Por “amor” – Sandra Maia

Por Sandra Maia . 20.07.10 – 17h18

Por “amor”

Será mesmo que precisamos ser assim tão dramáticos? Será mesmo que a sociedade, Deus, nossos entes queridos esperam que fiquemos assim: mortos -vivos dentro de uma relação sem amor, sem respeito, sem generosidade? Será mesmo que precisamos nos condenar a algo que não concordamos? Não queremos? Não suportamos?

Tenho dúvidas. Então vou refletir com você, a partir de algumas histórias. Vou falar de três grandes amigas. Usei nomes fictícios para preservar a privacidade delas e, como poderá ver, não há modelo certo. Há o que podemos fazer com nossos recursos emocionais.

Raíssa
Bem, essa é uma grande amiga! Apaixonou-se pela primeira vez muito jovem. Foi um amor tão forte que, embora tenha tocado a vida, a marcou profundamente. Ela permitiu-se casar, ter um filho – mas amor como aquele nunca mais viveu. Hoje, está separada.

Reencontrou-se com seu grande amor duas vezes nesses 30 anos de trajetória e, embora este a tenha incentivado a seguir em frente, não houve como. Ela não consegue se entregar a ninguém mais. Vive condenada a um amor que não vai florescer. Não tem como acontecer.

Vive das lembranças de uma relação que nem mesmo aconteceu… Sente saudades do que não viveu, do que não pode experimentar. Cuida do lado profissional, dos amigos, do filho, da casa. É inteligente, bem sucedida e triste…


Bruna
Bem, a Bruna tem uma trajetória distinta. Amou muitos homens. Amou tanto e tão descontroladamente que, ao acabar cada relação, não sobrava mais nada para sentir falta. Viveu assim, fortes emoções, muitos relacionamentos, alguns amores. Hoje, passado 30 anos, está só. À procura de mais um grande novo amor.

Sente saudades dos outros todos? Não. Fala até com certa frieza de seus amores. Verdadeiramente, diz que cada um cumpriu um papel no seu crescimento. “Agora quero novas aventuras. Quero me apaixonar e, desta vez, para sempre”, diz.

Dos amores que se permitiu, ficou com as lembranças boas. Tudo o mais jogou fora, deixou de lado. Cuida-se muito bem. Não tem filhos, é uma profissional de renome. É reconhecida e totalmente independente. É mais feliz que triste.

Fátima
Fátima casou-se com um homem bem mais velho. Diria uns 20 anos mais velho. Decorridos 30 anos, não está tão feliz na relação. Diz: “Perdi a admiração. Resta à amizade, o carinho. Mas daí o amor, a intimidade, a vida a dois – bem esta está acabada. Escondida debaixo do tapete.”

Está numa fase infeliz – não sabe se cuida de sua vida e dá um basta, decide seguir em frente, correr riscos, viver outros amores, experimentar o novo. Não sabe, ou melhor, não tem forças para enfrentar o que está fora. Permanece então no seu canto sem pedir ajuda, sem querer ajuda…

Conformou-se em ser triste. A morrer porque, no seu íntimo, não aceita o que para outros poderia ser a solução.

Histórias contadas fica a pergunta: o que elas têm em comum? O que acabou na relação? Por que não conseguiram levar adiante o amor? O que faltou? O que faz uma relação ser perene – já sabendo que a paixão acaba? O amor se transforma?

Ontem, conversávamos sobre esse tema em um jantar. E foram vários os palpites – as idéias do que faz uma relação seguir ou se romper… “Respeito”, um disse. “Generosidade”, segundo outro. “Dependência”, gritou um – e, então, tive de intervir… Dependência? Não, não posso crer que alguém ainda acredite que possa manter uma relação por DEPENDÊNCIA.

Mas quer saber? De fato, muitos acham que arrastar uma relação com base na pena, na culpa, no anular-se, funciona… Não funciona. Se a relação chegou a esse ponto, talvez o mais digno seja mesmo a separação. É a partir da separação que vamos – quem sabe – resgatar o que de bom sobrou.

Amor…
A amizade, o cuidado, o afeto. Relação é afinal TROCA. No mais, tudo é loucura… Uma relação para ser perene demanda DOIS. Dois que decidem dia a dia estarem juntos. Dois que escolhem a cada amanhecer – sabendo de todas as limitações – ficar juntos. Ficar porque é bom, porque também é ruim, mas acima de tudo, porque há amor. Amor incondicional.

É claro que esse é uma decisão complexa e que demanda em muitos casos ajuda. Mas lembre-se: até para pedir ajuda há que escolher… Deixar tudo como está ou não…

Tenho um amigo que me disse outro dia a frase: “Estou casado há 35 anos. Não sei o que faria se minha mulher me deixasse. A amo como no primeiro dia”. Conheço outro que há pouco se separou e, o rompimento só aconteceu porque, em algum momento, perderam a conexão. Deixaram de trocar, de conversar, de se entender…

Distantes
Quando a distância entre um e outro é tamanha, a ponto de CONVIVER COM UM ESTRANHO, talvez não haja mesmo muito a fazer a não ser resgatar a auto-estima, o autocontrole e decidir. Ficar ou Sair… Sempre uma escolha!

Ah, a relação! O que a torna perene? Bem, relendo essas histórias diria o amor, a escolha, a elegância, a generosidade, o respeito, o senso de realidade e auto-percepção, a intimidade, a conexão – consigo com o outro e com os outros…
Difícil?  Sim, mas não impossível.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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