tolerância e bom humor”, afirma a psicanalista Lidia Aratangy, que trabalha há mais de 30 anos com terapia de casais, ela mesma casada há quase 50 anos. Em seu livro O Anel Que Tu Me Deste – O Casamento no Divã (Primavera Editorial), Lidia reforça o que é senso comum: “Cada casal deve Tolerância, afeto, diálogo e sinceridade. Eis os ingredientes que não podem faltar para se construir uma relação duradoura e feliz. amor (primeiro passo) companheiro talhar sob medida o vínculo que vai uni-lo, munido de disposição, coragem e humildade, empreendendo as reformas e consertos necessários para que o traje continue a lhes cair bem e a vestir confortavelmente a ambos, adequando- se às mudanças de medidas”.

Num grande amor, capaz de sobreviver ao lado B da vida (a rotina, a dor, a doença, as instabilidades e as dificuldades financeiras) é preciso dourar a pílula e entender que, ao contrário da alma gêmea, o outro é, na verdade, muito diferente de nós. “Quanto mais cientes das diferenças somos, mais tolerantes nos tornamos diante dos conflitos que delas resultam. Aceitá-las Especial 10 anos deixa o relacionamento mais leve”, diz o escritor americano John Gray em seu livro Por Que Marte e Vênus Colidem – Como Homens e Mulheres Podem Driblar o Estresse (ed. Rocco).

Mais do que as diferenças, há que se lidar com a transformação pela qual cada um passa ao longo da vida. O companheiro não será sempre o príncipe por quem você se apaixonou. É preciso apaixonar-se todos os dias por um novo homem, como sugere Lidia. “O rapaz de 20 anos que foi seu namorado não é o mesmo aos 30, quando virou pai. E a princesinha de 20 anos se revela outra pessoa diante do filho com febre. Ambos estão em contínua mudança e, para que continuem juntos, têm de aceitar a beleza desse processo”.

A ilusão do amor romântico pode precipitar o fim do relacionamento. “O erro está em idealizar o par amoroso e, para manter essa idealização, não poupar esforços”, diz a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins em seu livro A Cama na Varanda – Arejando Nossas Ideias a Respeito de Amor e Sexo (ed. Best Seller). “Imagina- se que no casamento se alcançará uma complementação total, que as duas pessoas se transformarão numa só, que nada mais irá lhes faltar e, para isso, marido e mulher esperam ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro.”

Ledo engano. “Casamento é feito de doação, generosidade. Para que dê certo, cada um tem que se ocupar de fazer o outro feliz. E saber que o outro não pode nos dar aquilo que temos que conquistar por nós mesmos”, insiste a terapeuta de família e casal Lana Harari. Mas cuidado: doação não significa anulação da personalidade. “Muitos casais acreditam que precisam se sacrificar para agradar o parceiro. De fato, todos os relacionamentos exigem adaptações, compromissos e sacrifícios, mas não temos que abrir mão de nós mesmos”, diz John Gray. Todo casal tem projetos comuns, crenças e ideais compartilhados, o que não pode impedir que mantenham sua individualidade. “Quando alimento meu universo interno, me torno mais interessante para ele, sem me colocar em sua sombra e em sua dependência. Isso é autonomia”, explica Lana.

A ARTE DE CONVERSAR

Que uma relação amorosa não sobrevive sem diálogo, ninguém duvida. Dialogar, porém, não significa exclusivamente discutir a relação. É mais do que isso e pode tratar de fatos do dia a dia, da família, do trabalho e até da vida e suas implicações. “Os homens sempre imaginam que vão levar bronca quando começa uma conversa a dois”, diz Lidia. A diferença é que eles, criaturas mais operacionais, encaram conversas como um jeito de resolver problemas. Já as mulheres falam, quase sempre, para repensar a própria vida. “Temos de entender que solucionar problemas é a forma masculina de demonstrar interesse”, acrescenta a Lidia.

Outro bom conselho: aprenda a ouvir as queixas e as críticas dele sem se revoltar. “O homem não encontra na mulher uma interlocutora para falar de seus sentimentos porque ela não encara como sentimentos as experiências que ele traz para a conversa. Mal interpretado, acaba se silenciando, como alerta o psicoterapeuta junguiano Alberto Lima, em seu livro Alma, Gênero e Grau, (ed. Devir Livraria). A comunicação precisa ser sempre cuidadosa. Críticas fazem parte, mas é preciso também ressaltar as qualidades do parceiro, usando palavras e tom adequados

“Quanto mais cientes das diferenças somos, mais tolerantes nos tornamos diante dos conflitos que delas resultam. Aceitá-las deixa o relacionamento mais leve”, John Gray, escritor

Para que a conversa não machuque, revele seus sentimentos, sem acusar. “Diga sempre: é difícil para mim quando… ou fico triste ao perceber que…ou me senti mal ao ver você… Evite colocações como: você me faz infeliz ou você não sabe tal coisa”, enfatiza Lana. Isso não quer dizer que você deva engolir sapos. “Pessoas que não dizem o que sentem acumulam mágoas e, mais cedo ou mais tarde, elas reaparecem e daí pode ser tarde demais”, diz a terapeuta.

Conversar é necessário, mas nem só de palavras se faz uma boa conversa. Sob a perspectiva taoísta, o sexo é uma ótima maneira de exercitar a capacidade de dialogar de um casal, pois ajuda a entrar em contato com sentimentos profundos. “Uma vida sexual feliz é uma forma de comunicação e estimula a conversa, ajuda a descobrir as compatibilidades e o desejo de se ajudarem mutuamente na jornada espiritual”, afirmam Mantak Chia e W.U. Wei, autores do livro Reflexologia Sexual – O Tao do Amor e do Sexo (ed. Cultrix).

O sexo e o companheirismo devem andar juntos – um não exclui o outro. Aliás, o sexo é um termômetro do sentimento. Assim como um casal deve cuidar dos interesses em comum, também precisa manter acesa a chama da paixão. “Se a relações não estão satisfatórias, mas ainda há sentimento, é preciso resolver o conflito. Quanto maior o intervalo entre os encontros sexuais, maior o afastamento. A sexualidade precisa ser alimentada e reinventada sempre”, afirma Mantak Chia.

FELICIDADE

A ideia de felicidade conjugal depende da expectativa que se tem da união. Algumas décadas atrás, uma mulher se considerava feliz se seu marido fosse bom pai de família, protetor e provedor. Para o homem, a boa esposa seria a que cuidasse da casa e dos filhos. “Hoje, as expectativas tornaramse mais difíceis de serem satisfeitas”, filosofa Regina Lins. Difíceis, sim, mas não impossíveis. Uma das principais alegações dos casais que se divorciam é que o casamento caiu na rotina. “Na terapia, tentamos ajudar a quebrar o ciclo, evitando as ciladas que o tempo de relação vai criando. É preciso identificar os comportamentos que irritam cada um e analisar a reação de ambos os lados para poder mudar o rumo das coisas. Isso ajuda a entender que não é o outro que nos faz infelizes, mas a maneira como interpretamos suas atitudes e como reagimos a elas”, explica Lana.

Uma das chaves da felicidade a dois é a capacidade de se adaptar. “Como tudo muda o tempo todo, o casal tem de administrar a imprevisibilidade da vida, sem sobrecarregar a relação com as tensões do dia a dia. Deve desenvolver a capacidade de resolver os problemas juntos”, diz Lana.“Amor companheiro nasce da criatividade, que ensina a lidar com as divergências, sem querer mudar o parceiro”, diz Lidia.

A força de uma relação também depende de preservar os interesses comuns do casal – praticar esportes juntos, dançar, viajar e dividir tarefas do cotidiano. É fundamental ainda ter amigos e hobbies em comum e compartilhar responsabilidades. Tudo isso une um casal. Já a falta de confiança afasta. “Todos temos direito à privacidade. Mas alimentar segredos, omitir fatos importantes e mentir é perigoso”, alerta.

Isso, claro, e mais o afeto. A psicóloga e coach Iraceles Pires, membro da Sociedade Brasileira de Coaching, lembra que nenhum relacionamento sobrevive à falta desse sentimento. John Gottman, professor de psicologia da Universidade de Washington, garante que cônjuges felizes dedicam, no mínimo, cinco horas por semana para a relação. Explicitam o carinho em beijos, abraços, boas-vindas, despedidas calorosas e em declarações públicas e privadas de seu respeito, admiração e gratidão. Para ele, essa seria a fórmula de construir um amor companheiro.

“O rapaz de 20 anos que foi seu namorado não é o mesmo aos 30, quando virou pai. E a princesinha de 20 anos se revela outra pessoa diante do filho com febre. Ambos estão em constante mudança e, para que continuem juntos, têm de aceitar a beleza desse processo”, Lidia Aratangy, psicanalista.

(segundo passo) o motor da autoconfiança
Essa força mora dentro de nós e, nas horas decisivas, nos encoraja, dizendo com entusiasmo: “Dê mais esse passo, você é capaz”. E assim, de conquista em conquista, fortalecemos a fé em nós mesmas. Saiba, então, como nasce esse potencial e o que você pode fazer para cultivá-lo.

O motor da autoconfiança

Essa força mora dentro de nós e, nas horas decisivas, nos encoraja, dizendo com entusiasmo: “Dê mais esse passo, você é capaz”. E assim, de conquista em conquista, fortalecemos a fé em nós mesmas. Saiba, então, como nasce esse potencial e o que você pode fazer para cultivá-lo.

Texto • Raphaela de Campos Mello

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A autoconfiança, tal qual a paciência, é uma virtude que foi quase perdida na sociedade voltada para as coisas exteriores”, diagnostica com pesar M. J. Ryan, autora de O Poder da Autoconfiança (ed. Sextante). A consultora norte-americana está se referindo à corrida insana pela excelência, marca dos tempos atuais. Quanta ironia. Justamente quando mais precisamos dessa força decisiva ela nos escapa, seja porque não fomos estimuladas desde cedo a acreditar em nossos talentos, seja porque pressões vindas de todos os lados, inclusive de nós mesmas, nos dão um xeque-mate. Então, encaramos o espelho e, no lugar de um ser confiante e dono de si, encontramos apenas um par de olhos intimidados.

Nesse contexto, a determinação genuína de alguns contagia e nos faz pensar, às vezes até invejar: de onde vem essa força motriz que os projeta em direção à vida com garra e convicção? Será ela uma conquista individual ou um potencial que nasce com a gente? “A autoconfiança começa a se constituir na relação entre a mãe e o bebê”, afirma Liane Zink, psicoterapeuta corporal e diretora do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo. Ao longo da infância, ela explica, esse sentimento vai se consolidando à medida que o amor, o interesse e o zelo pela cria se manifestam no dia a dia.

Por outro lado, aponta a especialista, quando esse vínculo não é estabelecido, o pequeno cresce sem uma base de sustentação fundamental para a formação da sua identidade. “A mãe que não olha para o filho, não expressa seu orgulho, enfim, que não o vê como prioridade, vai criar uma criança insegura”, sublinha Liane, destacando a gravidade do quadro. “Quem apresenta esse histórico não consegue reconhecer seu próprio valor, acha que não serve para nada, que tudo o que faz é ruim ou dá errado. Logo, se torna melancólico e se coloca na posição de vítima.”

A psicóloga e terapeuta familiar Rosana Trindade Rodrigues, de São Paulo, também considera que a família exerce uma influência crucial na construção da autoconfiança. No terreno doméstico, ela alerta, um dos fatores que minam o desabrochar dessa competência é o excesso de crítica por parte dos pais, obcecados pela ideia de que os filhos precisam atingir a perfeição em tudo o que fazem. No entanto, ressalta, a crença em si mesmo – ou a falta dela – também é reflexo da personalidade de cada um. “Temos que considerar tanto a contribuição do meio quanto as características inatas do indivíduo”, pondera.

Essa equação explica, por exemplo, por que filhos criados pelos mesmos pais e beneficiados pela mesma estrutura socioeconômica se tornam adultos com níveis distintos de autoconfiança. Ainda mais curioso é notar essas diferenças gritantes em gêmeos idênticos. No entanto, a insegurança de um filho, muitas vezes amplificada pela assertividade do irmão, não deve ser encarada como um problema insolúvel. “O filho mais frágil e sensível pode fazer escolhas sólidas e cautelosas, desde que tenha o apoio da família”, acredita o psicólogo Zheca Catão, de São Paulo. Tampouco a ausência de encorajamento dentro do lar é um obstáculo insuperável. “Há casos em que a criança encontra suporte fora de casa, tendo como referência um parente, professor ou vizinho”, enfatiza Rosana.

Resgate possível

Pois é, nem sempre a infância transcorre num cenário familiar repleto de afeto, compreensão e exemplos saudáveis. Infelizmente. Sendo assim, lá na frente, muitos descobrem que lhes falta coragem para enfrentar os desafios que a vida impõe. Mas a boa notícia é que a autoconfiança pode ser recuperada a qualquer momento, desde que a pessoa se disponha a investigar as causas de suas inseguranças. “Trabalhei na extinta Fundação Estadual do Bem- Estar do Menor e lá constatei que mesmo crianças com histórico de muito sofrimento podem se reconstituir”, revela Catão, otimista.

Os estudiosos da psique garantem que o autoconhecimento é um grande impulso para o fortalecimento da autoestima. “Fazer terapia é um meio de superar o problema e descobrir em si um potencial não desenvolvido”, defende Rosana. Nesse processo de busca interior, ela explica, é importante focarmos nossas capacidades e valorizarmos nossos diferentes papéis. “Quando resgatamos o que existe de bom em nós, descobrimos que ninguém pode apagar nossas conquistas afetivas e profissionais”, atesta.

Já Zheca Catão recomenda mais atenção aos pontos fracos. “Usufruímos diariamente aquilo que é positivo em nós. Logo, precisamos conhecer nosso ‘calcanhar de Aquiles’ para, então, elaborá-lo e dar a ele um outro significado”, avalia e nos lembra: “É o equilíbrio que vai sustentar nossos aspectos frágeis”. Caminhar num parque, nadar, contemplar a natureza, meditar, fazer ioga e respirar “profunda e livremente” são atividades ao alcance de qualquer uma de nós. Comemoremos, pois todas elas podem, segundo Liane, engrenar a autoconfiança. “Elas nos permitem introjetar imagens positivas, dar a mão para nossas emoções e não mais encará-las como fantasmas assustadores, enfim, confiar na fortaleza do corpo e da mente.”

Outro caminho é procurar a ajuda de um terapeuta corporal. Esse profissional irá auxiliar o paciente a extravasar suas aflições e reencontrar a fé em si mesmo. “Em primeiro lugar, é preciso estimular a percepção do corpo, por exemplo, fazendo a pessoa reconhecer que tem pernas fortes e que pode confiar nelas”, descreve Liane. No consultório, a terapeuta incita o paciente a se aproximar de seus sentimentos por meio de técnicas de respiração, meditação e de um exercício chamado grounding. “Ele consiste em ficar na vertical, com os pés firmes no chão. Dessa forma, a energia vai se enraizando no solo, trazendo a pessoa para a realidade, para que ela se sinta presente, inteira, com suas dores e alegrias.” Com o tempo, espera-se que o paciente confie na sua própria força e possa lidar com suas dúvidas e incertezas.

Idas e vindas

Aos que não se identificam com as agruras desencadeadas pela baixa autoestima, é bom dizer que as certezas que trazemos dentro de nós não estão imunes aos solavancos da vida. Logo, quem confia no próprio taco pode, eventualmente, duvidar dessa capacidade. Nada mais natural. “Em face de crise e perda, emocional ou financeira, a pessoa pode ver sua autoconfiança abalada. Mas não chegará a se desestruturar. Uma hora mobilizará seus recursos internos e seguirá adiante”, garante Rosana.

Também é comum sermos resolutas em determinada área e um belo dia descobrirmos que não damos conta de alguma questão relacionada a um outro campo. “A pessoa é excelente profissional, mas começa a namorar e percebe que na vida afetiva vacila. Nesse caso, não basta ser autoconfiante em apenas um aspecto. É preciso desenvolver os demais com a ajuda de um terapeuta”, ressalta Zheca. Segundo ele, a virada acontece quando aprendemos a acolher nossas limitações com humildade. “Nada mais humano do que, ao sair da zona de conforto, sentir medo, voltar atrás na hora H, gaguejar em público. O problema acontece quando essas reações são recorrentes e desestabilizam o indivíduo”, destaca.

Nariz em pé

Se para alguns falta fé em si mesmo, para outros sobra. Tanto que esse sentimento chega a transbordar, afastando as pessoas ao redor. Ninguém suporta um ser que de tão autoconfiante se torna presunçoso e arrogante. “Esse tipo tem o peito estufado e olha as pessoas diretamente nos olhos”, descreve Liane. Mas, se esses sinais querem comunicar “sou o maioral”, as entrelinhas desmontam tal afirmação. “A presunção é um mecanismo de defesa que camufla a deficiência de algum aspecto. A insegurança exacerbada, nesse caso, se apresenta como o oposto: excesso de confiança”, analisa a terapeuta familiar Rosana Trindade. “Sob a capa da arrogância existe uma pessoa assustada e escondida. Quem se coloca nessa posição tem dificuldade de mudar, pois é preciso humildade para admitir as próprias fraquezas perante os outros”, completa Zheca.

Além de virar persona non grata, o petulante costuma perder a noção do perigo, o que é ainda mais preocupante. “O excesso de autoconfiança pode gerar acidentes automobilísticos, brigas no trânsito, perda de emprego. Tudo isso porque a pessoa não consegue medir riscos e respeitar limites. Ela acha que pode tudo”, alerta o psicólogo. Dá para concluir que há um desequilíbrio generalizado. Tal qual uma balança desajustada, ora pendemos para a apatia, ora para a vaidade excessiva. E nem de um lado, nem de outro, sentimos firmeza em nossas atitudes. “Hoje, o mundo pede que sejamos superconfiantes, que não demonstremos medo, nem angústia, muito menos fracasso. A verdade é que pagamos um preço altíssimo por isso”, diz Liane.

Ninguém precisa experimentar o lamento de perder oportunidades preciosas porque não se acha merecedor delas, muito menos se inflar de superioridade a ponto de nenhuma pessoa desejar mais a sua companhia. Andemos, então, no caminho do meio, onde o chão é confiável e nossas pernas suportam as ondulações do trajeto. Para tanto, há que se olhar mais de perto, sobretudo, com mais generosidade e menos exigências.

Esperamos que, ao seguirmos essa trilha, possamos adquirir uma confiança consistente e, ao mesmo tempo, consciente de que errar é humano. “O amadurecimento traz clareza, faz com que nos aproximemos das experiências, sejam boas ou ruins. Assim, quando tropeçarmos, estaremos tranquilos para levantar e seguir com a vida”, declara Zheca. Depois dessa injeção de ânimo, está pronta para ligar o motor e acreditar tanto na estrada como em quem está atrás do volante? Então, coloque o cinto de segurança e boa viagem!

Resgate possível

Pois é, nem sempre a infância transcorre num cenário familiar repleto de afeto, compreensão e exemplos saudáveis. Infelizmente. Sendo assim, lá na frente, muitos descobrem que lhes falta coragem para enfrentar os desafios que a vida impõe. Mas a boa notícia é que a autoconfiança pode ser recuperada a qualquer momento, desde que a pessoa se disponha a investigar as causas de suas inseguranças. “Trabalhei na extinta Fundação Estadual do Bem- Estar do Menor e lá constatei que mesmo crianças com histórico de muito sofrimento podem se reconstituir”, revela Catão, otimista.

Os estudiosos da psique garantem que o autoconhecimento é um grande impulso para o fortalecimento da autoestima. “Fazer terapia é um meio de superar o problema e descobrir em si um potencial não desenvolvido”, defende Rosana. Nesse processo de busca interior, ela explica, é importante focarmos nossas capacidades e valorizarmos nossos diferentes papéis. “Quando resgatamos o que existe de bom em nós, descobrimos que ninguém pode apagar nossas conquistas afetivas e profissionais”, atesta.

Já Zheca Catão recomenda mais atenção aos pontos fracos. “Usufruímos diariamente aquilo que é positivo em nós. Logo, precisamos conhecer nosso ‘calcanhar de Aquiles’ para, então, elaborá-lo e dar a ele um outro significado”, avalia e nos lembra: “É o equilíbrio que vai sustentar nossos aspectos frágeis”. Caminhar num parque, nadar, contemplar a natureza, meditar, fazer ioga e respirar “profunda e livremente” são atividades ao alcance de qualquer uma de nós. Comemoremos, pois todas elas podem, segundo Liane, engrenar a autoconfiança. “Elas nos permitem introjetar imagens positivas, dar a mão para nossas emoções e não mais encará-las como fantasmas assustadores, enfim, confiar na fortaleza do corpo e da mente.”

Outro caminho é procurar a ajuda de um terapeuta corporal. Esse profissional irá auxiliar o paciente a extravasar suas aflições e reencontrar a fé em si mesmo. “Em primeiro lugar, é preciso estimular a percepção do corpo, por exemplo, fazendo a pessoa reconhecer que tem pernas fortes e que pode confiar nelas”, descreve Liane. No consultório, a terapeuta incita o paciente a se aproximar de seus sentimentos por meio de técnicas de respiração, meditação e de um exercício chamado grounding. “Ele consiste em ficar na vertical, com os pés firmes no chão. Dessa forma, a energia vai se enraizando no solo, trazendo a pessoa para a realidade, para que ela se sinta presente, inteira, com suas dores e alegrias.” Com o tempo, espera-se que o paciente confie na sua própria força e possa lidar com suas dúvidas e incertezas.

Idas e vindas

Aos que não se identificam com as agruras desencadeadas pela baixa autoestima, é bom dizer que as certezas que trazemos dentro de nós não estão imunes aos solavancos da vida. Logo, quem confia no próprio taco pode, eventualmente, duvidar dessa capacidade. Nada mais natural. “Em face de crise e perda, emocional ou financeira, a pessoa pode ver sua autoconfiança abalada. Mas não chegará a se desestruturar. Uma hora mobilizará seus recursos internos e seguirá adiante”, garante Rosana.

Também é comum sermos resolutas em determinada área e um belo dia descobrirmos que não damos conta de alguma questão relacionada a um outro campo. “A pessoa é excelente profissional, mas começa a namorar e percebe que na vida afetiva vacila. Nesse caso, não basta ser autoconfiante em apenas um aspecto. É preciso desenvolver os demais com a ajuda de um terapeuta”, ressalta Zheca. Segundo ele, a virada acontece quando aprendemos a acolher nossas limitações com humildade. “Nada mais humano do que, ao sair da zona de conforto, sentir medo, voltar atrás na hora H, gaguejar em público. O problema acontece quando essas reações são recorrentes e desestabilizam o indivíduo”, destaca.

Nariz em pé

Se para alguns falta fé em si mesmo, para outros sobra. Tanto que esse sentimento chega a transbordar, afastando as pessoas ao redor. Ninguém suporta um ser que de tão autoconfiante se torna presunçoso e arrogante. “Esse tipo tem o peito estufado e olha as pessoas diretamente nos olhos”, descreve Liane. Mas, se esses sinais querem comunicar “sou o maioral”, as entrelinhas desmontam tal afirmação. “A presunção é um mecanismo de defesa que camufla a deficiência de algum aspecto. A insegurança exacerbada, nesse caso, se apresenta como o oposto: excesso de confiança”, analisa a terapeuta familiar Rosana Trindade. “Sob a capa da arrogância existe uma pessoa assustada e escondida. Quem se coloca nessa posição tem dificuldade de mudar, pois é preciso humildade para admitir as próprias fraquezas perante os outros”, completa Zheca.

Além de virar persona non grata, o petulante costuma perder a noção do perigo, o que é ainda mais preocupante. “O excesso de autoconfiança pode gerar acidentes automobilísticos, brigas no trânsito, perda de emprego. Tudo isso porque a pessoa não consegue medir riscos e respeitar limites. Ela acha que pode tudo”, alerta o psicólogo. Dá para concluir que há um desequilíbrio generalizado. Tal qual uma balança desajustada, ora pendemos para a apatia, ora para a vaidade excessiva. E nem de um lado, nem de outro, sentimos firmeza em nossas atitudes. “Hoje, o mundo pede que sejamos superconfiantes, que não demonstremos medo, nem angústia, muito menos fracasso. A verdade é que pagamos um preço altíssimo por isso”, diz Liane.

Ninguém precisa experimentar o lamento de perder oportunidades preciosas porque não se acha merecedor delas, muito menos se inflar de superioridade a ponto de nenhuma pessoa desejar mais a sua companhia. Andemos, então, no caminho do meio, onde o chão é confiável e nossas pernas suportam as ondulações do trajeto. Para tanto, há que se olhar mais de perto, sobretudo, com mais generosidade e menos exigências.

Esperamos que, ao seguirmos essa trilha, possamos adquirir uma confiança consistente e, ao mesmo tempo, consciente de que errar é humano. “O amadurecimento traz clareza, faz com que nos aproximemos das experiências, sejam boas ou ruins. Assim, quando tropeçarmos, estaremos tranquilos para levantar e seguir com a vida”, declara Zheca. Depois dessa injeção de ânimo, está pronta para ligar o motor e acreditar tanto na estrada como em quem está atrás do volante? Então, coloque o cinto de segurança e boa viagem!

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(terceiro passo) o exercício da generosidade
Doar-se ao próximo, nem que seja por meio de pequenos gestos, é uma espécie de terapia que nos põe em contato com nossa humanidade e ainda contribui para o equilíbrio da sociedade. Portanto, sempre que tiver uma chance, não deixe de praticar essa ginástica do bem.

O exercício da generosidade

Doar-se ao próximo, nem que seja por meio de pequenos gestos, é uma espécie de terapia que nos põe em contato com nossa humanidade e ainda contribui para o equilíbrio da sociedade. Portanto, sempre que tiver uma chance, não deixe de praticar essa ginástica do bem

Texto • Raphaela de Campos Melo

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Vivemos tempos narcisistas. Investimos no autoconhecimento, lapidamos o corpo, cuidamos da alimentação e do espírito. Queremos ser pessoas melhores, em todos os sentidos. Nada mais louvável. Porém, todo esse esforço cai por terra se não enxergarmos o outro, se formos incapazes de nos sensibilizar com os dramas e as necessidades alheias, e mais, se não nos dermos conta de que fazemos parte de uma rede que precisa da generosidade para não arrebentar.

Não é à toa que essa virtude é exaltada pelas mais diferentes religiões do planeta, despontando, inclusive, como um elo entre elas. “Nas mais antigas tradições, as práticas da solidariedade e do amor ao próximo não caminham separadas das práticas da justiça e da espiritualidade”, afirma o teólogo Rafael Rodrigues da Silva, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo ele, isso acontece porque o que está em jogo, em última análise, é o equilíbrio das relações em sociedade.

A psicoterapeuta familiar Mônica Genofre, professora do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo (ITFSP), concorda que essa força aglutinadora é imprescindível para a existência da coesão social. “Cuidar do outro é cuidar de nós mesmos, assim como cuidar do planeta é necessário para a sobrevivência. Trata-se de corresponsabilidade na construção de nossas relações e do mundo no qual desejamos viver.”

Ao longo da vida, ela explica, quanto mais experiências generosas presenciamos, mais natural é o ato altruísta. Isso porque essa ética se infiltra em nosso repertório, guiando escolhas e atitudes. Como desde cedo assimilamos lições por repetição, quanto mais exemplos desse tipo espalharmos por aí, melhor será para todos. “Quando pratico a generosidade, o outro pode aprender e praticar também. O efeito, então, se propaga e o entorno se fortalece”, enfatiza ela.

Mas não se trata apenas de zelar pela ordem coletiva e, no final do dia, dormir com a consciência limpa. Ser cordial e solidário com aqueles que estão à nossa volta é, acima de tudo, a expressão de um coração livre de qualquer interesse subjacente. Um exercício que nos torna mais humanos e, de quebra, neutraliza o individualismo que tende a nos afastar de nossos semelhantes. “Numa sociedade marcada por lógicas consumistas e utilitaristas, há o risco de a generosidade mascarar ações interesseiras. Mas não devemos nos abater pela desconfiança e deixar de praticar gestos bondosos. Se o foco está no amor e na generosidade em si, o que se ganha é mais generosidade e amor”, defende Rafael.

Pílulas de afeto

A psicologia é categórica no que se refere às relações interpessoais. Não há escapatória: o outro espelha nossa própria imagem. Afinal, compartilhamos a mesmíssima condição humana, ou seja, um complexo reservatório onde potencialidades e fraquezas coexistem. Portanto, quando deixamos de lado, por alguns momentos, nossos problemas, traumas, desejos e frustrações e nos mobilizamos para ajudar alguém, empreendemos uma viagem de volta à nossa própria essência. “Interessar-se genuinamente pelo outro possibilita encontrar caminhos para superar nossos próprios obstáculos”, avalia Mônica. “Doar possibilita realimentar, renovar nossas energias. Não será isso que nos move?”, indaga.

E pensar que deixamos escapar tantas oportunidades de praticar a generosidade por acreditarmos que ela se manifesta nos grandes atos de abnegação, dignos de Gandhi ou da Madre Teresa de Calcutá. “Isso é algo que se aprende e se constrói nas pequenas atitudes relacionais”, garante a psicoterapeuta, que não economiza nos exemplos. “Ser generoso é: respeitar o espaço de trabalho de um colega; dar atenção a um filho, apesar dos inúmeros afazeres; ceder numa negociação conjugal visando o entendimento mútuo.”

A família, nosso núcleo teoricamente mais próximo, é um bom ponto de partida para treinarmos e, com sorte, expandirmos nossa capacidade de doação. Acontece que, por estar tão perto de nós, esse círculo, muitas vezes, acaba sendo negligenciado. Achamos que certas delicadezas e cuidados não são necessários, já que os laços que nos unem são intrinsecamente fortes. Ledo engano. “Conviver em família não é tarefa fácil, embora às vezes pareça o contrário”, destaca a especialista. Se prestarmos atenção, veremos que o convívio pode ser aprimorado com pitadas de sensibilidade, tolerância e, claro, menos egoísmo.

Ao colocarmos os pés para fora do círculo doméstico, automaticamente adentramos outro núcleo que precisa igualmente de iniciativa e boa vontade: a comunidade. É nesse espaço governado pelo interesse comum que podemos ampliar o alcance de nossas ações. Mas, segundo o teólogo Rafael Rodrigues, todo grupo – social, religioso ou comunitário – deve perseguir um objetivo mais elevado: “A atuação concreta em projetos que promovam a vida humana”. Do contrário, ele afirma, o discurso bem-intencionado dessas agremiações torna-se vazio.

Outro exercício não menos importante é aprender a ser generosa consigo mesma. Afinal, o que adianta se esforçar para melhorar a vida alheia se você é incapaz de proferir uma palavra de incentivo diante do espelho ou de respeitar seus limites no dia a dia? “Precisamos ser mais observadoras de nós mesmas, prestando atenção ao corpo, cuidando da espiritualidade, nos exigindo na medida do possível, e não com base no que acreditamos que esperam de nós”, aconselha Mônica.

Conexão com o todo

Até aqui, consideramos a existência de um “eu” e de um “outro” interagindo no palco da vida. Logo, a generosidade aparece como uma ponte entre essas duas instâncias. No entanto, para o budismo, tal separação é ilusória. Segundo essa tradição religiosa, tudo o que existe está inexoravelmente interligado, ou seja, somos partes igualitárias de uma totalidade.

Essa concepção justifica o fato de a generosidade ser o primeiro dos paramitas – perfeições ou ações transcendentes que levam à iluminação. “Quando somos realmente compassivos, nos libertamos da persona individual, demarcada pelo ego, e nos fundimos com aquilo que chamamos de ‘outro’”, explica York Stillman, diretor do Centro de Meditação e Estudos Budistas Shambhala Brasil, de São Paulo. Essa entrega, ele garante, vem acompanhada de alegria incondicional e da sensação de que ser generoso não é uma escolha, mas um sentimento natural que flui e se expande. Nesse sentido, o altruísmo é um convite para alargarmos as fronteiras da consciência. “Podemos, por meio da compaixão e da solidariedade, desativar uma estreita visão de mundo, baseada em projeções e julgamentos, para ganharmos uma visão mágica e sagrada da realidade, para conhecermos a completa abertura da alma”, sugere.

No entanto, é sempre bom policiar os caprichos do ego. Só assim saberemos quando somos genuinamente altruístas ou quando queremos apenas nos sentir bem com nós mesmas. “Observando nossos padrões mentais, por meio da meditação, podemos evitar esse equívoco”, atesta Stillman. “Dessa maneira, não somos simplesmente levados pela vida e por falsas crenças. Conseguimos, ao contrário, identificar as ilusões e fazer escolhas com clareza”, acrescenta.

Benditos voluntários

Quando o assunto é voluntariado, não importa qual religião anima a fé de quem doa seu tempo e sua energia para uma causa que considera maior. Basta a vontade de ajudar o próximo. Quem exerce a generosidade por essa via garante que, em troca, colhe um bem enorme. Marcelo Boscoli Batista é um deles. Todas as quintas-feiras, às 18h, se junta aos colegas do Grupo da Sopa para preparar marmitas que, mais tarde, irão alimentar moradores de rua de São Paulo. O compromisso, ele afirma, é mais que uma escolha politicamente correta. “Simplesmente, não posso deixar de fazer, pois quero que o mundo seja um lugar melhor, quero o bem-estar das pessoas em geral e não só da minha família e dos meus amigos”, diz. Aproximar-se de uma realidade difícil de ser digerida, como a da miséria e do abandono, exige determinação. Mas Marcelo garante que a ação encabeçada pelo grupo traz satisfação para todos os envolvidos. “Os moradores de rua nos conhecem pelo nome, perguntam sobre nossa vida. Com o passar do tempo, cria-se um vínculo que é muito gratificante”, afirma.

Além do conforto gerado pelo prato de comida, conta ele, há ainda a oportunidade de ofertar aos atendidos favores pontuais, que, muitas vezes, acabam se revelando um bem valioso para quem está em situação de exclusão social. “Certa vez, um homem me pediu um sabonete. Queria desesperadamente tomar banho. Outro precisava de um passe de ônibus para se apresentar no emprego que havia conseguido”, lembra e comenta emocionado: “Diante de situações como essas, o foco do que é importante em nossa vida muda”. Por tudo isso, ele enfatiza, o voluntariado atua como uma reciclagem interior. “A preocupação com o outro contamina sua própria vida e você adquire novos valores. É, sem dúvida, um aprimoramento pessoal.”

Exemplos desse tipo despertam em nós o desejo de interferir positivamente na vida das pessoas, de fazer a diferença, deixar marcas que expressem carinho, atenção, preocupação. Que tal começar agora a colocar esse plano em prática? “Se pudermos estar no mundo com a consciência voltada para um ‘nós’, no lugar de ‘eu e os outros’, talvez o sentimento de solidão que acompanha tantas pessoas se dissipe e possamos contribuir para uma sociedade mais generosa e justa”, torce Mônica, assim como todas nós.

(quarto passo) o controle da ansiedade
Sofrer por antecipação, transformar a espera por algo ou por alguém em um martírio… Ninguém suporta viver sob o jugo dessa tirania que, além de nos oprimir, acaba com a saúde. Mas não se intimide. Você pode domar a fera.

Sofrer por antecipação, transformar a espera por algo ou por alguém em um martírio… Ninguém suporta viver sob o jugo dessa tirania que, além de nos oprimir, acaba com a saúde. Mas não se intimide. Você pode domar a fera.

Texto • Raphaela de Campos Mello

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Pernas inquietas, unhas roídas, respiração ofegante, coração acelerado, pensamentos beirando a velocidade da luz. Não há como negar. A ansiedade está instalada. Mas não se sinta envergonhada se, além de protagonizar ações desse tipo em seu dia a dia, ainda costuma abocanhar uma bela porção de doce na tentativa de acalmar os ânimos. Acredite, você não está sozinha. A ansiedade se tornou, sem exagero, uma epidemia dos tempos atuais, pautados por mudanças rápidas e múltiplas tarefas, em geral, ditadas pela pressa e por altos níveis de cobrança. Já que é tão difícil escapar das garras dessa invasora que tanto mal causa à saúde física e emocional, tratemos de desmascará-la. Sim, ela tem muitas faces. E é bom que saibamos identificá-las. Afinal, temos de conhecer as táticas do inimigo se quisermos derrotá-lo. “A ansiedade está ligada à mudança, o que gera insegurança, pois toda transição acarreta incertezas”, afirma Júlio Parreira, autor de Ansiedade Tem Cura (ed. 7 Letras). “O medo em relação ao futuro está na base da ansiedade, pois queremos planejar a vida, ter tudo sob controle, o que gera um estado de inquietação, muitas vezes, incontrolável”, corrobora a terapeuta floral Maria Alice Cavalcanti, professora do curso de Naturologia Aplicada da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul).

Se continuarmos retirando os disfarces dessa impostora, iremos encontrar uma série de nuances. “Ela pode ser ainda provocada por excesso de preocupação, por sempre focarmos o aspecto negativo das situações, por impaciência em relação aos processos da vida, que possuem ritmo próprio, por medo de se expor, caso dos tímidos e inseguros, e também por criarmos expectativas elevadas demais em relação aos nossos objetivos”, pondera Maria Alice.

Feito esse reconhecimento inicial, não é difícil concluir que o tal bicho de sete cabeças nada mais é que uma criatura forjada por nós mesmas, ou seja, pela maneira como respondemos às demandas do mundo e às nossas cobranças internas. Mas não estamos aqui para condenar sumariamente esse tipo de sentimento. Segundo os estudiosos da psiquê, ela é, em certa medida, benéfica ao ser humano. “Trata-se de uma resposta adaptativa do organismo frente ao menor sinal de perigo ou ameaça, real ou imaginária. Portanto, do ponto de vista evolutivo, ansiedades imediatas ou de curto período estão a serviço da sobrevivência dos indivíduos, sendo um mecanismo natural, necessário e vital”, afirma Karina Haddad Mussa, psicóloga e psicoterapeuta cognitivo comportamental, de São Paulo.

Turbilhão interno

Segundo Karina, os problemas começam a aparecer quando esse estado de alerta se prolonga indefinidamente. “A ansiedade crônica traz prejuízos silenciosos à saúde psíquica, podendo até resultar em problemas, como ataque de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, estresse agudo, entre outros”, revela a especialista. Mesmo que não atinjamos esse patamar de extremo desconforto, em geral, controlado por meio de medicação e da psicanálise, a ansiedade pode ter consequências devastadoras para o organismo. “Ela gera tensão, dores no corpo, sensação de vazio no estômago, coração batendo descompassado, aperto no tórax, aumento da transpiração, falta de ar e esgotamento”, alerta a especialista. Impossível sair incólume desse bombardeio.
A contabilidade dos danos causados por tamanha agitação inclui ainda entraves de ordem comportamental. “A ansiedade exacerbada acarreta baixa autoestima, insegurança, sensação de fracasso e até depressão. Sentimentos que abalam a autoconfiança, comprometendo, assim, a ‘performance’ na vida pessoal, social e profissional”, afirma Karina. Vale lembrar que, por não conseguir pensar claramente, os ansiosos também costumam tomar decisões precipitadas, além de se colocarem em reais situações de perigo. “Quem não está presente no aqui e agora está sujeito a acidentes”, aponta Maria Alice.

A essa altura, você deve estar se remexendo na poltrona ao questionar se o nervosismo que sente em determinadas situações está dentro dos níveis considerados saudáveis ou tornou-se uma Bons Fluidos 10 anos patologia. Muita calma nessa hora. “Quando a ansiedade gera motivação, apesar de deixar a pessoa nervosa, levando- a à ação e fazendo com que enxergue o lado positivo daquele desafio que a desestabiliza momentaneamente, o quadro é favorável. Agora, se a perturbação paralisa o indivíduo, impedindo- o de concretizar tanto tarefas cotidianas quanto projetos de vida, ela é destrutiva”, avalia Júlio Parreira.

Claro que nem todos reagem da mesma maneira às imposições da vida. Há perfis mais suscetíveis à ansiedade do que outros. Portanto, veja se você integra o “grupo de risco”. “Pessoas perfeccionistas ou exigentes em demasia, em relação a si e aos outros, tendem a sofrer desse mal. Enquanto as otimistas são menos ansiosas”, afirma Júlio. Já Karina adiciona a essa lista outros três perfis. “Indivíduos competitivos, com baixa resistência à frustração ou desorganizados, sobretudo os que não sabem administrar o tempo, costumam ser alvo fácil da ansiedade.” No entanto, ressalta a psicóloga, para uma avaliação mais assertiva, é preciso levar em conta, além do temperamento, o ambiente em que a pessoa vive, sua história de vida e os componentes genéticos.

Calmaria à vista

A tarefa crucial para recuperar o equilíbrio é aprender a lidar com a desordem interna que tantas vezes toma conta da gente. Acredite, você pode domar a fera. Para começar a inverter esse jogo, recomendam os profissionais, é preciso admitir para si mesma que suas reações passaram dos limites. Depois, prestar atenção às situações que geram inquietação e descontrole para, então, encontrar caminhos de cura que se afinem ao seu jeito próprio de ser.

Nesse contexto, técnicas de ioga, meditação e relaxamento podem ser de grande valia. “A meditação orienta a experiência do momento presente, aumenta o estado de alerta e atenção plena e ainda facilita o contato consigo mesma, trazendo a sensação reconfortante de segurança, paz e serenidade”, avalia Karina. Mas nada de esperar resultados imediatos. Segure a impaciência. “Ao iniciar essas atividades, é importante criar o hábito, para que o corpo aprenda a se comportar de forma mais serena diante das inúmeras situações cotidianas que nos afetam”, ressalta Maria Alice. A respiração, ela lembra, é um antídoto ao alcance de todas nós e um bom ponto de partida. “Quando inspiramos e expiramos profundamente, por alguns minutos, os pensamentos vão automaticamente se acalmando.”

Júlio Parreira, por sua vez, nos lembra de adicionar à rotina programas prazerosos e restauradores. “O tempo qualitativo é aquele dedicado a atividades criativas e relaxantes, capazes de reduzir os níveis de ansiedade”, afirma ele, amparando-se na teoria de que a combinação de corpo cansado e espírito alimentado nos protege da turbulência interior. Em termos comportamentais, aponta Karina, devemos nos esforçar para “reprogramar” a mente, de maneira que novas atitudes possam emergir. “É fundamental repensar a vida e hierarquizar o que realmente tem valor por ordem de prioridade”, aconselha Karina.

No caso da ansiedade atrelada à enxurrada de pensamentos catastróficos e interpretações irreais a respeito de si, dos outros e do futuro, recomenda-se uma técnica específica. “Observe seus pensamentos e, se lhe parecerem excessivamente distorcidos, anote-os e procure uma interpretação mais realista da situação, através de um diálogo interno”, ensina Karina. Esse exercício, batizado de reestruturação cognitiva, é peça- chave da terapia cognitivo-comportamental e, portanto, pode gerar resultados mais efetivos sob a orientação de um profissional da área.

Santos florais

Um recurso bastante utilizado em caso de ansiedade são os Florais de Bach, sistema composto de 38 essências – extratos líquidos naturais de flores, plantas e arbustos, criados pelo médico inglês Edward Bach (1886-1936), com o objetivo de resgatar o equilíbrio interior. Para ele, as doenças nascem do conflito entre a alma, ou o Eu Superior, e a personalidade de cada um. Portanto, se ambos estiverem em harmonia, o bem-estar prevalecerá. “As essências atuam sobre os estados mentais e emocionais que estão em desequilíbrio, neutralizando os aspectos negativos de determinado sentimento e fazendo com que seu oposto positivo se manifeste”, explica Maria Alice.

Cada essência mira um problema específico. No quesito ansiedade, ressalta a especialista, é preciso identificar com exatidão a nuance do distúrbio para só então prescrever o tratamento correspondente. Por exemplo, a essência White Chestnut acalma os pensamentos, a Aspen atua sobre o medo indefinido, a Impatiens aplaca a impaciência, enquanto a Beech ameniza a intolerância e a Rock Water, o perfeccionismo.

Além dos 38 compostos que integram o sistema de Bach, há um preparado que se diferencia dos demais por não ser uma essência de tratamento, e sim um harmonizador, usado em situações de emergência. Daí o nome Rescue Remedy, em português, remédio de resgate. “Ele ajuda a pessoa a recuperar o equilíbrio em face de um evento desafiador”, justifica Maria Alice.

Mas não pense que os florais podem ser empregados sem o acompanhamento de um profissional especializado. Muito mais do que resolver um desconforto isolado, essa terapia promove a cura por meio do autoconhecimento. “Não mudamos a personalidade de ninguém, apenas modulamos os aspectos extremados. Mas, antes, a pessoa precisa tomar consciência dos padrões que a fazem sofrer e, depois, querer trabalhá-los”, ressalta ela.

Em geral, quem inicia o tratamento focalizando um único alvo acaba se surpreendendo com o alcance do processo. “A terapia floral se assemelha ao ato de descascar uma cebola. Começamos pelas camadas conscientes. No entanto, outras questões, até então adormecidas, vão emergindo e levando o indivíduo a se conhecer mais profundamente”, compara a terapeuta. Logo, quem antes vivia sob o jugo da ansiedade, lá na frente, perde o medo de ser devorado por ela. “A pessoa passa a acreditar que vai dar conta do que vier, pois aprende a confiar em seus recursos internos.” Quem atinge esse patamar avista lá embaixo o monstro outrora assustador. Agora, uma formiguinha, minúscula e inofensiva.

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(quinto passo) a arte de priorizar desafios
O segredo é se preparar para vencer as águas revoltas e seguir fortalecida rumo à concretização do seu projeto de vida.

A arte de priorizar desafios

“Mar calmo não forma bom marinheiro”, diz o ditado popular. Simples e poderosa, essa frase nos encoraja a buscar nosso melhor, o que implica correr riscos e tomar decisões delicadas. O segredo é se preparar para vencer as águas revoltas e seguir fortalecida rumo à concretização do seu projeto de vida.

Texto • Raphaela de Campos Mello

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Mudar de país, ter um filho, abrir o próprio negócio, adotar um novo estilo de vida, despertar uma aptidão adormecida. Quando estamos diante dessas portas, não seremos mais as mesmas uma vez que as atravessarmos. É por isso que, ao mirarmos as respectivas maçanetas, somos assaltadas por um duelo de emoções. Enquanto o frio na barriga denuncia uma pitada de insegurança, o coração acelerado confirma a atração pelo desconhecido. Nada mais natural. O importante é saber que desbravar novos domínios vale cada centavo. Afinal, não estamos aqui justamente para expandir nossas capacidades?

“Não existe vida sem desafios”, afirma Claudia Carraro, psicóloga e especialista em orientação profissional e de carreira pelo instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. De fato, uma rápida inspeção no trajeto que nos trouxe até o presente momento revela uma série de situações desafiadoras que tivemos de superar: abandonar as fraldas, aprender a andar, enfrentar as provocações dos colegas de escola, a primeira decepção amorosa, o vestibular, a competição do mercado de trabalho, casamento, filhos… Essa lista vai longe.

Pois é, “a vida não para”, como diz a canção Paciência, do cantor e compositor pernambucano Lenine. Quem compreende essa dinâmica perpétua corre para o ataque, ao invés de se encolher como um animal assustado. “Ao enfrentar desafios, descobrimos nossa força interior. Dessa forma, adquirimos a autoconfiança e autoestima necessárias para nos mantermos equilibrados e aquecidos para seguir em frente”, afirma a psicóloga paulista Bel Cesar, que atua sob a perspectiva do budismo tibetano. Por isso, mesmo que a empreitada pareça ameaçadora à primeira vista, siga em frente. Acredite, os frutos que aguardam você compensarão todos os esforços. Mas atenção. Tão importante quanto passar nos testes da vida é assimilar o aprendizado de cada prova. Assim, não teremos de repetir a dose. “Uma vez que aprendemos a lidar com uma situação, não precisamos buscar outras semelhantes para reafirmar a nós mesmas quanta força temos. Podemos, então, buscar novos desafios, dar um passo à frente”, constata Bel.

Cuidado com o boicote

Mesmo compreendendo racionalmente a importância de dar grandes saltos, muitas vezes travamos ao deixar que uma voz pessimista assopre em nossos ouvidos: “Isso é muito difícil, não vai dar certo, não é para você”. Se essa torcida adversária se pronunciar, simplesmente, não dê trela. É apenas sua mente tentando convencê-la a não sair do lugar. “Os desafios são saudáveis e necessários, no entanto, o ser humano tem a tendência a permanecer na zona de conforto, um local seguro e agradável, porque conhecido”, avalia o gestor e consultor chinês radicado no Brasil Wang Chi Hsin, autor de Sucesso É… Superar Encrencas! (ed. Gente).

De acordo com o budismo, posturas resistentes à mudança refletem um condicionamento mental negativo. “Em geral, nos identificamos mais com os problemas do que com as soluções”, aponta Bel. Felizmente, essa percepção não é a dona da razão e, o melhor, se dissolve em face de posturas assertivas. “Certa vez, presenciei o mestre tibetano Lama Gangchen Rinpoche dizer a uma pessoa extremamente frágil: ‘Diga à sua mente: Eu já te conheço, eu sei aonde você me leva. E eu não quero ir para lá. Por isso, não vou te seguir’.”

Depois dessa dispensa elegante, porém firme, seguimos fortalecidas e confiantes. Isso acontece, segundo Bel, porque passamos a valorizar nossos recursos ao invés de nos deixarmos abater por nossos impedimentos. “A autossabotagem acontece quando não nos consideramos merecedores de nossos projetos de vida e, portanto, apesar de nos esforçarmos, criamos algumas barreiras para realizá-los”, completa.

Já Wang Chi Hsin acredita que nossos anseios tendem a falar mais alto, sufocando qualquer oposição, interna ou externa. “O desejo de realizar coisas, de ajudar outras pessoas, enfim, de empreender, mais cedo ou mais tarde, irá gerar inquietação ou até mesmo crise e turbulência. Assim, teremos motivação para agir.” Mas será que precisamos conhecer o sofrimento de perto para só então avançar mais um passo na vida? De acordo com o budismo, o ser humano, na maioria das vezes, precisa sofrer para almejar algo melhor. “Em geral, só quando o sofrimento se torna insuportável é que decidimos buscar soluções que nos ajudem a superá-lo”, afirma Bel. Nada contra o conforto. Ele é bom, quem há de negar. No entanto, pode atuar como uma defesa, uma forma de não entrarmos em contato com nossas próprias angústias. Grandes professoras, elas, sim, têm muito a nos ensinar. “Temos de conhecer nossos desconfortos, como medo, ansiedade, nervosismo e preocupação, pois eles tanto revelam nossas falsas percepções como nos dão a possibilidade de não segui-las”, enfatiza a psicóloga budista.

Nesse sentido, se acomodar definitivamente não é a melhor opção. Isso não significa abrir mão do descanso ou não se permitir saborear uma conquista. Preocupante é permanecer mais tempo do que deveríamos num lugar ou situação que há muito não nos oferece oportunidade de crescimento. “Primeiro, porque não solucionamos o desconforto do sofrimento; segundo, porque, de um modo ou de outro, temos sempre de seguir em frente, e então é melhor não acumular frustrações, e sim superá-las”, ressalta Bel. De toda maneira, ela avisa, mesmo que estejamos aninhadas, a própria vida se encarregará de nos desalojar, para o nosso próprio bem. “Se não buscamos novos desafios, eles chegam até nós.”

Plano de ação

Sair do marco zero e iniciar um projeto é, sem dúvida, um grande feito. O passo seguinte é continuar em frente sem desanimar. Para tanto, os especialistas apontam dois fatores decisivos: ter clareza dos objetivos e flexibilidade para lidar com os imprevistos. “Os ventos mudam de direção e quem ficar contra eles naufragará”, compara Wang. Perseverar também se torna mais fácil quando encaramos as pedras no caminho como presentes dos deuses ao invés de praguejarmos a cada topada. “Para Lama Gangchen Rinpoche, os primeiros obstáculos são bênçãos, pois nos dão a chance de criar uma base sólida. Se, no início de um projeto, tudo correr bem e só mais tarde surgirem os entraves, pensaremos: ‘sabia que não ia dar certo, estava bom demais para ser verdade’. Assim, desistimos por não termos uma boa estrutura que sustente as dificuldades”, comenta Bel.

Quando o desafio diz respeito ao mundo do trabalho, o planejamento faz toda a diferença. Reinventar-se profissionalmente envolve um alto investimento emocional e financeiro. Afinal, quanto tempo, suor e lágrimas dedicamos ao nosso aprimoramento ao longo da vida? Portanto, quanto melhor nos prepararmos para a reviravolta, maiores são as chances de êxito. “Não dá para simplesmente pedir demissão e ir atrás de outro emprego, é preciso explorar as possibilidades e se conhecer para distinguir a melhor opção, bem como suas consequências”, avalia a psicóloga Claudia Carraro. “Com isso, a pessoa tem mais segurança para sustentar a mudança”, acrescenta ela. Ter em mãos uma planilha pode ser uma medida extrema para quem não é organizada. No entanto, esse tipo de recurso é indispensável, segundo os orientadores de carreira. “Para não perder o foco é preciso traçar um esquema de ação com data para a realização das tarefas, bem como a antecipação dos possíveis problemas e as maneiras de superá-los”, recomenda a especialista. Encare esse controle como um plano de voo. Mas esteja aberta a possíveis ajustes. “Quando não dá resultado, é preciso reavaliar o processo e fazer mudanças estratégicas, mas sem se desviar do propósito original.” Aos navegantes mais exigentes, um recado importante: diminuir a marcha para repensar a trajetória não significa se acomodar. “Acomodação é desistir antes mesmo de tentar”, dispara Claudia.

Sem pressa

Esqueça a rapidez com que você navega pela internet ou prepara uma refeição. Se está disposta a abraçar um desafio, é melhor frear o imediatismo. Do contrário, dificilmente seu projeto sairá do papel. “Mudanças planejadas e com qualidade requerem investimento de tempo e persistência”, aponta Claudia. Tampouco a arrancada precisa ser acompanhada de ansiedade e nervosismo. O ideal é estarmos centradas antes mesmo de iniciarmos a batalha. O tai chi chuan, arte marcial milenar chinesa, é uma excelente atividade, pois prepara a pessoa física e emocionalmente para lidar com as oscilações da vida. “A prática, que abrange tanto treino físico quanto conteúdo filosófico, faz com que o indivíduo adquira fortaleza corporal, estabilidade emocional e clareza mental”, afirma Maria Ângela Soci, diretora da Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan, em São Paulo.

De acordo com ela, a base filosófica da modalidade ampara-se no confucionismo, doutrina de cunho social que nos ensina a nos relacionar com nossos pares; no taoísmo, vertente que prega a conexão com a natureza e o respeito aos nossos ciclos internos; e no budismo, tradição ancorada no entendimento da mente. Em termos corporais, a movimentação contínua e suave, sempre aliada à respiração, fortalece o sistema imunológico, desenvolve a flexibilidade, desbloqueia os canais energéticos, permitindo que a energia vital circule, e ainda induz à plena observação de si mesmo e do entorno.

“Vivemos em meio a conflitos. O desafio é nos mantermos receptivas, sem nos descontrolar e sem perder a saúde”, propõe Maria Ângela. Uma vez nos eixos, somos capazes de tomar decisões certeiras. “Quando discernimos sobre nossos estados emocionais, sabemos qual a forma mais eficiente de agir diante dos fatos desafiadores”, declara. É por isso que, na China, o espetáculo toma praças e parques. A céu aberto, todos podem se maravilhar com a arte milenar dos guerreiros de corpo forte, mente calma e coração apaziguado. Como eles, podemos aprender a vencer os desafios. Afinal, se eles aparecem para nos tornar pessoas melhores, são dignos do bom combate, não é mesmo?

(sexto passo) a arte de ser resiliente
Ao longo da vida, caímos, levantamos, sofremos alguns arranhões. Outras vezes, ferimentos profundos. Nos momentos difíceis, o importante é encontrar maneiras de lidar com a dor e acreditar, sempre, que um dia nossas feridas irão cicatrizar, tornando-se símbolos de superação.

A arte de ser resiliente

Ao longo da vida, caímos, levantamos, sofremos alguns arranhões. Outras vezes, ferimentos profundos. Nos momentos difíceis, o importante é encontrar maneiras de lidar com a dor e acreditar, sempre, que um dia nossas feridas irão cicatrizar, tornando-se símbolos de superação.

Texto • Raphaela de Campos Mello | Foto: istockphoto

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Se você ainda não conhece Preciosa, vá correndo até a locadora de filmes mais próxima. A adolescente, protagonista do longa-metragem homônimo, é um exemplo a ser seguido. Nada contra a maré da vida: é pobre, obesa, maltratada pela mãe, abusada pelo padrasto, e, como era de se esperar, enfrenta sérias dificuldades de aprendizado na escola. Sem falar nos outros problemas que atravessam seu caminho mais adiante. No entanto, a personagem carrega um tesouro dentro de si. Ela é resiliente. Apesar dos pesares – e, talvez, graças a eles –, não desiste de buscar o melhor, de se superar a cada dia.

O termo resiliência migrou do mundo da Física para a seara comportamental. Originalmente, denota a capacidade de um corpo de se deformar por obra de agentes externos e, depois, recuperar a forma natural. Da mesma maneira, ao longo da jornada humana na Terra, inúmeras vezes somos atingidos e, quase sempre, feridos pelos embates cotidianos. Alguns são gravíssimos. Outros, nem tanto.

Em contrapartida, nos momentos adversos, vemos desabrochar do interior de algumas pessoas um impulso vital que permite a elas sobreviver a toda sorte de dor: luto, abandono, negligência, violência. Essa força, chamada de resiliência, faz com que não desistamos da luta, até o milagroso momento em que somos transformados por ela.

“O papel da resiliência é desenvolver a capacidade humana de enfrentar, vencer e sair fortalecido de situações adversas”, atesta a psicóloga norteamericana Edith Henderson Grotberg (1918-2008), pioneira nos estudos sobre o tema e autora de Resilience for Today: Gaining Strenght from Adversity (ainda sem tradução em português). Débora Dalbosco Dell’Aglio, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Adolescência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NEPA/UFRGS) e coautora do livro Resiliência e Psicologia Positiva: Interfaces do Risco à Proteção (ed. Casa do Psicólogo), trabalha com jovens em situação de risco pessoal e social – vítimas de abuso sexual que moram em abrigos e menores infratores que cumprem medidas socioeducativas. Sendo assim, testemunha diariamente a tragédia, bem como o que vem depois dela. “É como um barco atingido pela tempestade em alto-mar, mas que continua navegando, apesar das velas rasgadas e do casco deteriorado”, compara a psicóloga gaúcha.

União de forças

Com base nessa vivência, ela afirma: mais do que uma capacidade individual, a resiliência é um processo que se ativa dentro de nós de acordo com as necessidades impostas pela vida. Todos dispomos dessa ferramenta. No entanto, ela costuma ser favorecida ou não pela somatória de fatores e características pessoais e ambientais. “Se o indivíduo possui tendência a ser otimista, boa autoestima e conta com uma rede de apoio, o processo de recuperação será mais fácil. Já para aqueles mais fechados, com dificuldade de falar sobre os próprios sentimentos e desprovidos de amigos e familiares, a caminhada será mais penosa”, ela destaca.

A psicóloga chilena Francisca Infante também ressalta a importância de entendermos a resiliência como um processo dinâmico, fruto da interrelação de diversos fatores, ao invés de uma qualidade restrita a alguns privilegiados. “O indivíduo está imerso num contexto determinado por diferentes níveis: o individual, o familiar, o comunitário e o cultural”, ela aponta no livro Resiliência: Descobrindo as Próprias Fortalezas (ed. Artmed). Outros dois componentes devem ser adicionados a esse panorama, segundo Daniel H. Rodriguez, psiquiatra e psicanalista argentino, colaborador da mesma obra. “É importante reservar dentro da definição de resiliência um lugar para a criatividade e a surpresa”, ele escreve, se referindo ao imponderável, àquela chama interior que acende nas horas difíceis, nos surpreendendo com soluções e respostas nunca antes cogitadas.

Na prática, a depuração de todas essas influências irá determinar o ângulo através do qual enxergamos uma situação ruim, bem como o tipo de reação esboçada após o choque. “Muitos daqueles que perderam suas casas em enchentes conseguiram, apesar de tudo, se sensibilizar com os desdobramentos positivos da desgraça, como, por exemplo, a manifestação da solidariedade alheia, a formação de novos amigos. Essa perspectiva atua como uma base de sustentação nessa hora devastadora”, revela Débora. No caso específico da juventude em situação de vulnerabilidade, a criação de elos amorosos é fundamental para o enfrentamento dos obstáculos. “Quando conseguem estabelecer vínculos afetivos com monitores ou colegas, eles lidam melhor com os infortúnios”, pontua a estudiosa.

De fato, sem afeto, ninguém chega longe, nem mesmo uma flor. Essa máxima vale para todo ser vivo, em qualquer parte do planeta. “Às vezes, vemos famílias em boa situação financeira, mas desprovidas de amparo emocional mútuo. Isso dificulta a superação dos entraves que surgirem”, completa.

Adeus ao trauma
Cercar-se de ombros largos ajuda e muito a aliviar a dor provocada por uma perda, decepção ou fatalidade. Da mesma forma, falar sobre o que passou e, acima de tudo, sobre os estilhaços emocionais que insistem em nos desestabilizar, de preferência para um terapeuta, é crucial se quisermos elaborar o ocorrido e seguir adiante. Dessa maneira, por mais difícil que seja, temos de acionar a coragem e, com a sua ajuda, recontar em detalhes a história que tanto nos machucou. “Nos momentos seguintes ao trauma, o indivíduo se sente bastante perdido, pois sua memória emocional e sensorial está dispersa, fragmentada.

O objetivo da terapia é, inicialmente, ajudá-lo a estruturar sua narrativa”, explica Julio Peres, psicólogo clínico e doutor em neurociências e comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), autor do livro Trauma e Superação (ed. Roca). Com as ideias em ordem e um considerável distanciamento dos fatos, vem o próximo passo. “Assim que a emoção se arrefece, o paciente racionaliza o episódio doloroso e, o mais importante, extrai lições dessa experiência”, acrescenta ele. Nesse estágio, conseguimos encontrar o ouro até então escondido sob a lama: a capacidade de superação e, eventualmente, a colheita de aspectos proveitosos de uma situação a priori negativa. Por exemplo, o término de um relacionamento amoroso, em geral, motivo de grande pesar, pode ser o desabrochar de uma nova relação com nós mesmas, sobretudo se soubermos cultivar a autoestima e a autonomia emocional. “Depois do processo terapêutico, as marcas do sofrimento vivido se tornam símbolos de aprendizado e da qualidade de vida conquistada”, enaltece Julio. Mas, para alcançar esse patamar, ele frisa, não há escapatória: “É preciso entrar em contato com os eventos desagradáveis, buscando formar alianças com eles. Sem pressa”.

Um dado surpreendente. Não só os acontecimentos avassaladores são capazes de nos lançar numa fase sombria. De acordo com Julio, ocorrências menos graves, porém, igualmente destrutivas, também são consideradas traumáticas. Por isso, são chamadas de microtraumas. “Esses eventos deixam resíduos que vão se acumulando com o passar do tempo, prejudicando a qualidade de vida”, afirma o especialista. Portanto, cuidado ao minimizar o potencial desastroso de certos hábitos e padrões de comportamento, tais como ansiedade fora de controle, sensação de solidão, compulsão por comida, compras ou jogo. Uma série de desajustes que, segundo Julio, mascaram a perda do sentido da vida. “Esses tipos de trauma, muitas vezes, chacoalham o indivíduo até então inserido numa rotina árida de significados, fazendo com que reavalie seus próprios valores e necessidades essenciais”, aponta ele. Eis aí o velho ditado popular em ação: “Há males que vêm para bem”.

Um bálsamo que nos instiga a compreender que o sofrimento, em geral, também carrega a semente de uma etapa nova. Com essa visão fértil em mente, fica mais fácil abandonar a postura de relutância em face das contrariedades, o que só exalta o infortúnio que desejamos ultrapassar.

Renascendo das cinzas

Ampliar a percepção de quem sofre, mostrando caminhos e recursos concretos, é o que move os especialistas que lidam com as dores da alma. Portanto, uma maneira de fortalecer a pessoa perante o sofrimento é resgatando a chamada memória de autoeficácia. “Quando alguém está fragilizado, tende a desprezar uma série de eventos do passado em que venceu adversidades. Ao revisitar essas vitórias, passa a acreditar que também será capaz de superar o que o aflige hoje”, atesta Julio. Segundo ele, nas horas mais difíceis, ainda é fundamental enxergarmos além dos fatos, ou seja, lançarmos sobre a vida um olhar transcendente. Habilidade adquirida por meio do desenvolvimento da espiritualidade.

“Pesquisas mostram que pessoas que fazem orações regulares, frequentam algum templo, igreja ou centro, participam de dinâmicas de grupo, mesmo que esporadicamente, superam os traumas com mais facilidade.” Não é difícil entender o porquê. Ao nos conectarmos com uma dimensão superior, infinitamente mais poderosa e sábia do que nós, mortais, encontramos, além de conforto e consolo, entendimento e paz de espírito. “Essa relação nos fornece elementos para lidar com situações em que estamos face a face com os limites humanos, principalmente com o desamparo e a perda do controle”, afirma Julio.

Acionar as antenas e captar influências benéficas de pais, familiares, professores, mestres espirituais, amigos, livros e filmes também ajuda a impulsionar a virada. Portanto, da próxima vez que se sentir desarmada diante de um baque inesperado, lembre-sede que o fortalecimento interior é um aprendizado constante, como mostram os incontáveis exemplos de superação extraídos da realidade e da ficção. Histórias tocantes que reforçam nossa fé no poder de regeneração da alma. “Com o desenrolar do processo terapêutico, a impotência dá lugar à descoberta da força interior e dos recursos pessoais de que dispomos para superar não só o que passou, mas o que está por vir”, ressalta Julio. Se é assim, vivamos todas de peito aberto. De preferência, sem jamais perder de vista o horizonte à nossa frente.

(sétimo passo) santa paciência
Sem ela, não conseguimos enxergar os outros, o entorno e nós mesmas com clareza e profundidade. Tampouco esperamos o tempo preciso de colher os frutos de nossas investidas. Portanto, não permita que a aceleração do mundo mine sua capacidade de ser paciente.

Santa paciência

Sem ela, não conseguimos enxergar os outros, o entorno e nós mesmas com clareza e profundidade. Tampouco esperamos o tempo preciso de colher os frutos de nossas investidas. Portanto, não permita que a aceleração do mundo mine sua capacidade de ser paciente.

Texto • Raphaela de Campos Mello | Ilustrações • Luciana Giammarino

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Há milênios, a literatura fabricou uma cena impensável nestes tempos de hiperconexão. Todos os dias, a jovem Penélope fiava um manto, o mesmo que desfazia durante a noite. Ao raiar do Sol, retomava a tessitura para mais tarde desmanchá-la. No épico grego Odisseia, de Homero, a donzela realiza esse trabalho por 20 anos, determinada, desde o primeiro movimento, a esperar seu amado Ulisses regressar da Guerra de Troia. Enquanto a heroína nos mostra o valor da persistência, nós, seres plugados na modernidade do século 21, estouramos porque a conexão da internet está lenta, o caixa eletrônico não avança na velocidade que gostaríamos, a fila do supermercado quase não anda e a tão sonhada promoção no trabalho demora a chegar.

“O mundo exige cada vez mais competência e rapidez. E, se falharmos, sabemos que seremos substituídos sem demora. Esse cenário gera estresse, irritação e impaciência”, opina a professora de ioga e terapeuta floral Gisele Herzeg, de Campinas, interior de São Paulo. De tão cobrados passamos a esperar que tudo se comporte da mesma maneira, ou seja, de forma impecável. Desastre na certa.

Não conseguimos encerrar o dia sem demonstrar, pelo menos uma vez, irritação perante situações que contrariam nossa ânsia por eficiência. Alguns bufam. Outros, em estágios mais avançados de intolerância, protagonizam ataques teatrais. Como não ser contaminada pelo clima de histeria? O pior é que a onda nervosa se alastra, na maioria das vezes, por motivos banais. “Em meio a esse turbilhão, não olhamos para dentro de nós para descobrir o que realmente nos deixa feliz”, constata Gisele.

A sensação de que falta espaço na agenda para o lazer, os amigos, a família ou mesmo para realizarmos nossas tarefas com mais apuro se converte, cedo ou tarde, num veneno para a alma. Segundo M. J. Ryan, autora de O Poder da Paciência (ed. Sextante), essa opressão pode nos tornar pessoas grosseiras e mal-humoradas, além de comprometer aquilo que tanto prezamos hoje em dia: o desempenho. “O hábito de nos amedrontarmos com a ideia de não termos tempo diminui expressivamente nossa eficiência e a capacidade de atuação. Na verdade, quanto mais conseguimos nos manter tranquilos quando estamos sob pressão, mais capacidade temos de agir, porque usamos a parte racional da nossa mente para nos ajudar”, ela escreve.

Viver em grandes cidades, distantes da natureza, é outro fator que leva à inquietação generalizada, na visão de Gisele Herzeg. “A natureza nos mostra que tudo é cíclico, que existem coisas boas e ruins, bem como a hora certa para o fruto amadurecer.” Ora, se podemos ir ao supermercado e encontrar determinado alimento durante o ano inteiro, graças à tecnologia agrícola, transferimos o mesmo raciocínio para a vida – domínio do imponderável, onde não há método ou mágica que nos satisfaça integralmente. “Deixamos de aprender profundas lições com a natureza. Logo, ao menor sinal de que exista um lado negativo, ficamos transtornados”, observa ela.

Qualquer semelhança com o comportamento de crianças mimadas não é mera coincidência. “Perdemos a paciência porque não aceitamos os fatos como são. Queremos, e até exigimos, inconscientemente, que sejam como nós planejamos. Ora, isso é uma ilusão”, aponta o psicólogo paulista Milton Paulo de Lacerda, autor de Paciência: Ter ou Não Ter? (ed. Vozes). O especialista conclui: “O imediatismo é próprio da personalidade imatura, incapaz de identificar as verdadeiras dimensões da realidade”.

Para Eleonora de Almua Perez, terapeuta transpessoal especializada em tecelagem terapêutica, radicada em Pedra Bela, interior de São Paulo, o destempero camufla a rigidez interna e a crença de que só seremos felizes em um molde, apertado por sinal. Nesse caso, apelar para a alternativa B é o mesmo que fracassar. “Toda pessoa impaciente é controlado ra e quer reger a si própria, o outro e o mundo. Na verdade, o controle é o caminho mais curto para a frustração”, define ela.

É por isso que, diante de um desafio ou aprendizado, os impacientes costumam desistir na primeira dificuldade. Não conhecem o terreno e, portanto, não sabem para onde aquele caminho vai levá-los. Mais fácil abandonar o barco do que sustentar a incerteza. Na visão de Eleonora, desapegar do controle é mais que uma prova de paciência. É um gesto de entrega. “Ausentar-se do comando pressupõe acreditar que respostas e ideias surgem quando menos esperamos”, diz ela.

Lição de casa
Se você não consegue se controlar quando tudo foge do planejado ou, então, diante da lentidão alheia, a ponto de invejar secretamente a calma daquela amiga “zen”, não desista. Você pode e deve tomar lições de perseverança. Como qualquer outra virtude, ela pode ser conquistada, garantem os especialistas. Até porque é fundamental tanto para o nosso próprio equilíbrio quanto para a harmonia das relações interpessoais. “A palavra virtude vem do latim e significa esforço, empenho, coragem. Portanto, a paciência é fruto do trabalho de autoeducação, do aprimoramento de nossa personalidade. Muitas vezes, um trabalho para toda a vida”, afirma Milton. “Só a teremos em situações maiores se a tivermos treinado nas coisas pequenas”, ele completa.

Sinta-se à vontade para começar a mudar agora mesmo. A primeira lição não poderia ser mais simples: inspirar e expirar. “Ao transformarmos a maneira como respiramos, por meio dos pranayamas – exercícios respiratórios –, alteramos padrões de pensamento e comportamento”, assegura Gisele. A fórmula é poderosa. Bastam três repetições para aplacar uma reação potencialmente explosiva. “Trata-se de uma prática diária que, além de acalmar, aumenta a autoconsciência. Assim, conforme o corpo vai se equilibrando, a paciência vai aflorando”, afirma a professora de ioga.

É claro que, dependendo do grau de irritação, pessoas pacatas e inofensivas podem se tornar desagradáveis e até violentas. Apenas respirar ou caminhar pode não ser suficiente para conter a avalanche de sentimentos irracionais. Ninguém está livre disso. Nessas horas, o melhor a fazer é tentar extravasar a cólera. Chore, grite se sentir vontade. De preferência, poupando quem não tem nada a ver com a história. “Comparo a agressividade cega a uma locomotiva fora dos trilhos, causadora de enormes estragos”, diz Milton. Um alerta importante: antes de conquistar a tão sonhada paz de espírito, será preciso treinar a persistência.

Desde cedo, somos condicionados a produzir, agir, realizar. Nossa mente está acostumada a ficar ligada. Na hora de parar, fechar os olhos e respirar, adivinhe. Ela irá testar justamente nossa resignação. “A mente manda estímulos como coceira, tosse, bocejo. Tudo para que a pessoa não pare, não relaxe. É preciso ignorar o incômodo se quisermos mudar o nosso padrão mental”, frisa a professora. Eis outro exercício especialmente indicado para aqueles dias em que estamos prestes a estrangular alguém – em geral, uma vítima desavisada. Tranque sua porção intransigente em casa e saia para dar uma volta. Leve consigo apenas um nobre objetivo: admirar a beleza do mundo. “A beleza é um bem digno de ser buscado por si mesmo.

Transforma a pessoa que se deixa possuir por ela”, escreve Paul Gilbert, filósofo e professor de metafísica na Universidade Gregoriana de Roma, autor de A Paciência de Ser (ed. Loyola). Segundo o estudioso, o belo desperta nossos sentidos, anestesiados pela correria insana de todos os dias. Por meio da experiência sensorial, conseguimos acessar um tipo de conhecimento que passa ao largo da racionalidade: a transcendência. Algo que exige prática e muita dedicação para ser alcançado.

Como bem sabem os japoneses, a contemplação do belo – seja uma paisagem, uma ikebana (arranjo floral) ou um origami (dobradura) – está ligada ao sabor do tempo em suspenso. Desatado das tarefas, dispensado de qualquer utilidade. Um vazio, para ser mais exata, tão necessário quanto temido, pois, para muitos, se confunde com preguiça ou acomodação. Sem esse vácuo em nossa rotina, nem que tenha a duração de uma xícara de chá à beira da janela, fica difícil digerir o vivido, muito menos apreciar a magnitude de um pôr do sol.

Não fosse a mudança paulatina de temperamento, manobra promovida pelo autoconhecimento, Eleonora de Almua Perez teria perdido o espetáculo transcorrido em seu quintal. “Eu era muito impaciente, perfeccionista e controladora. Hoje, já consigo parar e contemplar o jardim de casa. Deixar que as coisas fluam, mesmo quando não vejo solução para elas. Dia desses, notei que a jabuticabeira estava repleta de flores. Antes, não teria visto essa cena”, conta. “A pressa é inútil. Não nos permite ver e sentir a fundo as coisas e as pessoas à nossa volta”, lamenta.

Tecelãs da vida
Como dizia Santo Inácio de Loyola, toda meditação demanda “um tempo de memória, um tempo de compreensão e um tempo para assimilar, aplicando nele os nossos sentidos, aquilo de que nos recordamos e que foi compreendido”. Processo semelhante se dá com o uso do tear. Tal qual Penélope, tramando e aguardando o dia triunfal em que teria seu amado nos braços, podemos, com a ajuda dessa arte antiquíssima, recuperar o sentido da espera. Não a espera ociosa, mas a criativa. “O tear me ganhou porque me trouxe foco, me ensinou a ter paciência, mais cuidado e atenção”, revela Eleonora.

Além da alegria de criar com as próprias mãos peças coloridas e felpudas, há nas entrelinhas da técnica outra empolgante conquista. “À medida que tecemos, conseguimos nos ver, refletimos sobre nossas escolhas e desejos e também sobre o valor de nossos esforços em prol de um projeto ou objetivo de vida”, afirma. Em outras palavras, o aprendizado das linhas extrapola os limites do artesanato e devolve ao cotidiano a noção de processo, bem como a determinação necessária para vê-lo concluído.

O entrelaçar dos fios nos faz lembrar de que é preciso respeitar sempre as etapas de uma construção se quisermos erguer uma morada realmente sólida. Triste constatar que a busca frenética por resultados tem apagado a beleza de cada ponto arrematado e mesmo a importância dos momentos em branco quando não temos respostas prontas. Apenas a pergunta: e agora? “Esperar está no cerne de todos os acontecimentos. Esperamos infinitamente desde que nascemos: andar, falar, crescer, aprender, nos formar, ter filhos. Tudo tem seu tempo certo”, ressalta o psicólogo Milton Paulo de Lacerda. Aqueles que se dedicam ao desenvolvimento da espiritualidade, afirma o especialista, conquistam uma dose considerável de tranquilidade para enfrentar as contrariedades e incertezas da vida. “Quem já descobriu um sentido para a existência e possui princípios claros em mente tem muito mais facilidade para conviver com os possíveis e inevitáveis aborrecimentos”, aponta Milton.

E, mesmo que uma trajetória sem sobressaltos fosse possível, ou seja, se todas as tramas de nossa história já nascessem desembaraçadas, sem necessidade de esforço, expectativa, tolerância, será que a impaciência não seria traída pelo tédio? Deixo vocês com esse nó para desatar.

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(oitavo passo) o valor da amizade
Ao longo da vida, caímos, levantamos, sofremos alguns arranhões. Outras vezes, ferimentos profundos. Nos momentos difíceis, o importante é encontrar maneiras de lidar com a dor e acreditar, sempre, que um dia nossas feridas irão cicatrizar, tornando-se símbolos de superação.

Os amigos são fios de ouro. Tramam uma rede segura e preciosa sobre a qual podemos nos jogar de olhos fechados. Estarão a postos tanto nos momentos críticos quanto nos dias de triunfo. O que poucos sabem é que sua presença em nossa vida ainda fortalece a saúde e nos deixa mais motivadas no trabalho.

Texto • Raphaela de Campos Mello | Ilustrações • Juliana Giopato

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Se o astral está nublado, o amigo chega e faz o Sol furar a barreira do desânimo. Sabe como ninguém disparar uma piada, uma palavra de incentivo, um puxão de orelha com precisão cirúrgica, uma demonstração gratuita de afeto. Manifestações universais que, felizmente, integram o arsenal de todo bom companheiro de jornada e nos colocam no prumo.

Nas próximas linhas você vai entender por que deve incluir em suas orações diárias uma prece especial para esses seres que tanto enriquecem nossa vida. Não só pelos motivos óbvios (carinho, cumplicidade, solidariedade, entre tantos outros) mas também por razões que sentimos na pele, sem, no entanto, identificá-las racionalmente. Acredite, o fato de pessoas queridas gravitarem ao nosso redor está diretamente ligado ao fortalecimento do sistema cardiovascular e ao rendimento no trabalho.

A tese é defendida pelo pesquisador norteamericano Tom Rath, no livro O Poder da Amizade – Descubra a Importância Que os Amigos Têm para Sua Saúde, Seu Desempenho Profissional e Sua Satisfação com a Vida (ed. Sextante). Para convencer os leitores de que a amizade é mesmo um escudo antiestresse, ele apresenta uma pesquisa de 2001 produzida na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, com indivíduos acometidos de doenças cardíacas.

O resultado, surpreendente, mostrou que os mais refratários a companhias, com menos de quatro amigos, corriam duas vezes mais risco de morrer por deficiência desse órgão. “Os amigos são ótimos amortecedores quando enfrentamos obstáculos e desafios, o que melhora nosso desempenho cardiovascular, nossa capacidade de recuperação e ainda diminui os níveis de tensão”, escreve ele. A psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association Brasil (ISMA-BR), associação internacional voltada à pesquisa, prevenção e tratamento do estresse, também reconhece a ponte entre o vínculo fraterno e o bemestar físico e psíquico do ser humano.

“Amizades íntimas satisfazem à necessidade de aceitação, confirmam valores e representam uma escuta fundamental para que nós superemos obstáculos com mais eficiência”, afirma. Em termos fisiológicos, a falta desse elo nos afeta da seguinte maneira: “O hormônio cortisol, liberado excessivamente em situações de tensão e perigo, enfraquece o sistema imunológico. É por isso que indivíduos solitários são mais vulneráveis aos efeitos do estresse e acabam adoecendo”, completa Ana Maria. Numa pesquisa realizada pela entidade, em 2009, 48% dos entrevistados afirmaram que dependiam dos amigos para relaxar. Trocando em miúdos, estar ao lado de pessoas especiais se mostrou, empiricamente, uma das formas mais saborosas de inundar o corpo de endorfina, o hormônio do prazer.

Quanto ao entusiasmo em relação ao emprego, Rath traz dados igualmente reveladores, colocando em xeque o discurso dos que veem na proximidade entre colegas de equipe um fator de distração ou isolamento em relação aos demais funcionários. “Novos estudos sugerem que amizades no trabalho geram um aumento substancial – e não uma queda – da satisfação com o emprego e do sucesso dentro da carreira”, aponta o autor. Isso significa ter “sete vezes mais chance de empenho na sua função”. Segundo o especialista, quem tem o privilégio de contar com camaradas no ambiente de trabalho se diverte enquanto produz, faz mais em menos tempo, tem boas ideias, sente-se valorizado e consegue desenvolver seus pontos fortes. O que mais um empregador pode querer de um contratado? Não é só isso.

Estudos também provam que amigos são grandes influenciadores de hábitos e crenças. Por exemplo, se sua melhor amiga segue uma dieta saudável, você tem cinco vezes mais chance de controlar a qualidade do alimento que coloca no prato. A mesma conta vale para a prática de exercícios físicos. Por tudo isso, afirma Rath: “Relacionamentos sociais são o maior indicativo da felicidade geral”.

Juntos, crescemos

A troca é um dos aspectos mais valiosos dessa relação essencial, na visão da psicóloga Denise Romero, professora do curso de psicologia da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. “Com os amigos, podemos compartilhar experiências, solicitar e oferecer ajuda, enfim, estabelecer relações afetivas que poderão nos acompanhar por toda a vida, nos altos e baixos”, diz ela. Mas essa via de mão dupla só pode existir se estiver assentada sobre a confiança. “Poder acreditar nas pessoas, sabendo que são sinceras e que se preocupam realmente com o nosso bem-estar, é fundamental para fortalecer o laço”, reforça Denise.

Como qualquer parceria, a amizade se abastece das afinidades, mas requer esforço, doação de tempo e atenção. Não basta ligar o piloto automático e achar que, dessa forma, seu círculo afetivo irá girar por si só. “Amigos não caem do céu. Temos de cultivá-los, muitas vezes fazendo pequenos sacrifícios em nome do outro”, destaca Ana Maria. Quem nunca desmarcou um compromisso às pressas para socorrer um amigo em apuros ou simplesmente para ficar horas e horas escutando suas lamúrias num momento de crise? Entre os cuidados implícitos no contrato da amizade, há ainda uma delicada cláusula: a franqueza. Até que ponto falar o que pensamos sem rodeios é benéfico para quem escuta?

O sentimento se mantém intacto em face da crítica, sincera, mas dura? “Podemos e devemos ser francos, mesmo que, em alguns momentos, precisemos dizer coisas desagradáveis que o outro não aceite”, opina Denise. Na visão dela, o impacto das palavras é amortecido pela motivação que as sustentam. “Saber que a pessoa está sendo autêntica e deseja o nosso bem verdadeiramente é a melhor forma de lidar com essa situação”, acrescenta ela.

De carne e osso

Devido à admiração exacerbada, é comum idealizarmos os eleitos do coração. No entanto, nossas expectativas podem não ser correspondidas pelo simples fato de estarmos interagindo com seres humanos, falíveis e passíveis de serem tomados por sentimentos nada nobres, como a inveja, a competitividade e o ciúme. Sim, tudo nessa vida tem um lado menos agradável. Reconhecer a existência dessas emoções perturbadoras, muitas vezes geradoras de culpa em quem sente (e não gostaria de sentir), é o caminho para encontrarmos alívio, na visão de Denise. “Na fase adulta, em que esperamos maior autonomia das pessoas, é mais difícil lidar com esses sentimentos. Porém, é preciso assumi-los e, num passo seguinte, buscar suas origens.”

A encrenca perde força se formos tolerantes com nossos pares e, sobretudo, se soubermos diferenciar um deslize de uma atitude de má-fé. “Quebrar um sigilo é algo grave, uma traição, talvez, irreparável. Mas, se o indivíduo revelou a informação sem saber que era particular, é apenas um equívoco, um malentendido que pode ser resolvido com diálogo”, acredita Ana Maria. Segundo ela, a transparência é capaz de evitar mágoas desnecessárias. Por exemplo, se você não dispõe de tempo para escutar os problemas de um amigo, melhor deixar claro que poderá atendê-lo com calma mais tarde do que oferecer um conselho rápido e pouco amoroso. “Ele vai perceber o desinteresse e ficará ainda mais arrasado por não ter se sentido amparado quando precisou”, ela aponta.

Com o passar dos anos, as amizades, inevitavelmente, enfrentam testes como esses. Descobrimos, pela dor e pelo amor, com quem podemos contar de verdade e quem não é merecedor de nossa ternura. Amigas há 42 anos, desde a adolescência, a empresária Perla Goldzac e a advogada Silvia Couto representam, felizmente, o primeiro caso. “Meu pai dizia que você só conhece uma pessoa depois de comer um saco de sal com ela. Nós duas já comemos vários”, conta Perla. “A identificação foi imediata. Compartilhávamos os mesmos gostos e interesses”, lembra Silvia. “Quando fui morar em Recife, cartas e fotos mantiveram nosso elo.

Voltando a São Paulo, após oito anos – já tínhamos nossos filhos e estávamos mais maduras –, descobrimos que pouco importava a distância diante da magnitude da nossa ligação”, completa. A amiga confirma a conexão, que, segundo ela, se mantém vigorosa apesar dos encontros esparsos. “Temos sonhos premonitórios, chegamos até a sentir as mesmas emoções. É uma sintonia constante”, garante Perla. A história das duas amigas do peito nos remete, pela via do contraste, ao que se passa atualmente nas redes sociais da internet. Nesse meio, um número estratosférico de supostos amigos tem afagado o ego de muita gente. No entanto, como mostrou a tal pesquisa com doentes cardíacos, apresentada no início desta matéria, quatro parceiros de alma são suficientes para nos fazer felizes e saudáveis. “Não precisamos ter um universo de amigos extraordinariamente amplo; a qualidade das relações parece ser o mais importante”, aponta o escritor Tom Rath. “A diferença entre amigos e conhecidos é que os primeiros nos completam, estão disponíveis de verdade, já os segundos nos dão a falsa sensação de preenchimento, mas ali não há intimidade nenhuma”, analisa Ana Maria.

Para que seus pacientes desenterrem esse tesouro chamado amigo, a psicóloga propõe um revelador exercício. Primeiro, eles devem escrever o nome de todas as pessoas que vierem à mente. Depois, circular apenas as figuras próximas e, por fim, desenhar uma estrela ao lado daquelas com que podem contar em qualquer situação. “Essa representação produz um impacto enorme, pois mostra a real condição do indivíduo, ou seja, se ele está bem servido de bons amigos ou se precisa se movimentar mais para cultivar sua rede de afetos”, explica Ana Maria. No meio de tantos candidatos a posto tão nobre em nosso coração, a profissional dá uma pista para identificarmos os que podem ser considerados presentes dos deuses: “Os grandes amigos têm os ouvidos mais apurados que a boca; acolhem muito mais do que julgam”.

(nono passo) a reinvenção permanente
Deixar para trás um terreno conhecido, mas pouco estimulante, é pré-requisito para uma vida mais vibrante e cheia de significado. O melhor é que, a qualquer momento, você pode acionar o efeito camaleoa e criar uma versão mais interessante de si mesma. Experimente!
Deixar para trás um terreno conhecido, mas pouco estimulante, é pré-requisito para uma vida mais vibrante e cheia de significado. O melhor é que, a qualquer momento, você pode acionar o efeito camaleoa e criar uma versão mais interessante de si mesma. Experimente!

Texto • Raphaela de Campos Mello | Ilustrações • Adriana Alves

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Quantas mulheres cabem dentro de você? Quantas vidas você é capaz de sorver num gole só? Nem sempre temos tempo e inspiração para refletir sobre esse tipo de questão. Uma pena. Pense bem. Qual a vantagem de protagonizarmos uma história monotemática, embalada pela mesma e cansada trilha sonora, se podemos nos reinventar a qualquer momento, dando voz e traquejo a facetas que, de outro modo, permaneceriam no canto escuro da ribalta?

“A vida é movimento, metamorfose. Os corpos estão mudando o tempo todo e desencadeando novos comportamentos. Trata-se de um processo gradativo, sem saltos, como o ciclo lunar”, compara Regina Favre, filósofa, terapeuta, educadora e criadora do Laboratório do Processo Formativo, em São Paulo. Apesar de a nossa própria constituição biológica nos mostrar, todos os dias, que a natureza está em constante trânsito, muitas vezes optamos por estacionar. Enraizamos na mesmice e, infelizmente, em nome de uma suposta segurança, desperdiçamos várias oportunidades de abocanhar fatias mais generosas de vida. “Reinventar-se é criar o novo, o que nos dá a confiança de que sempre podemos fazer diferente, buscar o desconhecido, olhar para aquilo que até então nos parecia estranho”, opina a psicóloga junguiana Neiva Bohnenberger, de São Paulo.

Veja bem. Não queremos que você vista uma “fantasia” diferente a cada dia, na tentativa insana de vivenciar o maior número possível de personagens em seu cotidiano. “Reinventar- se está longe da ideia de imaginar um ‘eu mirabolante’, ao contrário, é atribuir significados interessantes ao passado, aceitar a si mesma como ser humano e apreciar o caminho para justamente ampliar a consciência e os espaços criativos dentro de si mesma”, pondera a psicoterapeuta paulista Claudia Riecken, especialista em terapia breve.

Segundo ela, abrir-se para esse processo é o mesmo que escancarar as comportas da vitalidade, pois, ao reabilitarmos potenciais antigos ou ao estrearmos um novo “figurino”, recuperamos o senso de valor e de utilidade. Sentimentos fundamentais para que possamos deixar nossa marca no mundo. “Assim, nos sentimos vivas e, não por acaso, voltamos a acreditar no amor, na carreira, naquela promoção perdida, no curso que julgávamos tarde demais para ser retomado e assim por diante”, afirma Claudia.

Pode soar paradoxal, mas o desânimo é um importante ator nesse enredo. Um exemplo hipotético. Quando fulana assumiu seu posto de trabalho, vivia inquieta, no bom sentido. Desempenhava sua função com gosto, sugeria ótimas ideias a seus superiores, apontava soluções onde todos só viam impasses, em outras palavras, vicejava. Pois bem. O tempo passou, as tarefas deixaram de ser tão estimulantes, a disposição começou a lhe deixar na mão e, um belo dia, se viu apagada.

Não se apresse em taxar fulana de deprimida, doente, problemática, seja lá o que for. Nesse exemplo fictício, ela apenas esgotou as possibilidades de crescimento outrora atreladas àquela vaga e, agora, precisa com urgência de novos desafios. Se estivermos atentas, conseguiremos identificar a mudança de cenário, seja na carreira, seja nos relacionamentos, e partir em busca de uma configuração capaz de turbinar nosso desenvolvimento, ao passo que, se ficarmos paradas na areia movediça, afundaremos mais e mais. “Se a pessoa freia o processo de mudança, experimenta a automatização do comportamento, o empobrecimento da experiência, a limitação da curiosidade e da aprendizagem, sintomas que podem virar uma depressão”, alerta Regina. “As amarras do conhecido, a lógica do já sabido e já estudado nos tornam papagaios seguros e mortos por dentro”, concorda Claudia.

Lanterna na mão

Trocar de pele não é uma jornada simples, concordam as especialistas. Sobretudo para quem é avessa a aventuras que embaralham a rotina. No entanto, trata-se de uma reformulação vital. Do contrário, corremos o risco de morrer “asfixiadas” por pura e simples falta de motivação. Então, respire fundo e se familiarize com o trajeto. De acordo com Regina Favre, a reinvenção de si mesma pressupõe a travessia de três etapas – as duas primeiras, bem angustiantes, porém, libertadoras: aceitar o desmanche daquilo que conhecemos (um traço de nossa personalidade, um relacionamento, uma ocupação, um modo de nos colocarmos no mundo), sustentar o período de incertezas – ou o que a terapeuta chama de limbo – e, por fim, acolher o recomeço, acreditando que ele desvelará um potencial de vida novíssimo. “Nesse processo, às vezes, expandimos, às vezes, minguamos, às vezes, paramos. É natural. O importante é nos mantermos porosas em relação aos acontecimentos”, afirma Regina.

Facilita e muito ter clareza de onde você está, aonde quer chegar e o que deseja encontrar do outro lado. O que nem sempre é viável, especialmente quando estamos para lá de confusas em relação ao nosso itinerário. O mapa fica ainda mais nebuloso quando sequer conhecemos nossos próprios anseios. “Crescemos com tantas vozes nos dizendo como ser, o que fazer, que direção seguir, que, para nos escutarmos, precisamos empreender uma sondagem interna que nos ajude a identificar nossas necessidades”, aponta Neiva. No entanto, ela sugere, podemos iluminar o ponto de partida com a seguinte pergunta: “O que eu preciso fazer para viver sem arrependimentos? Esse questionamento nos auxilia a entender quem somos, o que desejamos e como podemos proceder”, explica a psicóloga.

Se serve de consolo, mesmo que você esteja perdidinha, cedo ou tarde irá protagonizar um novo roteiro. É que, na maioria das vezes, não nos lançamos nas árduas empreitadas que mais tarde se mostram revitalizantes. Ao contrário. Somos atiradas nessa direção por força das circunstâncias. “Somos impulsionadas por acontecimentos dolorosos ou de grande paixão, mudanças bruscas, rompimentos ou uniões e muito poucas vezes pela simples busca”, constata Neiva. Logo, precisamos baixar a guarda e destrinchar esses episódios ameaçadores com o coração repleto de compreensão. Afinal, são eles que detonam o gatilho da reinvenção.

“Nossos talentos adormecidos são chamados com grande frequência nos momentos de instabilidade”, concorda Regina. “Estamos no limbo e, de repente, para nossa surpresa, temos de nos aproximar de um dom ou atividade e nessa conexão encontramos forças que nos levam a experimentar algo inédito”, acrescenta. Por isso, enfatiza a terapeuta, precisamos ficar ligadas no mundo, colhendo referências em livros, filmes, conversas, viagens. “É fundamental não só absorver essas influências mas também assimilá- las e transformá-las em material de construção, pois estamos nos construindo o tempo todo”, ressalta. É como se essas sementes começassem a germinar dentro de nós, nos sacudindo e fazendo brotar ideias a priori inofensivas: “Eu gostaria de tentar isso, eu adoraria me envolver com aquilo”. Em pouco tempo, o “delírio” se converte em novas ferramentas cotidianas, em pleno uso.

Tudo se recria

Atiçada pela possibilidade de rejuvenescermos o espírito, a imaginação processa, em segundos, milhões de reviravoltas: abandonar aquele corte Chanel repetido por décadas (sim, o layout e a cor do cabelo são os primeiros sinais de que adentramos num novo capítulo), contratar o serviço de um consultor de carreira, se matricular num curso de pintura, sair mais vezes para dançar, ser menos briguenta… Desculpe cortar seu barato, mas trago um recado importantíssimo. Nem sempre o momento atual comporta todas as estripulias que engendramos nas horas de euforia criativa. “Certos potenciais são mais solicitados que outros de acordo com a fase da vida. Quem tem filho pequeno, por exemplo, não vai conseguir sentar e compor, mesmo que tenha um enorme talento musical”, pondera Regina, que ainda nos lembra de respeitar os limites do corpo para não esgotarmos o reservatório de energia e perdermos o foco.

Outro aviso. Quando mudamos algo em nós, seja uma atitude ou o jeito de nos vestirmos, isso se reflete ao nosso redor, ou seja, na teia social a que pertencemos. Seus familiares e amigos podem achar o máximo sua nova postura ou aquisição fashion, como podem criticá-la pelos mesmos motivos (muito provavelmente por invejarem lá no fundo sua coragem de se repaginar). Não deixe esse tipo de comentário abalar sua autoconfiança. Sustente a persona recém- incorporada e siga em frente. “Mudar requer certa maturidade e força para lidar com as pressões externas, sobretudo quando inventamos fórmulas próprias de sucesso diferentes das socialmente aceitas”, observa Regina.

A dinâmica da identidade humana é, em última análise, generosa conosco. O desenrolar de nossa história nos mostra que não estamos fadadas a conservar o mesmo formato, as mesmas convicções e gostos pelo resto da vida. Podemos, de tempos em tempos, “baixar” versões mais atualizadas de nós mesmas, o que não significa abrir mão de quem somos por completo. “A identidade é plástica, não fixa”, defende a terapeuta. Como reflexo disso, sentimos necessidade de renovar o guarda-roupa, de descobrir novas canções, eleger outro prato predileto e assim por diante. Nada mais saudável. “Mudar o visual de vez em quando é bastante necessário. Porque o estilo nada mais é que a expressão do que o indivíduo está vivendo”, acrescenta ela.

Se você chegou até aqui com a sensação de que esse papo de reinventar-se é bastante estimulante, mas não serve para você, afinal, já tentou fazer isso no passado e fracassou, reveja essa crença. Ouse sonhar com o novo outra vez e quantas mais forem necessárias. Não fique congelada no tempo. Como nos ensina a psicoterapeuta norte-americana Clarissa Pinkola Estés, autora do livro Mulheres que Correm com os Lobos (ed. Rocco), temos muitas fichas para serem lançadas sobre o tabuleiro. “Mesmo que um episódio represente um desastre total, sempre há outro à nossa espera, e depois mais outro. Há constantemente oportunidades para acertar, para moldar a vida do jeito que merecemos que ela seja.”

(décimo passo) sem medo de ser feliz
A cada passo dado você sente que a felicidade se afasta alguns metros? Não, você não está perseguindo uma utopia. Talvez esteja, inconscientemente, queimando chances preciosas de se realizar. Por isso, queremos convidá-la a repensar as próprias atitudes para, quanto antes, ser capaz de interromper o ciclo destrutivo da autossabotagem.

A cada passo dado você sente que a felicidade se afasta alguns metros? Não, você não está perseguindo uma utopia. Talvez esteja, inconscientemente, queimando chances preciosas de se realizar. Por isso, queremos convidá-la a repensar as próprias atitudes para, quanto antes, ser capaz de interromper o ciclo destrutivo da autossabotagem.

Texto • Raphaela de Campos Mello Ilustrações • Jana Magalhães

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Imagine-se no gramado de um campo de futebol em plena final de Copa do Mundo. A torcida urra, eufórica. Cabe a você bater o pênalti que decidirá o título. Você treinou e acertou esse chute centenas de vezes, no entanto, na hora decisiva, a bola passa a metros da trave. Frustrante, para não dizer desolador. Pois é exatamente isso o que muitas vezes fazemos com a felicidade. Por medo dos riscos e das responsabilidades inerentes à vida, em geral temores inconscientes, arremessamos nossa realização para escanteio quando, na verdade, queríamos marcar um golaço. Esse ato chama-se autossabotagem. Perigosa armadilha que tentaremos desativar nas próximas linhas.

Você deve se lembrar da espinha que apareceu bem na ponta do seu nariz no dia da formatura do colegial, da gripe que acometeu sua colega na véspera daquela importante reunião, da tendência da vizinha para se apaixonar por homens que não a valorizam. Atitudes forjadas por uma parte de nós que não nos vê como merecedoras do sucesso, ou, então, que subestima nossa capacidade de lidar com as atribuições coladas aos louros da vitória.

Pela lógica, essa conta não fecha. Se desejamos do fundo da alma obter êxito no maior número possível de setores da vida, por que atuamos contra nossos próprios intentos a ponto de boicotá-los? Ora, porque, a princípio, não fazemos ideia de quanto estamos nos prejudicando. “Muitos, ou a maior parte, desses destrutivos comportamentos estão quase que totalmente fora do domínio da consciência”, afirma o psicólogo americano Stanley Rosner, coautor do livro O Ciclo da Auto-Sabotagem – Por Que Repetimos Atitudes que Destroem Nossos Relacionamentos e Nos Fazem Sofrer (ed. BestSeller). “A autonomia, a independência e o sucesso são apavorantes para algumas pessoas porque indicam que elas não poderão mais argumentar que suas necessidades precisam ser protegidas”, diz o autor.

O filósofo e psicanalista paulista Arthur Meucci, coautor de A Vida Que Vale a Pena Ser Vivida (ed. Vozes), enxerga nesse processo uma fraude psíquica da pior espécie: os chamados ganhos secundários. “Há jovens que saem de casa para tentar a vida, enquanto outros permanecem na suposta zona de conforto, porque continuam sendo alvo da atenção dos pais e ainda se eximem de enfrentar possíveis dificuldades da fase adulta”, afirma Arthur. O problema é que, se aterramos dessa maneira amedrontada ad infinitum, não decolamos, não nos desenvolvemos plenamente. “Todo mundo busca a felicidade, a questão é ter coragem de viver, o que significa correr riscos e assumir responsabilidades, sabendo que não podemos controlar a vida, a grande angústia do ser humano”, diz ele.

Desativando a bomba

O tema desta reportagem é um tanto assustador, mas não insolúvel. Pode respirar. Na visão dos estudiosos da psique, consciência e mudança estão intrinsecamente ligadas. Eles avisam que revolver lembranças e situações desagradáveis é dolorido. Também são realistas ao assegurar que leva tempo até conseguirmos digerir nossas experiências, fazer novas associações e, por fim, implementar mudanças significativas em nossa vida. Mas, se tivermos paciência e vontade de nos aprimorarmos, a jornada vale muito a pena. “A parte mais delicada desse processo é converter o reconhecimento em uma mudança de comportamento, porque esse não é um exercício intelectual. Se o reconhecimento não for internalizado, sentido e elaborado, nada vai ser alterado”, diz Stanley Rosner.

Bernardo Stamateas também entende o mergulho interior como uma etapa primordial sem a qual jamais poderemos retornar à superfície mais leves e reformuladas. “Precisamos nos desvencilhar de todos os mandatos de culpa e nos dar permissão para sermos felizes”, afirma ele. Essa virada vem após identificarmos conscientemente atitudes que até então guarneciam a torcida adversária alojada em nosso próprio ser. Passamos, assim, a policiar ações e palavras que certamente iriam nos afastar de nossos propósitos. Não mais alimentado, o mecanismo do boicote, enfim, se desmancha. “Quando a pessoa desvenda as causas da autossabotagem, consegue se entregar para a vida”, diz Meucci.

Mas, prepare-se para experimentar uma reação em cadeia. Afinal, não vivemos saltando de um compartimento estanque para outro. Trabalho, casa, lazer, amores. Tudo isso está interconectado. Logo, se mudamos nosso jeito de nos posicionar em determinada área, as demais também serão afetadas. Suponhamos que uma pessoa tenha descoberto que está num relacionamento problemático e não queira mais se submeter a essa dinâmica. Assim que se tornar mais altiva na esfera amorosa, também se mostrará mais assertiva no campo profissional. “As artimanhas psíquicas que usamos em casa e no trabalho são as mesmas: o jeito de negociar, de lidar com funcionários e filhos, de dar ordens”, diz Meucci. Por isso, ele entrega, costuma ser angustiante demolir nossa concepção de sujeito para que possibilidades mais saudáveis sejam erguidas dos escombros.

O que vale é saber que só assim conseguiremos nos apossar de nossos pontos fortes e, confiantes, “exercer o que temos de melhor”, nas palavras de Lilian. No entanto, ela salienta, não podemos menosprezar ou, pior ainda, negar a dor, parte indissociável da existência. “Uma situação pode ser ruim e boa ao mesmo tempo. Nesse sentido, o sofrimento é uma passagem necessária que evidencia aspectos que precisam ser conhecidos e reconhecidos”, afirma a psicoterapeuta. Para ela, o fundamental é acreditarmos que, dadas as circunstâncias, somos capazes de fazer sempre o melhor que está a nosso alcance. “Podemos resgatar a capacidade de brincar, de superar o que nos fere, de olhar para nossas potencialidades”, diz ela.

Igualmente vital para nos sentirmos plenos é aceitarmos as diferentes fases da vida como elas são e delas extrairmos os aprendizados possíveis. “Feliz é aquele que se lança para a vida e não tem medo de viver as coisas em seus respectivos momentos”, afirma Meucci. Também fica satisfeito aquele que, em vez de se esfalfar para conquistar esse estado de espírito, prefere esculpi-lo, como um artista à mercê da criatividade. “A felicidade não é algo que alcançamos, e sim conduzimos; não depende do contexto, mas de nossa determinação para superarmos as dificuldades e desfrutarmos a vida”, diz Stamateas, que nos remete às sábias palavras do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”.
“Os valores transmitidos pela família muitas vezes formam crenças negativas que precisam de nossa valentia para serem reconhecidas e superadas”,

Bernardo Stamateas, terapeuta familiar e sexólogo

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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