Será verdade?

Por Sandra Maia . 16.11.10 – 09h29

Será verdade?

Uma
tarefa no mínimo árdua é ter de julgar o outro ou tomar qualquer
partido quando somos humanos. Enquanto aprendizes, podemos até estar em
níveis diferentes de sabedoria, de caminhada, mas, ainda assim, somos
aprendizes. Carregamos conosco marcas, crenças, dúvidas e certezas.
Carregamos histórias: tudo o que nos fez chegar onde estamos, tudo o
que nos faz mais ou menos justos.

Sim, todo ser humano tem
histórias e, nesse sentido, todos temos ao que nos apegar quando
precisamos decidir por uma ou outra direção e/ou versão. Enfim, toda
essa introdução é só para afirmar que, por tudo isso, não há qualquer
fundamento em julgar o outro, tomar um partido, ficar de um lado. Não
podemos.

Quando agimos dessa forma, por
impulso, fazemos mal a nós mesmos e aos outros. Afinal, quem está com a
verdade? Qual é a nossa verdade? Qual a base das nossas crenças, nosso
modo de ser? Como o outro lida com essas mesmas verdades? Será que o
que precisamos é o que o outro precisa?

Tomando as dores
Veja um exemplo: há alguns anos, uma amiga querida me procurou dizendo
que havia discutido com seus pais e, que decidira sair de casa. Eles
não a compreendiam. Ela não queria mais ser controlada, não suportava a
ideia da manutenção do convívio com a família…

Então, num primeiro momento,
fiquei do seu lado. Dei-lhe acolhida e, inconscientemente, tomei
partido. Não escutei os dois lados, não escutei verdadeiramente nem
mesmo ela. Quando  esta começou a me contar suas dores, fui diretamente
para minha infância e, trouxe à tona, parte da incompreensão que
percebia, no meu mundo de fantasia, e que durante muito tempo me
fizeram mal.

Não a ajudei como gostaria –
com neutralidade e isenção! Não havia me libertado das marcas, da
sombra de um passado que ainda estava na minha cabeça – esse era de
fato o palco da confusão. Não posso dizer que errei, não posso dizer
que acertei. Mas, com um pouco mais de presença, a teria convidado a
questionar-se, duvidar do que acreditava, colocar-se no lugar do outro,
entender o que estava por trás da proteção exagerada dos seus pais…

Hoje, com uma visão mais
distanciada e sábia, sei que o que deveria ter feito seria primeiro
isolar o problema, não confundi-lo com a minha história e não tomar
qualquer orientação sem conhecer profundamente os dois lados. Depois,
fazê-la compreender que seus pais estavam do seu lado, a amavam,
queriam o seu bem, estavam lá para ela e, nesse contexto, prontos para
dar-lhe o melhor: perdoar e ser perdoados.

Diálogo
Os problemas, as discussões, o controle poderiam ser revistos a partir
do diálogo, da compreensão de um e outro. Qual seria a base dessa
“descarga” de amor demasiado que ela recebia? Qual o contexto? Por que
seus pais agiam dessa forma? O que os movia? Qual era a história de
cada um deles? O que eles traziam dentro?

Mais tarde, vim a descobrir
que haviam perdido um outro filho anos atrás – o que potencializava a
preocupação. Sem a compreensão de como esse fato os tocava tornavam-se
três estranhos dividindo um mesmo teto. A relação tinha como base um
segredo de família. Não se falava dessa dor, não se tocava no assunto.
A verdade velada, no entanto, estava lá e comprometia o presente.

Talvez minha amiga não
estivesse fugindo da casa dos pais. Fugia de si mesma. Fugia dos
problemas que não queria encarar, não queria enxergar e, portanto,
caminhava sem qualquer possibilidade de crescer, evoluir, aprender. A
questão é que, para dar o próximo passo, é sempre preciso parar e
aprender com o que nos trouxe até aqui.  O que temos, o que carregamos.

Não dá para sair por aí almejando crescer, amadurecer etc, etc, se não soubermos para qual direção, qual sonho, qual visão…

Resultado da história: ela
poderia ter aproveitado melhor essa explosão de sentimentos para, por
fim, olhar para si mesma, olhar para seus pais, olhar para a situação
e, então, emocionalmente crescer.

Eu, bem, eu confesso que venho
também caminhando e aprendendo. Essa história me marcou profundamente.
Parei de julgar, aprendi a lidar melhor com minhas emoções…

Escolhas, sempre escolhas.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
Esse post foi publicado em Saúde e bem-estar. Bookmark o link permanente.

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