A neurose de destino e as formas do sintoma na família

A Neurose de Destino e as Formas do Sintoma na Família
DUNKER, C. I. L., PASSOS, M. C. – Família e Subjetividade Contemporânea. Interações
(Universidade São Marcos). v.2, 1998.
“Nunca se vai mais longe do que quando já não se sabe para onde se vai.”
Goethe
Christian Ingo lenz Dunker
Maria Consuêlo Passos
Universidade São Marcos- Brasil

1. Introdução
Por volta do final da década de 20 o tema do destino passa a ocupar as preocupações de Freud. Aspectos biográficos, como a morte de um de seus filhos e a descoberta do câncer em sua mandíbula, bem como, os turbulentos momentos históricos que precedeu a segunda guerra mundial têm sido apontados por inúmeros autores para explicar a aparição do tema. Sua obscura relação com a noção de pulsão de morte representaria um motivo interno para a valorização do destino como uma questão analítica.
Em Além do Princípio do Prazer Freud levanta algumas justificativas para postular a existência de um modo pulsional tendente ao desligamento, a desfusão e à separação. Essa tendência de retorno a um estado anterior, com a redução absoluta da tensão se expressaria nas neuroses traumáticas, nos sonhos de repetição, na repetitividade que caracteriza o brincar infantil. Também diversas formas de sofrimento que se enredam em torno do masoquismo, da transferência e da reação terapêutica negativa refletiriam a ação desta compulsão à repetição. Mas de todos os argumentos clínicos levantados por Freud, o que menor atenção recebeu diz respeito à "neurose" de destino. Coloco o termo entre parênteses porque a rigor Freud fala em compulsão de destino (Schicksalzwang) e não em neurose. Tais casos se caracterizam pela:

“(…) impressão de um destino que as persegue, de um traço demoníaco em sua existência; e desde o começo a psicanálise julgou que este destino fatal era autoinduzido e estava determinado por influxos da infância." 1
1 Freud, S. – Além do Princípio do Prazer, p. 21, in Obras Completas Sigmund Freud, Amorrortu, Buenos Aires, 1988.

Encontramos aqui uma situação onde o sofrimento psíquico não redunda do conflito neurótico tramitado pela via da formação de sintomas. Assim como nas neuroses de caráter, nas neuroses atuais e nas neuroses narcísicas, podemos descrever tal quadro clínico a partir das relações que o sujeito estabelece na produção de um mais-de-gozar. Este "eterno retorno do igual" se mostraria na recorrência de experiências desagradáveis, ordenadas segundo uma seqüência e que aparecem ao sujeito como uma fatalidade da qual este se sente uma vítima. Enquanto na neurose de caráter esta repetição é produzida ativamente (pela defesa) e nas neuroses traumáticas reativamente (pela compulsão a repetição), nas neuroses de destino a repetição colhe o sujeito na posição de passividade.

Alguns exemplos disto são trazidos por Freud:

a) o benfeitor que se vê continuamente às voltas com a ingratidão de seus protegidos
b) o homem cujas amizades terminam sempre em traição
c) as pessoas que passam a vida entre a idealização e a decepção com uma figura de autoridade
d) amantes cuja relação amorosa passa sempre pelas mesmas fases e encontra sempre o mesmo desenlace

Poderíamos incluir como fenômenos apensos às neuroses de destino a "intuição histérica" e o "pressentimento obsessivo", ambas formas onde o futuro parece antecipável e aprioristicamente realizado. Independente do que se possa fazer ou desejar uma mesma significação se reapresentará. Isso permite compreender o traço depressivo, comum nas neuroses de destino, como um sintoma secundário.
O traço comum destas manifestações é o que o sujeito produz um saber, investe-o de certeza mas não é capaz de acreditar neste plenamente neste saber. Para tanto é preciso invocar uma testemunha, um parceiro, a partir do qual este saber torna-se "satisfatório". Uma certeza sem crença é o que a muito se conhece como um traço do desencadeamento da psicose. É esta a situação do personagem central de Dom Casmurro, romance do escritor brasileiro Machado de Assis. Bentinho sabe que sua esposa o traiu com seu melhor amigo. Ele tem certeza disso mas ao mesmo tempo escreve o livro para persuadir seu leitor de que este saber merece credibilidade. Nesta marcha demonstrativa vai ficando claro como a sede de crença no caráter inexorável da traição vai aproximando e causando o próprio destino do sujeito.

Como acontece em certos filmes de terror o sujeito se vê atraído para algo que se mostra ostensivamente perigoso ou maléfico, mas não consegue impedir-se do encontro. Como nas tragédias – Édipo Rei em particular, mas também em Hamlet e nos Irmãos Karamazov – a moral deste tipo de narrativa estabelece que quanto mais se procura fugir ao destino melhor se o cumpre. "O destino conduz quem consente e arrasta quem não consente" 2 este antigo provérbio estóico mostra como talvez a primeira ferida narcísica do homem não foi a descoberta copernicana de que não estamos no centro do universo, mas a realização coletiva de que há um saber interditado aos homens. Saber suposto como forma de nomear, organizar e localizar aquilo à que o homem está submetido. Saber-limite, para além do qual o protagonista comete o excesso, o ultrapassamento, que os antigos chamavam de hybris e que funciona como motor do destino trágico. Por mais que a modernidade nos tenha prometido a condição de artífices integrais de nosso destino noções como as de destino, acaso ou risco acabam sempre reintroduzindo a ambigüidade onde antes havia discriminação, acaso onde havia previsibilidade e caos onde antes estava a ordem.
O destino é uma noção que sempre fascinou os homens. A Moira, Fortuna ou ainda as inúmeras metáforas para exprimir aquilo que "já estava escrito" representam uma das figuras da alteridade que melhor se prestam a ilustrar a inacessibilidade do gozo e a lógica de seu cálculo. Para falar de seu destino o sujeito coloca-se para além da cadeia significante. Significa-se a partir de um lugar de exterioridade – já morto, já escrito, já dado – como é comum acontecer em certas construções delirantes. Deste lugar improvável ele calcula a repetição de um mesmo fracasso. Deste lugar, – biblicamente chamado de juízo final e filosoficamente de o fim da história – o sacrifício encontrará sua justa proporção diante da restituição. Mas este lugar é estruturalmente interditado ao neurótico, daí sua descrença no saber assim constituído. Daí sua remissão ao lugar do Outro.

2. A Cultura da Culpa e a Civilização da Vergonha
Sabe-se que Freud pensou a religião basicamente a partir do tema do pai, de seu assassinato, da sua revivescência formadora de ideais e de fratrias. Há, no entanto, aspectos da religiosidade que são melhor compreensíveis a partir da construçãocompartilhada deste saber sobre o gozo. Nem sempre o lugar estruturalmente atribuído ao pai coincide com o saber sobre o gozo. Em outras palavras, a identificação com o pai simbólico não é, necessariamente, a única via de acesso ao saber sobre o gozo. Por exemplo, nas inúmeras religiões formadas em torno da noção de destino ou predestinação, ou onde as práticas advinhatórias ocupam um lugar ritualístico importante, o ponto determinante da crença no destino parece ser este lugar imaginariamente exterior à cadeia significante. O transe, a dissociação e os estado de obnubilação ou êxtase são exemplos desta possibilidade.
Em vez de uma religiosidade baseada na culpa, como se vê na tradição judaico cristã, teríamos então uma religiosidade fundada na vergonha, como parece ser o caso de algumas tradições orientais. Pode-se distinguir então duas formas de renúncia: pela culpa ou pela vergonha. O primeiro caso foi estudado classicamente por Freud:
"Por tanto, em que pese a renúncia (Versagung) consumada sobrevirá um sentimento de culpa, e esta é uma grande dificuldade econômica da implantação do supereu, ou o que é o mesmo, da formação da consciência moral. Agora a renúncia (Versagung) já não tem um efeito de satisfação plena; a abstensão virtuosa já não é recompensada pela segurança do amor; um destino que ameaçava desde fora – perda de amor e castigo por parte da autoridade externa – foi trocado por um destino interior permanente, a tensão da consciência de culpa." 3
De fato o reencontro repetitivo, verificado na neurose de destino, é muitas vezes estabilizado por intermédio de uma significação expiatória. No entanto a satisfação obtida com esta expiação é cada vez menos "satisfatória", como indica a passagem acima. A renúncia torna-se então mera reprodução do gozo. O superego torna-se um "glutão" – quanto mais tem, mais quer. Nesta situação o elemento que coordena esta renúncia, o que Lacan chamou de significante mestre (S1), torna-se insensato, puro imperativo eternizado na forma de destino. O Hades grego é uma boa ilustração desta repetição eternizada: as Danaides enchendo seu tonel, infinitamente, Sísifo elevando sua roda colina acima, Atlas segurando o peso do mundo, Prometeu tendo seu fígado consumido … diariamente. O ciclo que vai da renúncia à promessa e desta à decepção, foi ressignificado, pela cultura judaico-cristâ, em termos da culpa. Como está
salientado, na passagem acima, a culpa surge da troca de um destino exterior por um destino interior. Ela surge pela interiorização do destino. Isso fica patente nas formas de neurose de destino, ou de compulsão de destino, apresentadas por Freud.
Mais recentemente a clínica tem mostrado a reaparição da neurose de destino. Por mais que as forças da modernidade que impelem à autodeterminação, à liberdade de escolha e de autonomia na construção do destino tenham se implantado nos modos de subjetivação ocidentais, a preocupação com o destino na sua forma clássica não se extinguiu completamente. Agora há uma curiosa diferença no tom afetivo que domina a apreensão desta compulsão: não é mais a culpa, mas a vergonha, que está no centro da cena. Ora, a vergonha é o afeto típico da situação onde se é denunciado por um saber. Na vergonha aquilo que deveria permanecer entre-sabido, ou semi-sabido, torna-se exposto, torna se todo-sabido pelo Outro. Neste sentido o segredo é condição da vergonha. Lembremos que junto com a culpa e o asco, a vergonha forma o trio de afetos herdeiros do complexo de Édipo. Não faz sentido dividir a consciência moral em uma consciência de culpa, outra de vergonha e uma terceira ligada ao asco, nem imaginar que a angústia moral se fundaria apenas na culpa superegóica. Por outro lado há motivos para pensar que o efeito da renúncia pulsional admite variabilidade se o lemos do ponto de vista da inclusão a um dado processo civilizatório ou do ponto de vista do processo de filiação e pertencimento cultural.
A vergonha é o sentimento próprio da exclusão e da segregação inerentes ao processo civilizatório. Levamos em conta nesta observação a distinção, sinalizada em autores como Norbert Elias, entre Zivilization, como processo formador de práticas de subjetivação, privatização e disciplinarização do corpo e do sujeito e Kultur, como processo de produção e reprodução material e discursiva de laços sociais, mais especificamente "regulação dos vínculos recíprocos entre os homens" 4. Freud fala da culpa como fundamento da cultura (Das Unbehageng in der Kultur), e não da civilização. Podemos dizer que no ocidente contemporâneo o motor do processo civilizatório reside muito mais na vergonha do que na culpa.
Ora, essa distinção é importante, no contexto de nossa questão, porque atualmente parece que o terror que habita as formas clínicas da neurose de destino modificou-se. O ponto de retorno a um mesmo fracasso, não é virtualmente recoberto pela culpa, e coextensivamente, pela punição, mas pela vergonha e pela sensação de estar à parte, excluído ou deslocado de um certo destino coletivo. Mais do que uma origem, ou um passado comum, que a noção de cultura costuma anelar a um futuro compartilhável, a neurose de destino na atualidade enfatiza um descentramento face ao presente.

3. A Repetição do Mesmo e a Repetição do Outro

No filme O Dia da Marmota temos um belo exemplo disso. O protagonista subitamente se vê preso a um mesmo dia, que se repete interminavelmente, com os mesmos acontecimentos fortuitos, do mesmo cotidiano enfadonho. Nem mesmo a morte o libertará desta repetição, o que não o impede de suicidar-se … diversas vezes. Em outras palavras, seu destino torna-se insensato e trágico na medida em que nele nada de substancial pode ser alterado. Nada de importante pode surpreendê-lo e nada de novo pode alterar a rotina onde dia após dia ele se vê perdendo a mulher a quem ama. Esta mesma decepção é seu destino, e este destino é um descentramento face ao próprio presente, que ele habita, mas ao qual ele não pertence, pois nele não se gesta nenhum futuro ou se constrói qualquer experiência do passado. O protagonista evidencia, inicialmente, uma odiosa indiferença pelo outro. Tal indiferença é inversamente proporcional ao pertencimento ao próprio destino.
São pessoas que se queixam de uma falta de pertencimento recorrente, de uma decepção com um ajustamento ou aceitação infatigavelmente perseguido. É neste contexto que a eternização da decepção com o Outro transforma um acontecimento contingente em necessário. Agir, mesmo que passivamente, de modo a sustentar esta repetição como uma mesma significação, é um modo extremo de tornar necessário o que é contingente.
O sujeito moderno nasce sob a égide da autonomia e da promessa de "fazer seu próprio destino". Ser autor, diretor e protagonista de sua própria obra. Nessa trajetória há um fracasso possível, o da incompletude do projeto. Mas há uma segunda e mais angustiante forma de fracasso. Aquela que ocorre quando o sujeito triunfa. Quando seu destino é uma conseqüência lógica e necessária de suas próprias ações, deliberações e comandos, seja isso verdadeiro ou meramente uma conjectura, sobrevém a "perda de satisfação" e o sentimento de não pertencer, verdadeiramente, a este destino demiurgicamente criado.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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