Quem está no comando – Renato Mezan

Vida interior: Renato Mezan
Quem está no
comando?

NÃO permitir que digam
como você deve ser e viver.
Decida você mesmo

A QUESTÃO
O MUNDO CONTEMPORÂNEO BOMBARDEIA O INDIVÍDUO COM ESTÍMULOS, E É CADA VEZ MAIS DIFÍCIL CONFORMAR-SE COM A NECESSIDADE DE RENUNCIAR À SATISFAÇÃO IMEDIATA DE NOSSAS VONTADES.

O PERIGO
PARA LUTAR CONTRA AS FRUSTRAÇÕES, AS PESSOAS BUSCAM SOLUÇÕES ARTIFICIAIS, ENTREGAM-SE A GURUS E CRENÇAS FANTÁSTICAS. ABREM MÃO DA AUTONOMIA E DE ASSUMIR A RESPONSABILIDADE PELO PROPRIO DESTINO.

O século XX trouxe formidáveis transformações ao modo de vida do homem ocidental – invenções tecnológicas, liberdades democráticas, mercadorias acessíveis a milhões de pessoas, descobertas na medicina –, mas esses avanços cobraram seu preço, fazendo surgir novos problemas. Um deles me parece particularmente importante, porque pervade praticamente todas as dimensões da vida contemporânea: a infantilização crescente das pessoas. Existe hoje uma perigosa tendência a evitar a responsabilidade individual, o que coloca em risco um dos valores que herdamos do Iluminismo: a autonomia.

Os filósofos do século XVIII conceberam a autonomia como atributo essencial do ser humano e o vincularam ao exercício da razão nos assuntos pessoais e cívicos. Na esfera pública, o conceito de autonomia fundamenta o limite do poder do Estado e da religião sobre o indivíduo; na esfera pessoal, ele se refere à capacidade de cada pessoa para pensar por conta própria e decidir como deve viver. Seu correlato é a responsabilidade pelo que fazemos; sua exigência é que assumamos essa responsabilidade em suas diversas dimensões: jurídica, política, ética. No plano das idéias, esse conceito triunfou – não sem lutas, retrocessos e contestações. Neste início do século XXI, porém, a liberdade individual, a conquista mais importante dos últimos dois séculos, parece ser entendida como direito de consumir e de buscar o prazer a qualquer custo. Pouco importa o sentido de nossas experiências: é sua intensidade que deveríamos avaliar, transformando cada ato e cada instante numa fonte de excitação, fazendo de nossa vida um constante borbulhar de sensações sem continuidade. Isso se reflete diretamente na percepção que temos sobre nós mesmos, sobre nosso bem-estar psíquico e sobre os sofrimentos que a vida nos traz. A própria impossibilidade de viver com tamanha efervescência todos os momentos do dia, a enorme distância entre o que nos é dito sobre como devemos ser e o que de fato somos, é com certeza uma das fontes do mal-estar contemporâneo.

A psicanálise tem algo a dizer sobre essa situação, tanto no plano coletivo quanto no individual. Ela considera que o que somos resulta de uma complexa interação entre os impulsos sexuais e agressivos e as defesas que, desde a infância, construímos para contê-los, por meio daquilo que chamamos de superego. Na época de Freud, o adoecimento psíquico era sobretudo conseqüência da severidade do superego: a repressão excessiva dos impulsos sexuais provocava, em suma, a eclosão das neuroses. Em certos casos, isso ainda é verdade, mas na maioria das vezes verifica-se a situação oposta: é por falta – e não por excesso – de distância entre os impulsos e os atos que sobrevém a neurose. O indivíduo contemporâneo é complacente em demasia com seus desejos; quer tudo e agora, não se conforma com a necessidade de renunciar (em parte, ao menos) a sua satisfação, em nome do respeito às necessidades e desejos do outro. Vemos isso a cada momento: crianças que têm chiliques ao lhes ser negado o último brinquedo eletrônico, pais que se recusam a pagar pensão aos filhos após uma separação, gente furando filas ou cortando os outros no trânsito, total indiferença ante a miséria ou a desgraça alheia, e assim por diante. Na relação com nós mesmos, essa intolerância à frustração se traduz na recusa em refletir sobre o que realmente motiva nossas atitudes e na atribuição aos outros – pais, cônjuges, a inflação, o governo – da culpa pelos fracassos e impasses de nossa existência.

Viciadas no desincumbir-se de qualquer responsabilidade, as pessoas esperam do terapeuta que ele lhes ofereça "algo" (conselhos ou medicamentos, tanto faz) capaz de proporcionar alívio rápido e sem esforço, como se os problemas da alma fossem um espinho que se tira do pé. Recebem com surpresa a recusa do psicanalista em compactuar com essa visão; chocam-se com a idéia de que, seja qual for a origem distante dos sintomas, eles se converteram numa segunda natureza, e que somente um mergulho muitas vezes doloroso na própria subjetividade permitirá suprimi-los, ou pelo menos torná-los menos geradores de sofrimento. Não estou aqui fazendo o elogio da autoflagelação: afirmo apenas que qualquer trabalho terapêutico envolve a exigência – ética – de que a pessoa se responsabilize pelo que faz consigo própria e com os que a circundam, que ela perceba como, à sua revelia, colabora para criar em volta de si o inferno de que se queixa. Nesse sentido, a psicanálise visa a uma desalienação do indivíduo, a uma libertação das amarras inconscientes que o sujeitam a traumas passados e a outros fatores que ela estudou com detalhe. A psicanálise é, nesse ponto, herdeira do Iluminismo: ela tem como valor ético a autonomia e a emancipação dos entraves inconscientes que bloqueiam nosso desenvolvimento e inibem nossa capacidade.

O caminho para a autonomia só pode ser individual. Não há receita que valha para todos, porque cada pessoa se constitui, no quadro geral da sociedade, de maneira única e específica. A atenção à singularidade coloca a psicanálise na contramão dos processos de massificação e alienação onipresentes na cultura atual, e nisso vejo um dos principais motivos pelos quais tanto a criticam: ela inquieta, porque afirma que "a culpa não é sempre dos outros", porque propõe um caminho de autoconhecimento que depende do interesse e do investimento na própria pessoa, e não de procedimentos que excluam a responsabilidade pessoal – supostos exercícios de auto-ajuda, submissão a princípios religiosos, a busca incessante por pílulas da felicidade.

Renato Mezan é psicanalista e autor de vários livros,
entre os quais Freud – Pensador da Cultura e Tempo de Muda

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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