Haiti

Célula psicológica atende pessoas traumatizadas no Haiti


1 hora, 31 minutos atrás

PORTO PRÍNCIPE (AFP) – Socorristas, soldados da ONU e jornalistas
traumatizados após presenciarem o espetáculo de dor e destruição, com
corpos amontoados pelas ruas, depois do terremoto que devastou Porto
Príncipe, encontram no acampamento da Minustah uma célula de apoio
psicológico da ONU, criada especialmente para essas circunstâncias.

"Atendemos
a cem pessoas por dia", explica à AFP Youssoupha Niang, a psiquiatra
que criou esta célula no dia seguinte à tragédia. Mais de duas semanas
após o terremoto de 12 de janeiro, que deixou pelo menos 170 mil mortos
e milhares de desaparecidos, a equipe de sete psicólogos atendeu a mais
de 2 mil pessoas.

A Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah) sofreu um duro
golpe: 84 empregados, entre eles o chefe da Minustah Hedi Annabi,
morreram no terremoto e outros 15 foram declarados desaparecidos.

Em cima de uma mesa, um manual de instruções indica "o que deve ser
feito e o que não deve, logo após uma comoção desse tipo": "não beba
muito álcool, continue trabalhando, e não finja que está tudo bem".

"Os casos mais comuns são os de quem cuidou de cadáveres", explica
Niang. "Alguns jamais tinham visto um cadáver, ou pelo menos não
tantos. O sentimento de impotência é imenso e os sintomas se
manifestam", explica a psiquiatra.

Niang atendeu a repórteres, principalmente fotógrafos e
cinegrafistas, "estas pessoas que se aproximaram da realidade através
de suas lentes, que sobre o papel parecem ter distância, e que tiveram
que seguir fazendo seu trabalho".

Ainda assim não fala do "PTSD" (Post Traumatic Stress Disorder), um
estado de estresse pós-traumático que não é diagnosticado até um mês
depois do ocorrido. "Por enquanto, se trata de um estresse agudo e de
fadiga", explica a psiquiatra. Ela destaca sinais de hiperatividade,
hipervigilância constante, particularmente na base da ONU. "Dizemos a
eles para evitarem beber café que não faz mais que juntar hormônios de
estresse e fadiga no coração", adverte a psiquiatra. Os que deixaram de
fumar voltaram com o vício.

"Geralmente um sentimento de impessoalidade se apodera dos que
tinham uma posição de autoridade e que após o ocorrido se sentem
impotentes", afirma Ana Estrada, uma das psicólogas da equipe.

Há alguns que emagrecem em poucos dias: "emagrecem ainda que comam,
já que a hiperatividade é tão grande que o que comem acaba não
compensando o que perdem".

Alguns têm perdas de memória: "não se lembram da conversa que
tiveram minutos antes". Sem contar com insônia, aparecimento de
hipertensão arterial e até perdas de sensações, uma maneira de se
proteger que, como se fosse uma anestesia, faz a pessoa não sentir mais
sua mão, por exemplo.

Curiosamente, as mulheres parecem resistir melhor psicologicamente,
comenta Niang. "No plano psicológico parecem se adaptar melhor podendo
até mesmo se dedicarem às suas tarefas sem perder o controle
emocional", explica.

Muito poucos recebem uma prescrição médica. Entretanto, muitos
recebem a indicação de alguns dias de repouso para saírem do inferno da
capital destruída.

Marceus-Yves Joseph, um haitiano de 31 anos e integrante da
Minustah, sai de uma consulta. "Vi muitos feridos embaixo de casas
derrubadas e há 15 dias que não consigo entrar em um lugar com um teto
e fico apenas embaixo das estrelas. Mas não durmo mais e isso tem
tendência a piorar", afirma o homem de 1,90 metros de altura, com
lágrimas nos olhos enquanto fala sobre ir dormir à noite.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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