AMOK – Novembro/2009

AMOK

 

Novembro/2009

 

 

            Ao reler o texto minhas impressões e
sensações foram mais intensas e muito diferentes do que a primeira vez. Provavelmente
por ter me proposto a sentir, ao invés de analisar teoricamente.

A
viagem proposta pelo personagem, logo me remete a busca do ser humano pelo
auto-conhecimento, ou como na maioria das vezes, a “cura” de seu sintoma e ou
doença. Logo não me surpreende, que no início desta longa jornada, encontra uma
cabine péssima: um cubículo apertado…
cheirava a óleo e mofo”
. Um “ruído” que incomoda, um gemido que crepita com
todas as incertezas e inseguranças afloradas. A única certeza talvez seja que
“algo precisa ser feito”, tal como a viagem, mesmo que em péssimas condições, e
mesmo que sem condição nenhuma de enfrentar nossos próprios fantasmas.

            A viagem se inicia… As angústias,
sensações, cheiros, reações, medos, começam a ser vivenciados. A busca pela
ressignificação, ou talvez hoje com pouco mais clareza, da mentalização, a meu
modo de ver inicia-se apenas com a observação. Perceber-se. Penso que este é o
processo inicial do todo extenuante e infindável trabalho do auto-conhecimento.

            De repente, a estranha sensação
relatada pelo personagem “o estranho e
horripilante sentimento de estar sentado silenciosamente bem junto de uma
pessoa oculta na escuridão”
me faz perceber a angústia sentida pelo
“viajante” diante da sua primeira consulta do terapeuta. Palavras com poucos
significados, gestos inseguros, apenas me passando pela cabeça que o grande
questionamento é “será que realmente preciso desta viagem, quão necessária é
para mim”.

            Sou tomada pela sensação de
familiaridade. Hoje, também sentada do outro lado, consigo sentir a angústia
vivida pelo personagem ao decidir-se embrenhar nesta extenuante e linda
jornada.

            O silêncio que muitas vezes nos
deparamos na clínica, me faz pensar na capacidade que temos ou não conter as
angústias sentidas por nossos pacientes. Exatamente como “o viajante”… o silêncio sufocava e oprimia com o ar
dos trópicos.
Muitas vezes o silêncio não ocorre somente durante a sessão.
Silêncio angustiante e aterrorizante quando percebemos que nosso paciente pode
não estar evoluindo ou “melhorando” como gostaríamos, como nosso tirânico
narcisismo desejaria.

            O encontro com o estranho indivíduo
me remete a estranheza causada pelo auto-conhecimento. Quem sou eu? Quem serei?
O que acontecerá? Estranheza que o terapeuta sente. Quão significativas são
minhas interpretações, teorias e técnicas são úteis, significativas ou ainda ajudam
vida deste sujeito?

            Mas o desejo, ou talvez necessidade
desta viagem continua.. “Fatos
enigmáticos, de natureza psicológica, exercem sobre mim um poder perturbador.
Sinto-me visceralmente excitado em descobrir os contextos, e pessoas estranhas
deflagram em mim, por sua mera presença física, uma paixão de querer saber mais
sobre elas…
“ Sinto-me assim na maioria das vezes. “Pessoas” sempre me
causaram os mais inebriantes, intensos e diversos sentimentos. Algumas apenas uma
enorme curiosidade em participar de suas vidas tão interessantes, outras
desinteresse total, apenas de compartilhar alguns momentos somente. Como aliar
a “profissão” de terapeuta com uma característica de personalidade tão marcante?
Talvez apenas respeitando minhas sensações e impressões.

            Ao descrever a “prática sufocante de reprimir dentro de mim mesmo… não posso mais
ficar na cabine, naquele caixão..”
me faz sentir como muitas vezes estando
diante do paciente não podemos dizer o que de fato pensamos e sentimos, pois
sabemos que não é o momento. A angústia sentida diante de muitos atendimentos,
os quais tive, e naquele momento não pude dividir com ninguém. O vazio, o
silêncio dos meus próprios pensamentos. Esperar.. sentir… perceber.. qual
momento certo de atuar. Muitas vezes nem atuar, apenas “estar”. Angústia
sentida cotidianamente, quando temos que representar diversos papéis, por mais
livre que “imaginamos” ser.

            “Procurar
ser o salvador, o grande salvador do mundo, apenas porque se tem o diploma
escrito em latim?”
, me faz relembrar a pretensiosa e ingênua sensação que
tive durante muitos na faculdade. Salvarei todo mundo! Ajudarei pessoas! As
teorias e muitos profissionais ajudam a construir e solidificar esta sensação. Saímos
com o “diploma em latim” e começamos
a atuar, e percebemos e sentimos que na verdade pouco sabemos sobre o ser
humano, por mais que se estude, se conheça, nossas angústias, dúvidas,
incertezas permanecerão eternas, a cada nova jornada. Tenho a sensação que este
é o grande aprendizado. Apenas conter, as nossas e dos outros, eternas
angústias diante da imprevisibilidade.

            “Mais
cedo ou mais tarde, todos caímos num vício: alguns passam a beber, outros a fuma
ópio, outros ainda entregam-se às brigas e barbaridades – todos acabam
recebendo sua porção de loucura.”
Me faz pensar na loucura que é tentar
continuar nesta “viagem”. Quantas vezes pensei, e não posso negar ainda penso, por
desistir da minha própria viagem e ajudar outras pessoas se enveredarem por este
tão louco e intricado caminho Quantas e quantas vezes questionei se valeria a
pena continuar, a buscar, a entender, amadurecer, sentir. Até aceitar minha
própria fragilidade, falibilidade e impotência até mesmo diante de minhas
próprias angústias.

            Ao relatar seus sintomas, “coisas de mulher, vertigens, desmaios. Hoje
de manhã, perdi de repente os sentidos quando fizemos a curva com o carro…”
Lembrei-me
da primeira paciente que atendi na época da faculdade. Quanta angústia,
insegurança diante de um quadro clássico de histeria conversiva. Quis continuar
mesmo depois de o seu atendimento ter sido encerrado. Todos meus intensos
esforços foram recompensados e sentidos por ela. “Ao encerrarmos disse-me:” é… acabou.. não dá mais né? Não tem
ninguém mais atendendo.. só você… Pois é… tem uns que fazem pra ter fama,
outros fazem só pra cumprir… ou fazem por dinheiro… mas tem aqueles que
fazem por amor…”
Praticamente impossível segurar a emoção. Mas que bom
analista chora na frente de seu paciente? Consegui segurar a emoção, me
despedir, até a paciente virar as costas e sentar na escada pra chorar. Um
choro de felicidade. Eis o fato algo que move verdadeiramente o ser humano
enfrentar todas as dificuldades e vicissitudes desta jornada. Pequenos, mas
intensos e verdadeiros momentos de felicidade. Será este o sentido de enfrentar
essa busca? Muitas vezes questiono se não é apenas o que temos que fazer.
Afinal, ouvimos, aceitamos sem julgar, ou pelo menos tentamos, acolhemos. Seria
este o amor incondicional tão buscado e pouco sentido e vivido? O que posso
afirmar, é que neste momento foi quando pude apenas perceber uma sensação invadindo
meu corpo e pensar: vale a pena continuar.

            Pensar na grande angústia e
necessidade que o sujeito tem ao nos encontrar, como se tivéssemos uma “poção
mágica” que pudesse aliviar todas suas angústias, conflitos e inseguranças, realmente
como se fossemos seus salvadores, me faz acreditar na responsabilidade que nos
é imposta. Mal sabem que sentimos as mesmas coisas. Lembro-me da fisionomia
desesperada de um paciente que me pressionava para obter respostas, e ao
dizer-lhe que não as tinha, disse-me: “se você não as tem, quem as terá?”.
Disse-lhe: “você mesmo”. A tensão, a angústia, o desespero pairou no ar
causando um silêncio devastador, pensei naquele momento: “quem sou eu pra dizer
pra alguém que conhece e vive a própria história, o que é melhor pra ele”.

            Afinal, o que é AMOK? Um estado de
loucura incessante por suas próprias verdades, desejos, realizações, satisfações
e felicidade? O que é loucura? O que é doença e o que é saúde? Doença é algo
apenas diagnosticado pelos médicos? Me recordo de uma frase: “A saúde é a percepção real daquilo que
somos (Edward Bach).
Todos esses questionamentos me fazem querer aprender,
amadurecer e me lembra uma música que hoje, e não sei até quando, que me define
como terapeuta: “todos os dias é um vai e
vem a vida se repete na estação, tem gente que chega pra ficar, tem gente que
vai pra nunca mais, tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer
ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar…. a
plataforma dessa estação, é a vida, esse é o meu lugar..”.
Tenho apenas uma
única certeza, este é o meu lugar!

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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