Entrevista – “Não existe droga segura”

Entrevista: Nora Volkow – Publicada na revista Veja em 31/03

"Não existe droga segura"

A diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas afirma

que nem mesmo a maconha nem muito menos a DMT, presente
no chá do Santo
Daime, podem ser consideradas inofensivas


Kalleo Coura

Luiz Maximiano
"Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva.
Trata-se de um erro. Comprovadamente, ela tem efeitos bastante danosos"

A psiquiatra mexicana Nora Volkow, 54 anos, é uma das mais
importantes pesquisadoras sobre drogas no mundo. Quando, porém, o assunto
são os danos neurobiológicos que essas substâncias causam,
Volkow pode ser considerada a número 1. Foi a psiquiatra quem primeiro
usou a tomografia para comprovar as consequências do uso de drogas no
cérebro e foi também ela quem, nos anos 80, mostrou que, ao contrário
do que se pensava até então, a cocaína é, sim, capaz
de viciar. Desde 2003 na direção do Instituto Nacional sobre Abuso
de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow esteve no Brasil na semana passada para
uma palestra na Universidade Federal de São Paulo. Dias antes de chegar,
falou a VEJA, por telefone, de seu escritório em Rockville, próximo
a Washington.

Há quinze dias, um cartunista brasileiro e seu filho foram
mortos por um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente
maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido como
Santo Daime. Que efeitos essas drogas têm sobre um cérebro esquizofrênico?
Portadores de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e
tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime) agravam
esse sintoma, além de aumentar a profundidade e a frequência das
alucinações. Drogas que produzem psicoses por si próprias,
como metanfetamina, maconha e LSD, podem piorar a doença mental de uma
forma abrupta e veloz.

Que efeitos essas drogas produzem em um cérebro saudável? Em alguém que não tenha esquizofrenia, os efeitos relacionados
com a ansiedade e com a paranoia serão, provavelmente, mais moderados.
Não é incomum, porém, que pessoas saudáveis, mas
com suscetibilidade maior a tais substâncias, possam vir a desenvolver
psicoses.

Estudos conduzidos pela senhora nos anos 80 provaram que a cocaína
tinha, sim, a capacidade de viciar o usuário e de causar danos permanentes
ao cérebro. Até então, ela era considerada uma droga relativamente
"segura". Existe alguma droga que seja segura no que diz respeito
à capacidade de viciar e de causar danos à saúde?
Não
existe droga segura, a não ser a cafeína. Como ela é estimulante
e produz efeitos farmacológicos nos receptores de adenosina, é,
sim, uma droga. Mas não há evidências de que vicie nem de
que seja tóxica – a não ser que você tenha problemas
cardiovasculares. Ainda não sabemos se é prejudicial a crianças
e adolescentes, mas para adultos não há nenhum problema.

E a maconha? Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva.
Trata-se de um erro. Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos.
Ela pode bloquear receptores neurais muito importantes. Estudos feitos em animais
mostraram que, expostos ao componente ativo da maconha, o tetraidrocanabinol
(THC), eles deixam de produzir seus próprios canabinoides naturais (associados
ao controle do apetite, memória e humor)
. Isso causa desde aumento
da ansiedade até perda de memória e depressão. Claro que
há pessoas que fumam maconha diariamente por toda a vida sem que sofram
consequências negativas, assim como há quem fume cigarros até
os 100 anos de idade e não desenvolva câncer de pulmão.
Mas até agora não temos como saber quem é tolerante à
droga e quem não é. Então, a maconha é, sim, perigosa.

A senhora concorda que ela seja a porta de entrada para outras
drogas?
Se você olhar os dados, verá que a maior parte dos usuários
de cocaína começou com a maconha. Mas, ao olharmos os dados de
quem fuma maconha, veremos que essas pessoas geralmente começaram com
cigarros ou álcool. Qual seria a verdadeira droga de entrada, então?
Uma das leituras sobre essa questão é que, durante a adolescência,
as pessoas bebem e fumam cigarros porque esses produtos estão disponíveis
e são legais e, quando crescem, elas se tornam propensas a usar drogas
mais pesadas. Uma leitura alternativa é que a exposição
à nicotina e ao álcool na juventude faz com que as pessoas fiquem
mais vulneráveis aos efeitos de outras drogas. Para mim, essa é
a hipótese correta. A exposição precoce às drogas
muda a sensibilidade do sistema de recompensa do cérebro. Como esse sistema
se torna menos sensível, os dependentes químicos buscam uma compensação
nas drogas.

Por que em geral as pessoas começam a usar drogas na adolescência? O cérebro do adolescente é muito menos conectado do que o de um
adulto. Como resultado, os adolescentes não conseguem controlar e regular
a intensidade de suas emoções e desejos da mesma forma que os
mais velhos. Isso faz com que vivam de maneira mais vigorosa, mas, ao mesmo
tempo, assumam riscos maiores, como experimentar drogas.

O uso de drogas na adolescência é mais perigoso do
que na vida adulta?
Certamente, porque o cérebro de um adolescente é
mais plástico e mais sensível aos estímulos externos que
vão moldá-lo. A forma que seu cérebro vai tomar na idade
adulta depende muito dos estímulos que você recebeu quando criança
e adolescente. O risco de desenvolver o vício também é
maior para o adolescente. O motivo é o mesmo: a plasticidade cerebral
nessa fase, que faz com que o jovem apreenda informações muito
mais facilmente do que o adulto.

Por que é tão difícil quebrar o ciclo de
desejo, compulsão e perda de controle que o vício traz?
É
difícil porque o cérebro, em consequência do uso de drogas,
é modificado de maneira física. A dependência química
é uma doença cerebral que muda a bioquímica, a função
e a anatomia do cérebro. Ocorre da seguinte maneira: todas as drogas
aumentam a concentração de dopamina no cérebro. Quando
o sistema dopaminérgico é ativado vez após outra pelo consumo
repetido dessas substâncias, ele sofre modificações, de
forma que passa a não funcionar mais quando a pessoa não está
sob efeito da droga. Com isso, o usuário procura usar mais drogas –
para tentar compensar esse déficit.

O que faz alguém se viciar em uma droga? Isso pode variar
de pessoa para pessoa e de acordo com o tipo de droga. Mas, de modo geral, é
preciso que a pessoa seja exposta à substância repetidamente. Mesmo
nessas condições, nem todos os usuários se viciam. Porém
cerca de 10% deles desenvolvem o vício depois de pouco tempo de uso.
Nos casos em que isso ocorre, o usuário tem uma vulnerabilidade que pode
ser de ordem biológica ou social. Isso significa que ele pode ter uma
predisposição genética para o vício ou estar sob
algum tipo de stress que ajudou a disparar o gatilho da adição.
Os traumas mais potentes ocorrem na infância: abandono, repetidas negligências,
abusos físicos, sexuais, convivência com pais presos ou portadores
de doenças mentais. Mas é claro que nada disso resulta em vício
se a pessoa não tiver acesso às drogas.

É possível curar o vício? Nós não
podemos curá-lo atualmente, apenas tratá-lo. Quando você
tem uma infecção bacteriana, toma um antibiótico e está
curado. Agora, se você tem asma ou diabetes, tem de tomar algum tipo de
medicamento ao longo de sua vida. É um tratamento para sua condição,
não uma cura. Hoje, existem apenas tratamentos para o vício, que
combinam medicamentos e terapias comportamentais. Estamos desenvolvendo uma
vacina contra o vício de cocaína e nicotina, mas são apenas
pesquisas ainda.

É possível, depois de se reabilitar, voltar a usar
drogas sem se viciar?
Há casos já identificados. Por muito tempo
se disse, principalmente sobre o alcoolismo, que, se você é alcoólatra,
nunca, mas nunca mesmo, poderá chegar perto de novo da droga. Em pesquisas,
há evidências de que alguns alcoólatras conseguem voltar
a beber um ou dois copos de vez em quando sem se viciar, mas eles são
a minoria. O problema é que não sabemos quem será capaz
de se ater a apenas alguns drinques e quem vai se viciar de novo, por isso recomendamos
clinicamente que todos fiquem afastados da droga.

Está em curso no Brasil uma campanha para descriminalizar
a maconha. A senhora concorda com isso?
Não concordo porque, ao descriminalizar
a maconha, você estará contribuindo para que mais gente a consuma.
Há quem não fume por medo da repercussão negativa que a
atitude pode provocar – e descriminalizá-la significa dizer: "Se
você fumar, está tudo bem".

Um grupo de pesquisadores brasileiros está discutindo a
possibilidade de permitir o uso medicinal da maconha. Quais são os benefícios
já comprovados da droga?
As pesquisas mostram que os canabinoides, inclusive
o THC, têm algumas ações terapêuticas úteis.
Por exemplo, diminuem a resposta à náusea, o que é muito
útil para pacientes com câncer que estão enfrentando uma
quimioterapia. Outra vantagem comprovada é que eles aumentam o apetite
e podem ajudar a combater a anorexia que acomete pacientes com doenças
como a aids, por exemplo. Além disso, podem ter benefícios analgésicos
e diminuir a pressão interna do olho, o que pode evitar um glaucoma.
O que nosso instituto apregoa é que você pode ter o benefício
dos canabinoides sem os efeitos colaterais que resultam do fumo da maconha,
como a perda de memória, por exemplo. Por isso, estamos encorajando o
desenvolvimento de medicamentos que maximizem as propriedades terapêuticas
da droga sem seus efeitos danosos. No mercado americano, já existem algumas
pílulas, como a Marinol, que permitem isso.

Em suas pesquisas a senhora descobriu que o córtex orbitofrontal,
a principal área do cérebro afetada por quem tem transtorno obsessivo-compulsivo,
também está ligado ao vício. É essa a chave da compulsão
pelas drogas?
Eu concluí que a pessoa viciada em drogas desenvolve uma
obsessão e uma compulsão pela droga similares às daquela
que tem transtorno obsessivo-compulsivo. O que o vício e o TOC têm
em comum é que ambas as doenças afetam as mesmas áreas
do cérebro, aquelas relacionadas aos hábitos e aos controles.
Mas, embora o local afetado seja o mesmo e a apresentação dos
sintomas se dê de forma parecida, os mecanismos que levam a essas anormalidades
não são.

A senhora também estudou a função da dopamina
em quem come compulsivamente. Que relações se podem fazer entre
a obesidade e o vício em drogas?
Ambos resultam em uma busca compulsiva
por uma recompensa: no caso da obesidade é a comida e no caso da adição
é a droga. Nos dois, há a perda de controle. Quem é patologicamente
obeso come mesmo quando não quer. Podemos dizer que algumas pessoas parecem
ser viciadas em comida, embora até o momento isso não tenha sido
aceito nas comunidades clínica e científica.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton,
disse recentemente que o povo americano tem uma demanda insaciável por
drogas. A senhora acredita que essa demanda é mesmo mais intensa nos
EUA do que em outros países?
O prazer oriundo das drogas é uma
comodidade que você compra, como um luxo. Então há, sem
dúvida, um elemento econômico nessa discussão. Também
existem elementos relacionados à estrutura social e às normas.
Os americanos são mais tolerantes em relação a comportamentos
diferentes do que muitos outros povos. Isso resulta também em maior aceitação
do uso de drogas. 

A senhora nunca sentiu vontade de experimentar alguma droga? Bebo
de vez em quando um copo de vinho e experimentei cigarros quando era adolescente.
Nunca usei cocaína, maconha nem outro tipo de droga ilícita. Amo
meu cérebro e nunca pensei em estragá-lo

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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