Amor platônico?

Amor platônico?

Dossiê: O amor, segundo Platão, não é impossível
Publicado em 08 de maio de 2010

Marcelo P. Marques

O “amor platônico” é um dos estereótipos mais conhecidos da tradição
ocidental. Se olharmos de perto os textos de Platão, ficaremos
surpresos com o quanto suas ideias são distorcidas. É comum dizer que o
“amor platônico” refere-se a uma relação na qual aquele que ama
idealiza o outro: a pessoa amada é ideal e, portanto, inatingível.
Tamanha é a distância entre o sujeito e o objeto de seu “amor”, que o
outro nem fica sabendo que é amado. O texto mais conhecido de Platão
sobre o amor é o diálogo O Banquete, no qual se narra o encontro de
cidadãos atenienses dispostos a elogiar o deus Eros.

O amor é e não é um deus
Para os gregos antigos, o amor é um deus e tem nome próprio, Eros.
Segundo Hesíodo, por exemplo, ele é um dos deuses mais antigos e atua
no universo agregando os elementos e os seres.

Em O Banquete, de Platão, o personagem Fedro começa elogiando Eros
como fonte dos maiores bens, inspirador dos amantes e instigador do
arrebatamento nos heróis. O segundo a falar é Pausânias, para quem, na
verdade, existem dois deuses: Eros urânio (celeste) e Eros pandêmio
(popular), um associado à força educadora da excelência humana
(virtude), outro ligado à satisfação dos apetites, de maneira
irrefletida. Para o médico Erixímaco, Eros organiza os movimentos dos
astros, ordena as estações e atua nos corpos de todos os seres,
provocando cópulas e associações variadas. É assim que as ações do
agricultor e do médico devem levar em conta a força erótica divina,
seja para ter boas colheitas, seja para promover a saúde. Também o
músico deve contar com o favor do deus para criar acordes, ou, sem ele,
provocar dissonâncias. Agathon, o poeta trágico, propõe, por sua vez,
um só Eros, do qual pinta uma imagem positiva exacerbada: ele é o mais
belo, o mais jovem, o mais feliz, o mais hábil, o mais corajoso, o mais
temperante; ao agir, só favorece coisas boas, como a paz e a
familiaridade entre os seres.

Mas, por outro lado, o amor não é um deus. Na verdade, ele é uma
dimensão interna ou estrutural dos seres humanos, força que determina
as modalidades de atração, seja no sentido da procriação, seja no
sentido da satisfação dos apetites, propiciando um apaziguamento que
ameniza a vida e permite que todos se ocupem de seus afazeres. Segundo
Aristófanes, o poder de Eros surge do fato de os humanos terem sido
cortados ao meio, o que faz com que passem a vida buscando suas metades
perdidas. Seja pela reprodução, seja pela satisfação proporcionada pelo
sexo, é eroticamente que os indivíduos tentam restaurar sua antiga
natureza.

Quando chega a vez de Sócrates falar, ele recorre à fala da
sacerdotisa Diotima, para quem Eros não pode ser um deus, afinal, quem
ama deseja algo que não tem; logo, o amor é uma carência. Se ele é
desejo de coisas belas e boas, não pode ser belo nem bom, pois, como
potência interna ao humano, não tem ou não é aquilo que busca. Os pais
de Eros seriam Penia (pobreza) e Poros (recurso); mas, em vez de
deuses, eles acabam se transformando em causas imanentes que fazem
parte de uma nova concepção do amor: não sendo nem bom nem mau, nem
belo nem feio, nem sábio nem ignorante, ele é um ser intermediário, uma
potência que se situa entre o divino e o humano.

O amor é e não é um sentimento
Segundo alguns, o amor é um sentimento, ou melhor, um modo como os
seres humanos são afetados perante objetos ou seres que os atraem e os
marcam. Para Fedro, o amor é uma espécie de sentimento de solidariedade
civil, que move os indivíduos a se associar e a construir pactos; um
sentimento de amizade, reciprocidade, levando ao cuidado com o bem do
outro, nobre e elevado. Em seu grau máximo, ele é o que leva o amigo
guerreiro a morrer pelo seu companheiro de armas, ou ainda a fazer com
que a esposa se sacrifique pelo marido.

Quando Pausânias propõe dois tipos de Eros, separa o ato de amar da
maneira como realizamos esse ato. Se o ato de amar é, em si mesmo,
indiferente, o sentimento que marca o modo como amamos faz a diferença;
o amor instintivo e irrefletido é vil, porque não traduz uma
consciência do outro. Mas o amor elevado é o sentimento que nos leva a
desejar e promover o bem e o crescimento do amado.

Já na perspectiva de Aristófanes, o amor não é mero sentimento, mas
algo permanente, como um modo de ser da espécie humana, na medida em
que está presente no fato de sermos estruturalmente incompletos. A
busca de completude determina-nos, fazendo-nos estar sempre voltados
para o outro. A essa estrutura carente combinam-se graus maiores ou
menores de consciência, que, por sua vez, determinam nosso modo de ser
e agir.

Entre o sentimento e a estrutura, passam a entrar em jogo ainda as
dimensões da significação e do conhecimento, pela dimensão da
consciência da falta, que está relacionada com a consciência do outro:
depois de cortar os seres humanos ao meio, Zeus gira o rosto para o
lado do corte. O que eu entendo que sou, aquilo que eu significo para
mim mesmo é correlato ao que eu entendo que o outro é, ou o que o outro
significa para mim.

A consciência do corte está ligada ao sentimento, mas é mais do que
uma experiência transitória: o indivíduo cortado tem a oportunidade de
aprender que o outro não vai restaurar sua unidade originária; ele
pode, assim, pela vida compartilhada e a satisfação que a convivência
proporciona, amar e trabalhar de modo construtivo, menos desesperado,
talvez. Sócrates critica, por um lado, a ideia de que o amor seja
apenas a busca de uma suposta cara-metade; por outro lado, reforça a
perspectiva que leva em conta a consciência da carência: quem sequer
imagina que é deficiente naquilo que não acredita ser-lhe necessário
não é capaz de desejar verdadeiramente.

Segundo Diotima, se o amor é busca, ele é um movimento que parte da
falta e vai na direção de uma possibilidade de plenitude. Mas, se ele
se tornar posse, deixa de ser o que é, pois perderá a qualidade de ser
intermediário. Como processo, o amor parte de uma determinação ou
qualidade e vai na direção do seu oposto; o feio busca o belo, o sem
recurso busca o recurso, o que é ruim tende a buscar o que é bom, o
ignorante deve tomar consciência de sua falta de conhecimento. O amor é
decisivamente “um ser entre”.

Essa ideia do amor como processo permite associar intimamente amor e
conhecimento: o amor fica entre a ignorância e o saber pleno, e a
reflexão sobre o amor pode ser lida como uma definição da própria
filosofia. Pois, quando o ser carente encontra o que busca, na beleza
ou na excelência do outro, torna-se grávido e tem necessidade de gerar.
Amar, então, é gerar na beleza, ou seja, produzir algo perante o que é
belo. Para falarmos em geração, temos de supor alguma plenitude, alguma
suficiência que, finalmente, transborda, vai além da mera falta e
produz algo novo.

A geração deve ser pensada tanto no plano natural como no cultural.
Os seres vivos estão em permanente transformação, tornando-se
constantemente outros, perdendo o que têm e fabricando-se novamente. No
plano biológico, a geração de outro ser é preservação da espécie; na
dimensão cultural, a geração dá-se no plano da significação e do
conhecimento. Um ato justo, uma atitude significativa, a produção de
bens culturais são modos de constituir eroticamente a rede de valores e
significações que o mundo humano é. Seja como preservação da espécie,
seja como fabricação da cultura, amar significa buscar recursos para
lidarmos com nossa mortalidade. Como indivíduos, nascemos carentes e
morremos sozinhos, mas, como membros de uma espécie e parte integrante
da comunidade humana, reunimo-nos aos nossos iguais e sobrevivemos, ou
seja, permanecemos como sentido humano maior.

O amor é loucura e filosofia
No mito dos seres andróginos, contado por Aristófanes, quando dois
seres cortados encontram suas metades, perdem a noção das coisas, ou
seja, ficam agarrados, numa busca enlouquecida de saciedade. Por isso,
param de cuidar de suas vidas, não se alimentam e acabam por morrer de
amor, uma metade acoplada à outra.

A ideia de que o amor seja um tipo de loucura aparece também em
outro diálogo platônico, chamado Fedro, no qual Sócrates discute os
benefícios e os prejuízos de uma relação amorosa. Haveria tipos
diferentes de delírios divinos, dependendo do deus responsável pela
possessão: ser possuído pela Musa leva-nos a fazer poesia; ser possuído
por Apolo permite-nos prever o futuro; ser possuído por Dioniso
torna-nos iniciados em certos mistérios; ser possuído por Eros
torna-nos filósofos. Mas, se filosofia é amor pelo conhecimento, não
pode ser um desvario irracional. Deuses e ignorantes não filosofam,
porque se creem sábios. A maioria dos humanos ignora sua própria
ignorância, por isso age irrefletidamente. Quem toma consciência da
ignorância estrutural da humanidade são os que filosofam, buscando nas
coisas toda a racionalidade de que são capazes. No horizonte dessa
busca, o filósofo postula um máximo de inteligibilidade, chamado de
“ideia”, “forma” ou “essência” inteligível.

Por ideal, em Platão, não devemos entender algo idealizado, mas um
modo de ser radical, cujas determinações sejam puramente inteligíveis.
Esse máximo de ideação é mais uma aposta e uma exigência do que uma
constatação; aquele que filosofa parte da precariedade e da finitude
das coisas e dos homens. Para compreendê-los e educá-los (pensá-los no
seu melhor), é levado a postular algo que não conhece, mas entende
dever existir, apesar de invisível. A essência, então, é alguma coisa à
qual temos acesso por meio da inteligência. À medida que é pensada e
desenvolvida reflexivamente (diálogo), passa a ser posta como
referência; algo divino, porque para além da mortalidade humana; objeto
que atrai e orienta o amor e a linguagem humana.

Assim, o objeto dito “ideal” não é um objeto perfeito imaginado nem
mera projeção gerada pela carência. O objeto inteligível é proposto
como algo a ser pensado, conhecido e amado. Se o amor é filósofo, ele é
construção racional e progressiva desse objeto. Não é a idealização
ingênua da figura do ser amado, mas é abertura para o outro e,
progressivamente, para uma alteridade inteligível; ele implica a
relação entre corpos e almas, sempre em movimento, rumo a algum tipo de
imortalidade.
O movimento do amor não pode parar: além dos belos corpos, das belas
ocupações, do bem comum, dos valores políticos, da convivência na
cidade (pólis), ele é exigência máxima de racionalidade, buscando a
causa de tudo o que é bom e de toda beleza.

Busca de consciência e conhecimento máximos, o amor filosófico é
exigência de beleza pura, mas sabe-se finito e limitado, mesmo que
desejando sempre mais.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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