Corpo. Psique e Experiência Humana – Artigo Volich

Corpo, Psique e Experiência Humana

05/05/2009 – 10h22m

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Saúde, sintoma e doença são manifestações de um jogo complexo de forças quase sempre desconhecidas do indivíduo.

Revista Scientific American – por Rubens Marcelo Volich

Mais que uma questão de semântica, antes mesmo de
discussões filosóficas ou embates ideológicos, as relações entre corpo
e psique são uma realidade que sistematicamente se manifesta por meio
da experiência de cada um. Das mais simples vivências cotidianas, como
a aceleração do ritmo cardíaco diante da lembrança de um encontro
amoroso, até as complexas descobertas experimentais da
psiconeuroimunologia que comprovam a redução do número de glóbulos
brancos e das defesas imunológicas em pessoas que vivem momentos
depressivos, a gama de manifestações que revelam as interações
permanentes e indissociáveis entre funções orgânicas e psíquicas é
infinita.

Apesar de seu caráter quase intuitivo e das fortes
evidências encontradas pela pesquisa experimental, em muitas situações
clínicas essas relações são negligenciadas, produzindo situações
paradoxais. Na medicina, apesar dos enormes avanços diagnósticos e
terapêuticos alcançados em todas as especialidades, não são raros os
casos em que os médicos deparam com pacientes cujas queixas e
sintomatologia permanecem refratários a todos esses progressos.

As dificuldades encontradas nessas situações
originaram diferentes termos que tentam descrever os quadros
apresentados por esses pacientes: doenças "funcionais",
"psicossomáticas", "idiopáticas", sintomas de "somatização". Essas
denominações em geral se apresentam como diagnósticos de exclusão,
resultantes da impossibilidade de identificação das dinâmicas
etiológicas das queixas e da sintomatologia ou do caráter surpreendente
de suas evoluções. Os tratamentos prescritos, normalmente sintomáticos,
trazem alívio, porém não resolvem o problema do paciente, que volta a
apresentar os mesmos ou outros quadros sintomáticos e muitas vezes é
submetido a uma sucessão de encaminhamentos a diversos especialistas,
com quem as mesmas dificuldades se repetem.

A necessidade não apenas de reconhecer mas,
sobretudo, compreender e tratar em sua plenitude os fenômenos
relacionados às interações entre corpo e psique deu origem a diversas
hipóteses. Numa perspectiva fenomenológica, Karl Jaspers sugeriu o
termo somatopsicologia para descrever o fato de que toda sensação e
toda reação expressiva manifestam-se por meio de funções corporais que
se prestam como sede da alma, que, por sua vez, determina as qualidades
das experiências dessas funções. Utilizada em 1818 por J. Heinroth, a
palavra psicossomática é atualmente mais conhecida, apesar de
questionada. Por meio dela, muitos modelos teóricos buscam descrever e
explicar as relações causais existentes entre as dimensões corporais e
psíquicas da experiência humana.

Desde seus primeiros modelos, a psicanálise trouxe
importante contribuição a essa investigação. Diante da perplexidade e
incompreensão provocadas nos médicos pelas manifestações corporais
histéricas (paralisias, anestesias, cegueiras, convulsões, entre
outros) e pelos sintomas que pareciam não respeitar organizações
anatômicas, fisiológicas e neurológicas, Freud revelou a existência de
relações particulares entre formas de expressão corporal e dinâmicas
psíquicas. Referidos a uma anatomia imaginária, carregados de
significados, marcados pela história e por episódios específicos da
vida da pessoa, os sintomas histéricos evidenciam a capacidade de
expressão, através do corpo, de um conflito psíquico inconsciente.
Reconhecendo e considerando a importância dos processos somáticos
presentes na sintomatologia, a grande contribuição da psicanálise foi
ter desenvolvido instrumentos específicos para a observação e escuta de
dimensões da experiência do corpo que transcendem o substrato orgânico
dessa experiência prestando-se à manifestação, ao compartilhamento com
o outro e à transformação por meio da linguagem e do universo
simbólico.

Desde o início do século XX, o modelo da histeria
inspirou a investigação das relações etiológicas entre conflitos
psíquicos e diversas doenças orgânicas como asma, eczema, psoríase,
retocolite, úlcera e muitas outras. Até hoje, essa visão conversiva do
adoecer impregna certa compreensão popular do adoecimento, quando se
afirma que uma pessoa "somatiza por problemas emocionais".

  • Efeitos da fragilidade

Porém, ao propor o conceito de neuroses atuais, o
próprio Freud apontou para os Iimites do modelo da conversão histérica
(uma psiconeurose) para a compreensão de algumas expressões e doenças
orgânicas. Diferentemente das organizações histéricas, nas quais é
possível encontrar sentidos simbólicos para os sintomas, ele i observou
que nas neuroses atuais  (neurose de angústia, neurastenia e
hipocondria) parecia haver uma descarga direta da excitação pulsional
pelas vias somáticas com pouca ou nenhuma elaboração mental da
excitação, nem deri vação ou correspondência com dinâmicas psíquicas.
 

Por causa dessas características, Freud
desaconselhava o tratamento psicanalítico para pacientes com neuroses
atuais e doenças orgânicas. Sandor Ferenczi reconheceu as dificuldades
apontadas por Freud para o tratamento dessas manifestações, porém
insistiu na importância do referencial teórico que a psicanálise vinha
desenvolvendo para a apreensão da experiência subjetiva e para o
acompanhamento clínico dos pacientes com doennças orgânicas, tanto no
âmbito da própria psicanálise como no meio médico. Ferenczi sugeriu a
necessidade de outra postura do terapeuta e de modificações no
dispositivo clínico para lidar com esses pacientes, ao mesmo tempo que
propunha a sensibilização dos médicos para as vivências psíquicas de
seus pacientes, um caminho pelo qual enveredaram todos os pioneiros da
psicossomática como Georg Groddeck, Felix Deutsch, Franz Alexander,
Ballint e muitos outros.

Na esteira desses pioneiros (e de Melanie Klein,
René Spitz, Donald Winnicott, Pierre Marty, Pierre Fédida, e vários
outros) desenvolveu -se toda uma vertente teórico-clínica que,
ampliando a compreensão da metapsicologia psicanalítica, atualmente
oferece possibilidades de tratamento não apenas para pacientes que
apresentam sintomatologia orgânica, mas também psicóticos, borderlines,
adictos e com transtornos de caaráter, ou seja, pessoas que vivem os
efeitos das fragilidades decorrentes da precariedade de suas vivências
infantis, de seu desenvolvimento, do esgarçamento de seu tecido
psíquico, de suas fragilidades narcísicas, da pobreza de seu mundo
objetal e de representações.

Com efeito, apesar das diiferenças entre essas
formas de manifestação, a clínica revela a existência de uma perfeita
continuidade funcional e de modos de organização entre esses quadros,
tanto do ponto de vista do desenvolvimento humano, como no da
manifestação patológica.

A partir dessa constatação, a psicossomática
psicanalítica apresenta uma perspectiva teórica e clínica que permite
compreender que as manifestações ou as queixas centradas no corpo são
apenas uma das modalidades possíveis de expressão do sofrimento humano.

Por sua vez, apesar da predominância da expressão psíquica, os sintomas
psicopatológicos consstituem outra vertente para a manifestação desse
sofrimento. Mesmo considerando os mecanismos fisiológicos e
psiconeuroimunológicos implicados nesses processos, é fundamental
compreender a perspectiva intersubjetiva e histórica segundo a qual se
desenvolvem e se organizam esses mecanismos em suas relações com as
funções psíquicas e com a regulação do funcionamento vital. A
preponderância de uma ou outra dessas formas de expressão é fruto da
história de cada um, no contexto de uma interação permanente entre
fatores constitucionais, condições do ambiente e suas experiências de
vida, modeladas pelo tecido relacional estabelecido, desde o
nascimento, com as demais pessoas de seu convívio.

Ao longo da vida, somos permanentemente confrontados
com exigências, incitações e apelos que partem do interior de nosso
organismo (instintos, processos biológicos, pulsões), da realidade em
que vivemos (ambiente, condições e recursos sociais), e das pessoas que
nos cercam (família, amigos, colegas de trabalho, comunidade). Os
complexos mecanismos metabólicos do corpo, por exemplo, exigem o aporte
de carboidratos, proteínas e sais minerais, entre outros, que, por meio
da sensação de fome! mobilizam-nos a buscar alimentos capazes de
acalmá-Ia e de satisfazer necessidades físicas.

  • História de vida

Diante das ameaças da natureza ou da civilização,
desde sempre buscamos abrigo. A necessidade de sobrevivência e de
proteção incita formas de organização coletiva. Ao mesmo tempo que
tentam criar maneiras mais eficientes de produzir recursos, regras de
convivência e leis regulam, mas muitas vezes cerceiam comportamentos e
iniciativas individuais.

Para lidar com exigências e necessidades como essas,
e com muitas outras, o ser humano busca em princípio alcançar os
melhores recursos possíveis. Seu grau de desenvolvimento, eficiência e
qualidade dependem de sua história de vida: seu patrimônio genético,
suas experiências infantis, suas condições materiais de vida, suas
experiências afetivas, relacionais, socioculturais, etc. Nesse
contexto, modulado pelas relações com seus semelhantes, gradualmente se
desenvolvem recursos orgânicos, comportamentais e psíquicos.

A filogênese revela que, ao longo da evolução, os
seres vivos mais complexos e mais tardios apresentam características
moldadas a partir daquelas presentes em seres mais simples e
primitivos. Na ontogênese, o desenvolvimento de cada ser humano se
inicia através de seu elemento mais essencial, a reprodução celular,
formando estruturas e funções de compexidade crescente. Durante a
gestação, a partir de uma única célula indiferenciada, formam-se
gradativamente os tecidos, os órgãos, os sistemas vitais, o feto como
um todo. Após o nascimennto, o bebê integra de maneira cada vez mais
específica e diferenciada movimentos e funções antes desorganizados: a
convergência ocular, a coordenação motora, a discriminação auditiva, o
reconhecimento e a distinção entre seres familiares e estranhos, a
memória, a imaginaação, o pensamento, a linguagem, entre outros.

Apesar de "completo" do ponto de vista biológico, ao
nascer o bebê é um ser imaturo e desamparado, por si só inviável para a
sobrevivência. Sua vida e seu crescimento dependem da presença de outro
ser humano, geralmente os pais, que além de satisfazer suas
necessidaades vitais (alimentação, proteção, cuidado), assumem
inicialmente funções que o bebê ainda não é caapaz de assumir
(reconhecer, discriminar, agir, pensar), protegendo-o de estímulos que
ele é incapaz de assimilar, de ameaças que não pode reconhecer nem
evitar.

  • Hierarquias e dinâmicas

Podemos pensar na função materrna como uma "película
protetora", pela qual o adulto de certa forma "empresta" ao bebê seus
próprios recursos enquanto os da criança ainda não puderem se
desenvolver. Essa dinâmica continua se manifestando sob as mais
diversas formas por meio de inúmeras pessoas ao longo de toda a vida e
constitui importante paradigma para a função terapêutica, é essencial
para o amadurecimento e o equilíbrio da economia psicossomática do
bebê, para a integração das funções orgânicas, motoras e psíquicas. As
condiçôes promovidas pela função materna propiciam à criança a
descoberta e o acompanhamento de seus próprios ritmos, a percepção, a
interpretação e a resposta aos contatos corporais, as vocalizações e os
gestos do bebê, e a organização de seus comportamentos e funções.

Uma vez presentes as mínimas condições necessárias,
no contexto das relações vividas pelo sujeito, as interações entre
funções corporais e psíquicas constituem organizações, estruturas,
hierarquias e dinâmicas cada vez mais complexas. O objetivo da
complexificação do desenvolvimento humano é responder aos estímulos e
solicitações internos e externos e assegurar o equilíbrio de vida do
sujeito pelas organizações e modos de funcionamento mais evoluídos.
Porém, perturbações do desenvolvimento ou situações desorganizadoras do
equilíbrio vital podem impedir a formação ou a utilização de recursos,
que se revelam insuficientes para lidar com a intensidade das
solicitações e com as condições a que se encontra submetido. Para
alcançar ou recuperar seu equilíbrio, as interações entre corpo e
psique podem responder a essas solicitações por meio de reações
anacrônicas, primitivas, menos elaboradas do que é ou já foi capaz.

Apesar de potencialmente orientar-se para a formação
de funções cada vez mais complexas, organizadas e hierarquizadas, o
equilíbrio da economia psicossomática é algumas vezes alcançado pelo
desencadeamennto de movimentos regressivos e de desorganização,
mobilizando modos de funcionamento mais primitivos. Segundo o
psicanalista francês Pierre Marty ( 1918 -199 3 ) , o adoecimento,
orgânico ou psíquico, pode ser um dos recursos para a regulação da
homeostase do indivíduo, de suas relações com o meio e com os outros
humanos.

As vias orgânica, motora e de pensamento representam
nessa ordem uma hierarquia progressiva de recursos a serem utilizados
com tal finalidade. Os recursos psíquicos são o grau economicamente
mais elaborado de organização e funcionamento, por permitirem que sejam
poupados recursos da motricidade e da desorganização somática, mais
primitivos, menos "eficientes" para lidar com estímulos e conflitos.

Consideremos, por exemplo, diferentes reações diante
de uma demissão injusta. Um trabalhador reage escrevendo uma carta de
protesto à direção da empresa, buscando negociar com os responsáveis
por sua demissão. Outro, incapaz dessas atitudes, exprime sua revolta
chutando o carro do responsável por recursos humanos. Um terceiro, sem
conseguir realizar as ações precedentes, pode acatar a decisão em
silêncio, aparentemente sem nenhuma contrariedade e, mais tarde,
apresentar algum tipo de disfunção somática.

Na vida, muitas situações costumam provocar esses
três tipos de reação, com diferentes consequências em benefício ou
prejuízo do sujeito. De forma esquemática, elas evidenciam três
modalidades hierarquicamente diferentes de organização dos recursos
psiicossomáticos para lidar com as exigências vitais, com os outros e
com a realidade e conflitos que deles decorrem. Naturalmente, além da
demissão, comum aos três, o segundo trabalhador corre o risco de pagar
os danos que provocou ao carro do diretor, e o terceiro pode ter um
comprometimento de gravidade variável de sua saúde.

  • Recursos psíquicos

Marty destaca a importância dos recursos psíquicos,
por ele denominados mentalização, como reguladores da economia
psicossomática. A mentalização consiste em operações de representação e
simbolização através das quais o aparelho psíquico busca regular as
energias instintivas e pulsionais, libidinais e agressivas. A fantasia,
o devaneio, o sonho, a criatividade, os recursos metafóricos da
linguagem são portanto funções essenciais de regulação do equilíbrio
psicossomático. Falhas durante o desenvolvimento ou experiências de
vida desorganizadoras, traumáticas, comprometem a estrutura, o
funcionamento e a disponibilidade dos recursos psíquicos, de forma
duradoura ou temporária. Diante dessas deficiências e da
indisponibilidade dos recursos mais evoluídos são mobilizados recursos
mais primitivos, da ordem da motricidade ou mesmo da exacerbação de
reações orgânicas como tentativas para reequilibrar a economia
psicossomática.

Observando pessoas que tendem a reagir aos conflitos
internos e externos através de manifestações somáticas, Joyce McDougall
relata que muitas delas se revelam superadaptadas à realidade e mesmo
às dificuldades de sua existência. Em seu comportamento, as pessoas são
frequentemente impelidas à ação em vez de lidar com os conflitos pela
elaboração psíquica, solicitando permanentemente dos objetos do mundo
exterior a realização de funções que deveriam ser asseguradas por
objetos internos simbólicos ausentes ou comprometidos. Muitos dos
pacientes que apresentam esse tipo de comportamento procuram seus
médicos completamente alienados de outros sofrimentos que não os
corporais. Por seu caráter concreto, real e urgente, os sintomas
orgânicos capturam o médico e o paciente numa visão limitada da vida e
da doença deste.

A impossibilidade do desenvolvimento dos recursos
mais evoluídos da economia psicossomática ou a desorganização desses
recursos em situações críticas de vida podem tornar uma pessoa
vulnerável às afecções somáticas, a comportamentos de risco como
adições, atos impulsivos e acidentes. As três vias possíveis para lidar
com as solicitações vitais e do ambiente – orgânica, motora e de
pensamento – são também os caminhos potenciais da doença.

O indivíduo bem organizado no plano psíquico poderá
apresentar, em decorrência de uma situação conflitual, manifestações
psicopatológicas, da ordem das neuroses ou das psicoses, de intensidade
e duração variáveis, geralmente sem maiores riscos de desorganizações
comportamentais ou somáticas. A pessoa com falhas estruturais ou agudas
das funções psíquicas pode tentar encontrar, através da motricidade ou
das vias orgânicas, as vias de descarga e de organização da excitação e
dos conflitos vividos por não dispor de recursos mentais (sonhos,
fantasias, mecanismos de defesa psíquicos) para lidar com essas
experiências. Observa-se então a manifestação de descargas pelo
comportamennto (impulsividade, toxicomanias, transtornos de caráter),
ou ainda, como último recurso, o aparecimento de perturbações,
sintomatologias e doenças somáticas.

É importante considerar que, apesar de seu caráter
mais primitivo e desviante, toda doença – mental, comportamental ou
somática – é ainda uma tentativa do humano de alcançar um equilíbrio. A
gravidade dessa doença depende da qualidade dos recursos do sujeito
para enfrentar tensões e conflitos mas também da intensidade e da
duração destes. A manutenção do equilíbrio psicossomático em patamares
mais primitivos dependerá da duração da tensão e da capacidade do
organismo de reorganizar-se para responder de maneira mais elaborada a
tais situações.

Assim, evidencia-se que o caráter traumático de uma
experiência não é inerente à natureza de um acontecimento (a perda de
um ente querido ou uma frustração, por exemplo), mas depende da
conjunção das intensidades afetivas mobilizadas por tais acontecimentos
com os recursos dos quais dispõe o indivíduo para lidar com eles. Ou
seja, algumas pessoas fragilizadas do ponto de vista da economia
psicossomática podem ficar bastante perturbadas diante de
acontecimentos de intensidade leve ou moderada (frustração por uma
derrota esportiva) enquanto outras, mais bem estruturadas, conseguem
preservar sua organização e lidar de forma satisfatória com
acontecimentos intensos (como a morte de um próximo).

  • Efeitos negativos

É evidente, portanto, a importância e o interesse
para todos os profissionais da saúde, e para o médico em particular, de
ampliar seus recursos diagnósticos e terapêuticos de forma a incluir a
compreensão da economia psicossomática do paciente. A avaliação dos
elementos clínicos, anatomofisiopatológicos, bioquímicos e radiológicos
geralmente utilizados para o diagnóstico e para acompanhar a evolução
do paciente é enriquecida quando se consideram os recursos deste para
lidar com suas situações de vida, com os conflitos a ela inerentes e
com a própria doença. No plano terapêutico, os tratamentos médicos
podem ser potencializados por técnicas que enriquecem e promovem os
recursos da economia psicossomática para propiciar ao paciente o
funcionamento segundo níveis mais evoluídos.

Vários autores apontam que ainda é grande a
dificuldade dos médicos de diagnosticar e tratar a pluralidade e a
heterogeneidade de manifestações dos fenômenos de somatização, bem como
de reconhecer o sofrimento psíquico (como depressão e ansiedade)
subjacente à sintomatologia orgânica. Essas dificuldades são
perturbadoras para o paciente, provocando efeitos negativos na relação
terapêutica e no tratamento, sendo também responsáveis pelo excesso de
procedimentos médicos e pela insatisfação com o médico e com o serviço
de saúde.

O enfoque quase exclusivo na queixa somática faz com
que as dificuldades diagnósticas ou a impossibilidade de descobrir as
causas orgânicas de tais queixas sejam ansiógenas para o paciente,
muitas vezes sem que o médico consiga lidar com elas. O conhecimento
das dinâmicas subjacentes à economia psicossomática pode ser um meio de
superar grande parte dessas dificuldades e suas consequências,
diminuindo as consultas e os procedimentos desnecessários, com seus
eventuais efeitos iatrogênicos.

Também no âmbito psicoterapêutico é fundamental
perceber e lidar com os efeitos das desorganiizações e das
manifestações corporais do sofrimento. Há momentos em que a palavra, a
interpretação e a transferência chegam a seus limites, e é através de
atuações e expressões corporais que o paciente ainda tenta comunicar-se
com o terapeuta. Ele é convocado ao encontro do paciente nos terrenos
mais primitivos da existência deste, que muitas vezes se coloca em
risco através de adições, atuações impulsivas ou mesmo doenças graves.

Ao compreender a função dessas manifestações no
momento vivido por quem o procura, o psicoterapeuta pode ajudar a
promover no paciente seus melhores modos de funcionamento com relação
aos recursos que lhe são imediatamente disponíveis. O horizonte
terapêutico visa propiciar a evolução e o enriquecimento dessas
capacidades e, em especial, dos recursos psíquicos e representativos,
através de um trabalho de figuração, de criação e instalação do espaço
onírico e lúdico. A descrição da instauração do espaço potencial e da
constituição dos objetos transicionais, feita por Winnicott, é
pertinente para a compreensão dos movimentos fundamentais dessa
verdadeira clínica das desorganizações.

Percebemos, portanto, a importância de considerar,
na clínica e no tratamento, a história do desenvolvimento do paciente
que evidencia a inter-relação permanente de fatores orgânicos,
psíquicos e o meio ambiente, mediados pela qualidade da presença de
seus semelhantes. É nesse contexto que se organiza a economia
psicossomática que, no processo de vida, pode em alguns momentos
encontrar seu equilíbrio tanto em condições saudáveis como em processos
patológicos.

A saúde, o sintoma e a doença são manifestações que
resultam de um jogo complexo de forças quase sempre desconhecidas do
indivíduo. Diante do sofrimento, paciente e terapeuta devem não apenas
eliminá-lo mas compreender a história da qual ele se constituiu. Não se
trata apenas de tentar atribuir um sentido a essa história. Trata-se,
sobretudo, de propiciar ao paciente um acolhimento e uma escuta que,
simultaneamente aos procedimenntos necessários ao tratamento e à cura
das manifestações somáticas de uma doença, possam também promover o
desenvolvimento de recursos que lhe permitam lidar com conflitos e
impasses da vida com menos riscos à integridade física e à própria
existência. Através dessa função terapêutica, esperamos também que essa
pessoa que sofre consiga realizar-se através de modos de vida mais
satisfatórios. 

Saiba mais 

As pslconeuroses de defesa. Sigmund Freud. Edição standard brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud (E.S.B.) III. Imago, 1981.
A nova criança da desordem psicossomática. L. Kreisler. Casa do Psicólogo, 1999.
A psicossomática do adulto. P. Marty. Artes Médicas, 1994.
A clínica dos farrapos, por uma clínica psicanalítica das desorganizações. R. Volich, em Percurso, nº 24, págs. 85-98, janeiro de 2005.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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