Freud, em permanente ebulição

30/01/2010 – FOLHA DE S. PAULO

Freud, em permanente ebulição

José Andrés Rojo
Em Madri

Desde 1º de janeiro as obras do pai da psicanálise ficaram livres de direitos no mundo inteiro, exceto na Espanha

Desde 1º de janeiro, as obras de Sigmund Freud, o pai da
psicanálise, ficaram livres de direitos autorais no mundo inteiro.
Exceto na Espanha, onde devido a uma disposição transitória da lei de
propriedade intelectual continuam vigentes até 2019. Na França a
notícia mobilizou as editoras, e ao longo do ano serão traduzidos por
diversos selos vários textos do fundador da psicanálise. Tal rapidez de
reflexos indica que Freud continua conquistando leitores e que sua obra
mantém seu virulento poder de agitar o debate intelectual?

  • Livres de direitos autorais no mundo inteiro,
    obras de Freud seguem interessando gerações

Sigmund Freud (1856-1939) veio questionar que o sujeito governasse
sua vida com total autonomia, como se acreditava até então. Em
condições normais, contou em "O Mal-estar da Cultura", o ego "se
apresenta como algo independente, unitário, bem demarcado diante de
todo o resto". Mas, acrescentou, esse ego se prolonga "para dentro, sem
limites precisos, com uma entidade psíquica inconsciente que
denominamos id, ao qual vem a servir de fachada". Por isso não sabemos
grande coisa do que ocorre por essas zonas interiores, explicou, onde
operam muitos desejos sexuais reprimidos.

Médico de formação, Freud investigou esses territórios obscuros para
encontrar a maneira de curar determinados transtornos psicológicos. Daí
surgiu uma nova escola, e sua correspondente terapia, a psicanálise.
Mas o que fez principalmente esse brilhante senhor vienense foi mudar
nossa maneira de entendermos a nós mesmos e ao mundo.

"Pode-se acreditar ou não na psicanálise, como se pode ser ou não
marxista, entretanto as contribuições de Freud são indiscutíveis",
comenta Antonio Valdecantos, um filósofo que ensina na Universidade
Carlos 3º de Madri e que publicou há pouco tempo "La fábrica del bien"
(ed. Síntesis). "Todo mundo sabe hoje que o ego não é transparente, nem
está sempre disponível. Ninguém discute que haja zonas obscuras e que
por mais liberdade que se possa ter nossa sexualidade continuará sendo
opaca."

Carlos Gómez Sánchez, autor de "Freud y su obra: Génesis y
constitución de la teoría psicoanalítica" (ed. Biblioteca Nueva),
entende que o médico vienense soube vincular de maneira muito frutífera
a sexualidade com a cultura, o desejo com a norma. Por isso considera
que sua influência pode ser localizada em boa parte das referências
intelectuais do século 20, começando pela fenomenologia e passando por
Sartre, Fromm ou Bloch até chegar a Deleuze. "Há duas questões que me
preocupam a propósito de seu legado", explica. "Em primeiro lugar, que
não sejam levadas a sério suas contribuições e que sua obra se banalize
e vulgarize. Ou, pelo contrário, que se entendam suas teorias como uma
nova pedra filosofal, com o que a psicanálise poderá se transformar em
uma péssima metafísica. Freud não é nenhum molho que sirva para
enfeitar todos os pratos."

Em geral não há discussão: Freud é um clássico, faz parte do
patrimônio intelectual de nosso tempo, dinamitou a maneira de entender
o sujeito enquanto tentou tratou da força da libido.

Fernando Savater, em um artigo sobre o fundador da psicanálise,
lembrou-se da definição que Chesterton deu em sua biografia de Dickens
do que é um clássico: "Um rei do qual já se pode desertar, mas que não
há modo de destronar". A citação veio a calhar, porque se alguém teve
discípulos dispostos a questioná-lo foi Freud. Mas ninguém foi tão
longe quanto ele na hora de mostrar o fundamental. É "invulnerável",
escreveu Savater, apesar de ter sido muitas vezes traído. E anotou que
a mais escandalosa dessas tradições foi a estilística. "É interessante,
é detalhista, é pedagógico", dizia sobre Freud, "não renuncia às
imagens nem as confunde com as explicações, pertence à cultura da
sinceridade."

Continuam, portanto, vivos seus conceitos e sua lucidez na hora de
diagnosticar nossas complicações. E sua terapia? Francisco Granados,
que é analista há mais de 30 anos e dirige a revista da Associação
Psicanalítica de Madri, responde no intervalo entre duas sessões. "O
que podemos oferecer a quem nos consulta é a maneira de encontrar suas
pulsões, seus medos, sua sexualidade, seus problemas na relação com os
outros… mas a cura é algo que fica no ar: está em suas mãos seguir ou
não o caminho proposto." Voltando a Freud, Granados insiste em um
detalhe que nem sempre é valorizado em sua obra: que não há psicanálise
se não for social. "Sem o outro não somos nada", afirma.

O escritor Andrés Barba, que ganhou com Javier Montes o Prêmio
Anagrama de Ensaio com o livro "La ceremonia del porno", observa que,
por mais permissiva que possa ser a sociedade atual na hora de difundir
imagens sexuais, "a pornografia não resolve nada de nossa relação com
os outros". "É um canal que nos permite o acesso a uma informação
ilimitada sobre as práticas menos ortodoxas", diz, "mas não vai além."

Freud nos permitiu "ser conscientes de que existe uma série de
processos que ocorrem de maneira soterrada, inconsciente, mas tanta
consciência não consertou grande coisa". Abriu, isso sim, imensos
caminhos para a literatura ao "transformar a nós mesmos em objeto de
observação". Esse interesse continua aí. Será por isso que, como afirma
Antonio Valdecantos, Freud continua sendo lido. E certamente será ainda
mais, agora que em quase todo lugar sua obra ficou livre de direitos
autorais.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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