Aspectos relacionados aos funcionamentos narcisistas – Artigo meu

O FANTASMA DA ÓPERA
– ASPECTOS RELACIONADOS AOS FUNCIONAMENTOS NARCISISTAS

Renata Fernandes – Instituto Sedes

 

Quando eu te encarei
frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

Sampa, Caetano Veloso

 

“Narciso, cego e surdo
ao amor de seu semelhante, restringe seu mundo interior e exterior ao limitado
do seu campo visual”

 

   

O narcisismo, conceito psicanalítico
cujo nome Freud tomou de empréstimo ao mito grego de Narciso, o jovem que
enamorou-se de sua própria imagem espelhada na superfície de um lago, o mito aclara,
a idéia de narcisismo está vinculada à questão da imagem e esta, por sua vez, à
noção de identidade. A imagem corporal é o primeiro esboço sobre o qual irão se
desenhar, posteriormente, as identificações constitutivas da personalidade. Para
Freud, a libido narcísica à priori estava ligada a perversão; entretanto posteriormente
é reconhecida no desenvolvimento sexual normal, sendo um complemento libidinal
do egoísmo próprio da pulsão de autoconservação, presente em todos os seres
humanos.
Em seu texto de 1914, Freud destaca a
posição dos pais na constituição do narcisismo primário dos filhos.
Freud fala que o amor dos pais aos filhos é o narcisismo dos pais renascido e
transformado em amor objetal.

O Narcisismo primário representaria de certa
forma, uma espécie de onipotência que se cria no encontro entre o narcisismo
nascente do bebê e o narcisismo renascente dos pais, que no filme é explicitado
nos momentos em que o Fantasma afirma ser “o gênio que não se pode ver” “o todo
poderoso” e com poderes de usufruir e amaldiçoar as pessoas que de certa o
contrariem, ou supostamente agridam seu ego fragilizado.

                 As perspectivas diferenciais de
Kernberg apontam o narcisismo como defesas infantis contra a agressão, e fica
claro no momento em que o Fantasma se vê obrigado a se enclausurar em um porão
para fugir das acusações e agressões presas em sua mente das pessoas que o
humilharam, julgaram, condenaram e não o compreenderam. Diz: “o mundo não me
mostrou compaixão”.

O narcisismo sendo como
defesa ante o sentimento de desamparo e mortificação nos remete a vida
solitária e entristecida que o Fantasma está preso, e defendido de seu próprio caos
interno. Na verdade, vemos uma criança desamparada, rejeitada e condenada a
viver presa as suas dores emocionais.

A dimensão narcísica pode
ser evidenciada em pessoas que reagem com hipersensibilidade à intrusão no
espaço próprio, e ao mesmo tempo, conservam a nostalgia da fusão e temem a
separação. Tal fusão é necessária, porém extremamente temida. No filme, o
Fantasma preso em seu calabouço reage intensamente contra toda e qualquer ameaça
de invasão ao seu mundo, o que podemos comparar com seu mundo interno. Porém o
desejo de tal fusão é enorme, e ao dizer a Christine que ela o pertence, que sem
ele não será nada, e que viverá como nunca viveu, faz-me pensar no conflito
entre o desejo da fusão e o pavor que esta lhe causa, e conceituando a oposição
da relação fragilizada, e neste caso inexistente entre ego e objeto. Acredito
que ao evitar a fusão, o medo latente é o de perder os próprios limites e seu
sentimento de identidade, neste caso inexistente, tendendo a uma falsa
autossuficiência negando toda e qualquer dependência. Parece-me encurralado todo
o momento, pois ao mesmo tempo tal autonomia se transforma em solidão
devastadora e uma possível aproximação do outro isola a pulsão mortífera, se
afasta dos outros ou se aferra aos outros. Distancia-se quando sente qualquer
ameaça ao seu frágil equilíbrio. Aferra-se quando sua sede de objeto apenas se
sacia em presença daquele que cabe a função de refletir para o sujeito, neste
caso o Fantasma vê-se refletido em Christine.

Este tipo de paciente
parece abandonar a associação livre e recorre à atuação. No filme, a todo
instante fica explicitado às atuações do Fantasma parecendo-me uma tentativa
infrutífera de descarregar suas dores através do comportamento agressivo,
onipotente e impulsivo.

O sentimento de
autoestima é um resíduo do narcisismo infantil e das realizações conformes ao
ideal. Em problemáticas narcísicas predomina a vulnerabilidade da autoestima, e
as pessoas se tornam especialmente sensíveis aos fracassos e desilusões.
Centram-se em si mesmas, têm fantasias grandiosas e dependem muito do
reconhecimento e admiração dos outros. Vemos claramente em toda atuação do
Fantasma, a necessidade de ser o melhor e não o sendo a vingança a todos que se
sujeitarem a não o reconhecerem como absoluto. Outra peculiaridade referente à
autoestima é quanto mais estrito é o superego, menor a autoestima, sendo
apoiado pela representação de objetos libidinalmente investidos que ratificam
seu amor ao ego ao oferecer provisões narcísicas. Como acontece a representação
de um corpo saudável e satisfatório esteticamente segundo os valores que exige
o ideal do ego, o Fantasma esconde uma funesta imperfeição em seu rosto atrás da
máscara que ao ser revelado não é tão assustadora para Christine como o
tirânico ideal do ego que possui. A teoria psicanalítica descreve as
vicissitudes da autoestima segundo a relação entre o ego e o ideal do ego. Naqueles
casos em que a mãe não amou o filho pelo que foi, mas somente pelo que fazia, o
reforço da autoestima apenas poderá ser consumado através do fazer, e a
exagerada dependência de fontes externas de admiração, amor e confirmação
revela um déficit na constituição do ideal de ego, e fica inteligível em todas
as atuações do Fantasma em sempre ser o melhor.

Os transtornos narcísicos
da conduta caracterizam-se pelo predomínio de condutas perversas, delituosas ou
aditivas. Nos transtornos narcísicos da personalidade predominam o
enfraquecimento ou distorção séria do self manifestada por sintomas tais como a
hipersensibilidade às ofensas e porque não dizer a rejeição. As personalidades
carentes de espelho requerem objetos do self que respondam a admiração e
confirmação. Os carentes de ideal buscam pessoas para admirar por seu
prestígio, poder, beleza, inteligência ou virtudes morais, apenas se sentem
valiosos vinculados a personagens idealizados. A revolta do Fantasma, ao
quebrar o espelho ao ver sua imagem refletida, parece-me que inicia o contato
com a imperfeição que até então não era percebida, sentida ou sequer reconhecida.

A consumação do
desenvolvimento do ego e da libido se manifesta na capacidade do ego de
reconhecer o objeto como é em si e não como meramente projeção do ego.
Reconhecer a alteridade (caráter ou qualidade do que é do outro) do objeto é
renunciar á fantasia narcísica da identidade entre objeto histórico e objeto
atual. Este é sempre uma afronta para o narcisismo. Freud, se referia ao ego a
pessoa enquanto sujeito que pensa, sente e atua. A todo instante, o Fantasma
projeta os próprios sentimentos em Christine, não a reconhecendo como outra
pessoa e neste caso especificamente enamorada por outro homem. Penso ser uma
situação comumente encontrada na clínica nos dias de hoje, pessoas que vivem
paixões idealizadas sem conseguir distinguir o que é seu ou do outro, carentes
de afeto, pois se vêem impossibilitadas em se relacionar outras, atingindo o
tão esperado e sonhado amor.

Penso que nunca o
narcisismo em uma sociedade ficou tão manifesto como nos dias de hoje. Condutas
delituosas, perversas e aditivas parecem-me regra e porque não dizer uma
neurose caráter de tão peculiar à sociedade. A todo instante e a cada
atendimento, questiono-me sobre o papel do psicanalista sendo apenas como uma
pessoa que com humildade, compreensão, afeto, aceitação, sensibilidade e indubitavelmente
abandonando o próprio narcisismo propicie de alguma maneira tais pacientes
entrar em contato com os vazios existenciais, dores emocionais, inerentes a
todo ser humano, proporcionando um verdadeiro crescimento mental. Acredito o
quão difícil é estabelecer uma relação autêntica com o paciente principalmente
por pensarem serem donos do saber. Conhecer o ser humano é uma linda e
extenuante jornada, porém ao meu modo de ver requer essencialmente aceitar o
não saber. Talvez mais do que vivenciar os próprios vazios existenciais e dores
emocionais, o psicanalista munido de informações tenha o trabalho mais árduo em
sua profissão, abandonar o próprio narcisismo, aceitar o não saber, e abrir-se
para o tão temerário novo que é conhecer o ser humano.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

 

FREUD,
S. (1888-1889) O mal estar da civilização.
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud
,
vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

________
(1914) Sobre o narcisismo: uma introdução.
Op. cit
., vol. XIV

GREEN,
A. Narcisismo de vida narcisismo de morte.
São Paulo: Escuta, 1988.

HORNSTEIN,
L. Narcisismo: autoestima, identidade,
alteridade
. São Paulo: Via Lettera, 2009.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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