Casais Parciais

Casais Parciais
 
Tenho visto chegar uma quantidade razoável de perguntas de usuários relacionadas a percepção de que muitos homens e mulheres não conseguem se envolver integralmente com um parceiro com quem esteja se relacionando. Tem sido, de fato, uma queixa constante – independente do sexo do usuario – sobre essa percepção, é comum lermos "quando tudo ia bem, ele (a) simplesmente sumiu" ou "estamos juntos a X anos e ele (a) ainda não conseguiu se definir" ou ainda "ele (a) parece estar se relacionando com outras pessoas e não consegue decidir", fora as pessoas casadas que se relacionam com solteiras e solteiras que teriam chances de viver um relacionamento pleno, mas, curiosamente, buscam pessoas já comprometidas.

A responsabilidade pelo "casal parcial" não está apenas naquele que parece ser o culpado pela situação, a responsabilidade é dos dois, pois as escolha de estarem ou continuarem juntos em uma situação de impasse também é mútua. Muito se coloca no outro, como nas frases acima, "ela não se decide" "não consegue se definir" ", "é casado, mas me ama". Responsablizar o outro é quase um atestado de submissão ao desejo do outro, uma atitude de apatia frente a uma situação de insatisfação e frustração.

Essas dúvidas nos fazem pensar em como tem sido difícil para muitos a possibilidade de se fazer melhores escolhas ou de conduzirem suas vidas de forma mais saudável. São situações onde a pessoa se encontra congelada, paralisada, sem conseguir enxergar as alternativas e saídas possíveis. Deposita-se em quem está ao lado toda a expectativa para se chegar a uma solução, basta o outro decidir o que quer para que possam enfim aproveitar a vida juntos, mas enquanto se espera essa definição que pode nunca chegar, a vida passa ao lado e rápido, e nesse meio tempo muito se perde, muito se sofre e pouco se ganha. Em situações assim é comum vermos que os dois lados, apesar do sofrimento, se acomodam no cenário, e apesar das queixas e ameaças, de fato pouco se faz para descongelar e transformar. É quase um pacto silencioso e inconsciente, não se fala dele, mas está feito e acordado entre as partes.

Outro aspecto é o paradoxo que se percebe em algumas dessas pessoas, se por um lado conseguem se destacar profissionalmente, tem amigos, se relacionam, por outro, quando entra em campo o aspecto emocional, por alguma razão travam, deixam de lado suas melhores caracteristicas e passam a apatia, submissão, enorme fragilidade e perdem a capacidade de perceber o que fazem e o quanto contribuem para que a relação esteja emperrada. Aguardam o outro, na esperança que ele tomará uma definição para a vida dos dois, e não conseguem por conta própria assumir as rédias e decidir o que fazer para serem mais felizes. As razões para que esse modelo de casal exista são as mais diversas e estão sempre bastante imbuídas das características pessoais assim como questões emocionais e muitas vezes inconscientes de cada um, pois também sabemos que muitos não aceitam essa condição e conseguem, mesmo que com sofrimento e dificuldade, se distanciar disso que lhes faz tão mal e buscar algo melhor e inteiro.

São vários os exemplos dos modelos de "casal parcial" , aqueles que se dedicam tanto ao trabalho que não lhes sobra tempo de estar com o outro, realmente com o outro, vivendo e trocando, aqueles que não se permitem uma aproximação plena e completa e sempre encontram um jeito de boicotar a relação, existem os que temem perder o controle da própria vida, os que temem perder a liberdade de ir e vir, os que aceitam conviver com alguém já comprometido e por isso mesmo pouco disponível, os que temem crescer e ir de encontro a vida adulta. Enfim, ainda poderia citar muitas outras possibilidades que inviabilizam alguém de ser feliz nesse aspecto, mas o que importa é que cada um possa refletir sobre suas próprias circunstâncias e avaliar se age ou não dessa forma.

Esses são os casais parciais, todos aqueles que temem tanto perder, às vezes nem se sabe bem ao certo o que, que esquecem o tanto que podem ganhar ao conseguirem se entregar e viver integralmente uma relação, plena de qualidades e defeitos e igualmente plena de vida, onde e com quem se possa se ampliar, explorar e descobrir.

Uma vez dentro desse modelo de relação sabemos o quanto pode ser difícil conseguir escapar e quebrar essa dinâmica cristalizada, é uma tarefa difícil, mas não necessariamente impossível. Requer uma dose importante de conscientização da forma como se vive e das escolhas que se fez até então, e uma outra dose de coragem para conseguir transformar e aceitar que uma relação é uma via de mão dupla, não basta que apenas um queira construir e investir, é necessário que seja um projeto em comum, e que enquanto se espera pela decisão do outro, muito se perde no tempo que não pára para aguardar. As experiências de vida mais enriquecedoras são as vividas integralmente e cabe a cada um ser responsável pelas escolhas que tornem a vida mais interessante e saudável.

Este artigo foi escrito por:

Dra. Juliana Amaral
Psicóloga
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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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