Disfunções sexuais – Parte II e final

A presença da intimidade carnal junto à ausência da
intimidade psíquica será um solo fértil para o afloramento de fantasias
arcaicas do psiquismo humano, tais como as de incorporação destrutiva ou as de
representações da “vagina dentada” (Klein)m submersas em palavras tais como “vou
sair com ela só para partir no meio”, ou ainda “aquele pit Bull vai ver comigo,
aposto que vou conseguir fazê-lo brochar”. Rivalidade e utilização do outro
como objeto parcial permeiam esses relacionamentos instantâneos, fadados a ser
natimortos.

            Reconhecer o
imperativo categórico da cultura contemporânea “custe o que custar, vamos todos
gozar!” serve para ajudar-nos a imaginar como pode se sentir alguém que não
consiga obedecer a ele. Pior ainda, alguém que saiba ser um “portador de
disfunção sexual” – terminologia médica que, apesar de ter sido cuidadosamente
escolhida para não rotular, traz em si a idéia da deficiência, pois o termo
disfunção refere-se a um estado alterado de responsividade fisiológica. Como
vemos, o assunto tem tudo para ser alvo de intensa repressão, para criar auras
pecaminosas, de modo a só poder ser “confessado” ao médico/sexólogo.

            E a
psicanálise, o que ela teria a dizer sobre as disfunções sexuais? Em primeiro
lugar, que para essa ciência, a rigor, todo sintoma tem um sentido sexual
inconsciente, tenha ou não relação com a sexualidade. Em segundo lugar, que as
concepções freudianas revolucionárias do início do século XX, que inscreveram o
sexual onde ele era até então inimaginável, na infância e no inconsciente,
estabeleceram o cuidado em não confundir sexual com o genital, reservando a
palavra sexual para designar um conjunto de atividades presentes em todos os
aspectos da vida de um sujeito, independentemente das ligações com os órgãos genitais.
Do ponto de vista psicanalítico, a abordagem da sexualidade buscará sempre
manter a vinculação entre a sexualidade (atividade consciente) e a vida
libidinal (atividade inconsciente).

            O uso das
mesmas palavras, sexual, vida sexual, sexualidade,m em diferente concepções,
porém, costuma dar lugar a v árias confissões, trazendo para o campo de estudo
das disfunções sexuais dificuldades adicionais, uma vez que a superposição das
palavras sexual/genital reflete o mesmo movimento da superposição
sintoma/genitália.

            A escrita de
um texto sobre esse tema finca armadilhas em vários pontos. Já de início, de
duas, uma: ou se corre o risco de abstrações por demais evasivas, ou de
concretude terminológica nada elegante. A opção escolhida no presente livro foi
a de seguir a mesma trajetória dos discursos que comparecem na clínica
psicanalítica: bordejar a temática de modo abstrato, até adentrar os domínios
da palavra crua, mas, talvez por isso mesmo, rica de significação.

            A busca de
uma simetria na composição dos capítulos que apresentam a temática das
disfunções sexuais em mulheres e homens foi uma tentativa vã, que apenas serviu
para evidenciar o que já sabíamos: o feminino escapa não é capturável. A mulher
traz em sua anatomia as reentrâncias que sustentam o mistério das sensações de
seus sentidos. Mistério que foge ao controle do homem e que o faz sentir, a um
só tempo, exposto e privado da realidade do desejo da mulher: “Ela vê que estou
excitado, eu nunca tenho essa certeza”!

            Por um
século a psicanálise tentou responder à pergunta mais cabulosa feita por Freud:
“Afinal, o que quer uma mulher?” Pouco avançou na resposta, chegando quase a
concluir, como o fez, ironicamente, um cliente: “No fundo, independentemente do
que façam, toda mulher só quer uma coisa: casar e ter filhos”. Para suprir o
que Freud não pôde concluir, tentativas de construir uma teoria da feminilidade
parecem ter se tornado uma obsessão dentre os pós-freudianos. Todavia, as
teorias freudianas sobre a masculinidade, e que giram em torno do fato de que a
angústia de castração jamais libera o homem para uma vivência tranqüila de sua
sexualidade, parecem ter sido suficientes para acompanhar a clínica durante
todo esse tempo. Somente no final do século XX surgiu a necessidade de uma
revisão das lacunas abertas por essa teoria sexual da masculinidade, e desse
fato irrompeu a nossa necessidade de recorrer à construção dos papéis sociais
de homens e mulheres, uma vez que acreditamos que as subjetividades são
históricas. Novamente nos defrontamos com outra desigualdade: apesar da mulher
ter sido suprimida da história, esta tratou de registrar as formas esmeradas,
encontradas pela cultura, para controlar sua sexualidade transbordante, não
retráctil. No entanto, pouco se escreveu sobre a sexualidade masculina, talvez
porque o homem era quem fazia os fatos históricos e escrevia a história
oficial.

            Assim, nosso
texto é todo atravessado por desigualdade e dicotomias criticáveis entre as
representações dos gêneros; a mente e o corpo; a razão e a paixão; a
psicanálise e a biologia. Pouco importa, tudo isso reflete as marcas do nosso
tempo e dos nossos limites pessoais. E se optamos por iniciar este volume pelas
questões sexuais femininas é porque reconhecemos, acima de tudo, que “em todos
os tempo, as mulheres constituíram a textura da vida”. (Michels, 2001).

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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