O que é um psicopata?

Artigos
edição 181 – Fevereiro 2008
O que é um psicopata?
Cercada de mitos, a psicopatia nem sempre está associada à violência e, ao contrário do que se imagina, pode ser tratada
por Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz

DIVULGAÇÃO
DR. LECTER, psicopata vivido no cinema por Anthony Hopkins

O
termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes
seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão
incompreendidos quanto a personalidade psicopática.

Descrita
pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley,
do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de
comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à
primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são
tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente.

No
entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança.
Com freqüência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente,
exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os
psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são
insensíveis e detestam compromisso.
Sempre têm desculpas para seus
descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com
seus erros ou conseguem frear impulsos.

Não
é de surpreender, portanto, que haja um grande número de psicopatas nas
prisões. Estudos indicam que cerca de 25% dos prisioneiros americanos
se enquadram nos critérios diagnósticos para psicopatia. No entanto, as
pesquisas sugerem também que uma quantidade considerável dessas pessoas
está livre. Alguns pesquisadores acreditam que muitos sejam
bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na
política, nos negócios ou nas artes.

Especialistas garantem
que a maioria dos psicopatas é homem, mas os motivos para esta
desproporção entre os sexos são desconhecidos. A freqüência na
população é aparentemente a mesma no Ocidente e no Oriente, inclusive
em culturas menos expostas às mídias modernas. Em um estudo de 1976 a
antropóloga americana Jane M. Murphy, na época na Universidade Harvard,
analisou um grupo indígena, conhecido como inuíte, que vive no norte do
Canadá, próximo ao estreito de Bering. Falantes do yupik, eles usam o
termo kunlangeta para descrever “um homem que mente de forma contumaz,
trapaceia e rouba coisas e (…) se aproveita sexualmente de muitas
mulheres; alguém que não se presta a reprimendas e é sempre trazido aos
anciãos para ser punido”. Quando Murphy perguntou a um inuit o que o
grupo normalmente faria com um kunlangeta, ele respondeu: “Alguém o
empurraria para a morte quando ninguém estivesse olhando”.

O
instrumento mais usado entre os especialistas para diagnosticar a
psicopatia é o teste Psychopathy checklist-revised (PCL-R),
desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert D. Hare, da Universidade
da Colúmbia Britânica. O método inclui uma entrevista padronizada com
os pacientes e o levantamento do seu histórico pessoal, inclusive dos
antecedentes criminais. O PCL-R revela três grandes grupos de
características que geralmente aparecem sobrepostas, mas podem ser
analisadas separadamente: deficiências de caráter (como sentimento de
superioridade e megalomania), ausência de culpa ou empatia e
comportamentos impulsivos ou criminosos (incluindo promiscuidade sexual
e prática de furtos).

Três mitos

Apesar
das pesquisas realizadas nas últimas décadas, três grandes equívocos
sobre o conceito de psicopatia persistem entre os leigos. O primeiro é
a crença de que todos os psicopatas são violentos.

Estudos
coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo
americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que,
de fato, é comum que essas pessoas recorram à violência física e
sexual. Além disso, alguns serial killers já acompanhados manifestavam
muitos traços psicopáticos, como a capacidade de encantar o
interlocutor desprevenido e a total ausência de culpa e empatia. No
entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta e grande parte das
pessoas violentas não é psicopata.

Dias depois do incidente da
Universidade Virginia Tech, em 16 de abril de 2007, em que o estudante
Seung-Hui Cho cometeu vários assassinatos e depois se suicidou, muitos
jornalistas descreveram o assassino como “psicopata”. O rapaz, porém,
exibia poucos traços de psicopatia. Quem o conheceu descreveu o jovem
como extremamente tímido e retraído.

Infelizmente,
a quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos
mentais (DSM-IV-TR) reforça ainda mais a confusão entre psicopatia e
violência. Nele o transtorno de personalidade anti-social (TPAS),
caracterizado por longo histórico de comportamento criminoso e muitas
vezes agressivo, é considerado sinônimo de psicopatia. Porém,
comprovadamente há poucas coincidências entre as duas condições.
O
segundo mito diz que todos os psicopatas sofrem de psicose. Ao
contrário dos casos de pessoas com transtornos psicóticos, em que é
freqüente a perda de contato com a realidade, os psicopatas são quase
sempre muito racionais. Eles sabem muito bem que suas ações imprudentes
ou ilegais são condenáveis pela sociedade, mas desconsideram tal fato
com uma indiferença assustadora. Além disso, os psicóticos raramente
são psicopatas.

O terceiro equívoco em relação ao conceito de
psicopatia está na suposição de que é um problema sem tratamento. No
seriado Família Soprano, dra. Melfi, a psiquiatra que acompanha o
mafioso Tony Soprano, encerra o tratamento psicoterápico porque um
colega a convence de que o paciente era um psicopata clássico e,
portanto, intratável. Diversos comportamentos de Tony, entretanto, como
a lealdade à família e o apego emocional a um grupo de patos que
ocuparam a sua piscina, tornam a decisão da terapeuta injustificável.

Embora
os psicopatas raramente se sintam motivados para buscar tratamento, uma
pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem, da Universidade da
Califórnia em Irvine, sugere que essas pessoas podem se beneficiar da
psicoterapia como qualquer outra. Mesmo que seja muito difícil mudar
comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar
regras sociais e prevenir atos criminosos.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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