Solidão a dois

Solidão a dois

por Fernando Puga | 20/08/2010

Não há amor, nem diálogo. Apenas um relacionamento falido. O que fazer?


No apartamento, cada um no seu canto. Não há diálogo, não há entendimento, não há carinho. Apenas
a ilusão de um relacionamento que, na realidade, já está falido,
acabado. A solidão a dois é, muitas vezes, mais dolorosa que a solidão
desacompanhada. Isso porque ela vem sempre carregada de mágoas e
decepções que nutrem o monstro da desilusão, criando um desarmônico e
doentio laço, que aprisiona o pseudo-casal.

Casada há 14 anos, a jornalista J. P., 38, garante que vive um inferno dentro de casa.
Ela não sabe precisar ao certo quando o relacionamento faliu, mas
consegue enumerar algumas razões. "É basicamente um acúmulo de coisas.
Falta de paciência, intolerância, egoísmo e acho que até um excesso de
idealização. Porque fomos varrendo os problemas para baixo do tapete,
nos negando a enxergá-los e isso foi roendo o casamento. Reconheço meu
erro e os dele também", conta ela. "Agora, por exemplo, estou aqui dando
meu depoimento para você e ele está lá na sala vendo televisão. Quando
cheguei do trabalho hoje, nem nos falamos. Ele ficou imóvel no sofá e eu
vim direto para o quarto. A casa fica praticamente dividida em duas
áreas e a gente mal se cruza", revela.

J. P.
garante que a cada dia que passa, a vida conjugal fica pior. Ela compara
o problema a um bolo, cujo fermento são exatamente as mágoas e
decepções. "Conversar vai ficando cada vez mais impossível. Qualquer
assunto que eu comece, pode ser o mais ameno como a comida do jantar,
acaba em briga. Imagine quando eu introduzir algo sobre nós", lamenta.
No entanto, as dificuldades precisam ser superadas e tomar uma atitude vai ficando cada vez mais urgente. "Na primeira oportunidade, eu pulo fora", ainda espera a jornalista.


Quem vive um drama desses na vida sempre reconhece, quando o problema
já é fato, que já havia algo de errado desde muito tempo e esses
indícios foram desprezados.”


Relacionamentos que agonizam desse mal são extremamente comuns, segundo a
terapeuta de casais Margareth Labate. Ela confirma que o problema nasce
devagarzinho, bem debaixo dos olhos vendados do casal. "Existe um
desprezo muito grande pela intuição. Quem vive um drama desses na vida
reconhece, quando o problema é fato, que já havia algo de errado desde
muito tempo e esses
indícios foram desprezados. É muito
importante identificá-los e solucioná-los quando ainda são incipientes.
É justamente o acúmulo de feridas que mina a saúde de um
relacionamento", comenta.


Eu queria ter uma bomba


A psicóloga reforça que sentimentos como ansiedade, rejeição,
desprezo e desejo de fuga não devem ser, de maneira nenhuma, negados.
"De fato, para muitas pessoas, é muito difícil reconhecer defeitos no
seu projeto afetivo que, quase sempre, nasce envolvido por uma promessa
de perfeição e eternidade. Mas certas barreiras anunciam um novo caminho
de evolução para uma relação e é aí mesmo que está a solução para uma
queixa comum nesse quadro que é a
rotina, a falta de novidade. São dessas mudanças que um casamento se nutre", considera.

Vista grossa diante das dificuldades do outro e
excesso de idealização também acabaram com o casamento da fisioterapeuta
Elza D’Ávila. Mas a agonia se arrastou por quase cinco anos. "Não foi
fácil terminar o casamento. Acho que nunca é fácil, mesmo quando está
doendo. No meu caso, lembro que pensava sempre na minha casa vazia, na
minha vida sem marido, que efetivamente já existia, mas me dava
calafrios. Vivi para o casamento por mais de 15 anos e o divórcio me
parecia o reconhecimento do meu fracasso", confessa.

“No dia seguinte, fui breve e direta: ‘quem vai ficar nesse apartamento? Eu ou você?’”



Foi
preciso que se "inventasse" um motivo pontual para que ela engatasse
uma conversa definitiva. Ou quase isso. "Eu descobri que ele tinha
outra, o que era absolutamente esperado. Na verdade, ele me fez
descobrir isso, espalhando indícios para me chamar atenção e me forçar a
uma atitude, exatamente como homem faz: não conversa, dá evidências. Já
éramos praticamente dois estranhos, dormindo em camas separadas, quando
tomei coragem e resolvi falar. Já era quase hora de dormir, ele já
estava deitado no sofá. Comecei com o assunto e dali a pouco, ele estava
roncando. Acabou naquele momento. No dia seguinte, fui breve e direta:
‘quem vai ficar nesse apartamento? Eu ou você?’", lembra a
fisioterapeuta. Em dois meses, sua vida tinha mudado completamente e
para melhor. "Pedi muito tempo com medo,
poderia ter me sentido livre muito antes", pondera.

A poder de resistência
ao tempo de um relacionamento é medido pela capacidade do casal de
lidar com os desejos e potenciais um do outro. "A busca pela
estabilidade e a segurança são o maior obstáculo para o crescimento em
conjunto. O passado, como diz a própria palavra, passa e a cada dia que
passa surgem novas expectativas e possibilidades.
Amar não é um esforço, mas exige responsabilidade para com a evolução do outro porque
precisamos manter acesa a nossa admiração por ele. Não basta apenas
encontrar a chamada pessoa certa. A manutenção da paixão é a grande
missão", encerra Margarth Labate.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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