Escravos do sexo

Escravos do sexo
Busca
desregrada por parceiros e sexo solitário marcam de formas distintas a
compulsão sexual de homens e mulheres, mas para ambos a perda do
autocontrole causa impactos dolorosos em suas vidas

Por Agência Notisa de Jornalismo Científico

Uma
é pouco, duas é bom e três é demais? Se o que está em jogo é número de
relações sexuais, a resposta varia de indivíduo para indivíduo. Não
apenas porque cada um tem seu próprio "apetite sexual", mas também
porque quantidade, neste caso, não sinaliza necessariamente um estado
saudável. Apesar de ser adotado como critério que determina a qualidade
de vida pela Organização Mundial da Saúde, sexo – quando praticado em
excesso – pode, sim, fazer mal e ser sintoma de outro problema: uma
compulsão.

A falta de um filho como projeto de vida comum estimularia algumas relações homossexuais a basearem-se só em sexo

Tal
quadro já vem sendo discutido há, pelo menos, mais de um século na
esfera moral, mas passou a ser alvo de investigações científicas no
ramo da saúde mental apenas a partir da década de 1990. De acordo com
Aluyzio Augusto D´Abreu, membro da Federação Brasileira de Psicanálise,
na compulsão sexual – assim como em outros tipos – há um impulso
incontrolável para realizar um determinado ato. "Pensemos na compulsão
alimentar, por exemplo. Comer é um ato saudável, mas se torna
patológico quando o indivíduo está sem apetite, mas continua comendo.
No caso do sexo, a pessoa se relaciona com outra, mesmo quando não
sente tesão", explica. Na maior parte das vezes, o comportamento se
caracteriza pela repetição de relações, mas para D´Abreu, isso não
chega a ser uma regra. "Uma pessoa pode fazer sexo uma vez ao dia
compulsivamente, sentindo-se angustiada enquanto não concretiza sua
vontade. Tal situação é totalmente diferente de um casal em lua-de-mel,
que transa várias vezes por sentir prazer de estar junto", afirma.

Essa
opinião também é compartilhada pelo psicólogo Oswaldo Rodrigues Júnior,
coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas do Instituto Paulista de
Sexualidade (GEPIPS). Segundo ele, o problema costuma ser percebido
apenas quando a sensação de sofrimento relacionada a cada relação se
torna expressiva. "Muitas pessoas demoram dez ou até mesmo 20 anos para
perceber que o comportamento é errado ou não-saudável. Deixam de buscar
uma solução adequada para a real causa de ansiedade que sentem e optam
por um caminho que deixa a impressão de que estas questões estão
acertadas", explica.

Homossexuais são mais promíscuos?

Uma
das polêmicas levantadas ao discutir compulsão sexual é a de que
indivíduos homossexuais seriam mais promíscuos. No que diz respeito aos
homens, não há muita diferença em relação à troca de parceiros quando
os indivíduos são solteiros, acredita a psiquiatra Carmita Abdo. "Há 30
anos, os homossexuais tinham mais necessidade de se fazerem respeitar,
mas, hoje, estão cada vez mais tranqüilos com a sua condição, pois a
sociedade está menos preconceituosa. As pessoas sabem cada vez mais que
não é uma questão de escolha, mas de condição genética, sobre a qual
incidem vários fatores, entre eles o meio em que a criança foi criada,
os valores educacionais transmitidos a ela", opina.

Contudo,
quando a análise é estendida a homem casados, a médica encara a
situação de forma diferente. Segundo Carmita, o homem que mantém
relações com uma mulher tende a querer mais sexo que ela, mas, para que
o casal esteja em harmonia, um se ajusta ao ritmo do outro e chegam num
consenso. "Já no caso de dois homens, é provável que a freqüência seja
maior, de acordo com a necessidade e o desejo de ambos", ressalta.

A
especialista também chama a atenção para outro fato: casais
homossexuais geralmente não constituem família, já que não têm filhos.
"Isso faz com que as relações sejam mais instáveis, sendo a atração
sexual o principal elo entre as partes. No caso de heterossexuais, a
criação dos filhos propicia um projeto de vida comum entre o casal, o
que mantém esta união mais estável e não tão focada no sexo", diz.

ORIGEM DO VÍCIO
E
o que faz com que o sexo passe de manifestação de saúde e prazer a
vício relacionado a sofrimento? Aluyzio Augusto D´Abreu arrisca algumas
razões, entre elas, a tentativa de suprir uma carência afetiva
vinculada à baixa autoestima. Neste caso, os compulsivos são pessoas
extremamente carentes que necessitam de manifestações de afeto para
acreditar que são "gostáveis". "Cada nova relação sexual é tomada como
uma prova de que são aceitos e amoráveis. Mas este sentimento é
efêmero, levando o individuo a buscar uma nova relação", diz. Outro
fator que o psicanalista julga estar relacionado à compulsão é o
conflito com uma situação de impotência, como a perda de um emprego,
fazendo com que o sexo seja uma espécie de bengala para lidar com um
cenário que gera fragilidade e angústia.

Um casal em luade- mel que faz sexo várias vezes por sentir prazer de estar junto não caracteriza compulsão sexual

A tese de Abreu está de acordo com os achados do artigo intitulado (em português) Escapando da dor: examinando o uso do comportamento sexualmente compulsivo para prevenir memórias traumáticas do combate,
que avaliou problemas de saúde mental verificados em soldados
estadunidenses que atuaram na guerra contra o Iraque. Publicado no ano
passado no periódico Sexual Addiction & Compulsivity, o
estudo sugere que entre 10% e 15% das tropas sofre de transtorno de
estresse pós-traumático (TEPT). Para tentar fugir dos pesadelos e
lembranças do combate, alguns recorrem a substâncias que alteram humor
e comportamentos e também a sexo, jogos, gastos excessivos ou a
qualquer outro tipo de comportamento que, quando levado ao extremo, é
encarado como compulsão.

Já a terapeuta familiar Miriam
Felzenszwalb lembra que a compulsão sexual pode estar relacionada ao
tipo de educação recebida. "É um comportamento freqüentemente
relacionado a uma carência por parte dos pais, que gera
insensibilidade. Tais pessoas necessitam de emoções fortes para
sentirem o efeito do afeto", diz. A psicóloga também acredita que o
quadro esteja relacionado a um contexto de inconstância na família,
marcado por casos de infidelidade, pouco respeito entre os membros ou
ausência de limites aos filhos. "Tais fatores podem deixar a criança
com a fronteira da individualidade abalada, sem saber respeitar o
espaço dela e o do outro", afirma.

"COMER É SAUDÁVEL, MAS QUANDO ALGUÉM ESTÁ SEM APETITE E CONTINUA COMENDO SE TORNA PATOLÓGICO, ASSIM COMO NO SEXO"

Abusos
sexuais na infância também figuram na lista das causas para tal
comportamento apontadas por especialistas em sexualidade, entre eles a
psicóloga Ana Cristina Canosa. Para a terapeuta, a exposição sexual do
dependente é uma maneira de reafirmar a exploração vivenciada no
passado, pois freqüentemente coloca-se em situações de risco e
desproteção. "Muitos conviveram, na infância, com dependentes sexuais
adultos. Por visualizar diversas experiências sexuais, a criança pode
erotizarse e vir a repetir esse padrão de comportamento, pois fez o
registro de sua excitação na associação com a variedade e a quantidade
de cenas presenciadas", esclarece.

FATORES BIOLÓGICOS
A compulsão sexual também pode estar relacionada a componentes
biológicos, entre eles a liberação de neurotransmissores: substâncias
que ativam centros de prazer e recompensa do sistema límbico, parte do
cérebro que responde pelos sentimentos. A eliminação de tais hormônios
pode ser motivada por diversos tipos de comportamento e gera euforia.
No caso de vício, a neurotransmissão é auto-induzida pela repetição
dessas ações, a fim de perpetuar a sensação de bem-estar. Com o tempo,
o dependente desenvolve tolerância aos neuroquímicos e necessita
aumentar a quantidade apenas para se sentir normal, passando a um
estágio de compulsão.

A compulsão é marcada por intensa ansiedade até a concretização do ato sexual, depois gera culpa e desconforto

Carolina
Costa Fernandes, psicóloga do Instituto Paulista de Sexualidade, chama
a atenção para a existência de dois conceitos distintos: compulsão
sexual e hiperssexualidade. "O primeiro quadro é marcado por intensa
ansiedade até concretizar o ato sexual, geralmente seguido de sensação
de culpa e desconforto. Ele pode ser associado a um transtorno
obsessivo-compulsivo, desencadeado por causas genéticas. Já a
hiperssexualidade é marcada pela repetição do ato sexual na tentativa
de obter mais prazer. Pode até gerar uma compulsão desde que seja
acompanhada de sintomas de dependência", diferencia.

Carmita
Abdo, professora da Faculdade de Medicina e coordenadora do Projeto
Sexualidade da Universidade de São Paulo (USP), acrescenta mais algumas
informações aos dois conceitos. A psiquiatra lembra que o termo
hiperssexualidade também é conhecido como impulsividade e ainda como
satiríase e ninfomania, quando se refere a homens e mulheres,
respectivamente. Neste caso, conta ela, se a pessoa não tem um parceiro
que também seja impulsivo, tende a buscar outras formas de suprir sua
necessidade. "Isto pode fazer com que recorra à masturbação, procure
outros parceiros ou, até mesmo, pague por sexo", revela.

A
médica ainda lembra que a compulsão sexual, na condição de transtorno
obsessivo- compulsivo (TOC), também pode ser caracterizada por rituais.
"A pessoa estabelece uma espécie de roteiro. Se não for cumprido, age
como se o ato tivesse sido inválido e procura repeti-lo até satisfazer
sua vontade, mesmo sabendo que tal atitude é inadequada", conta ela,
que é membro da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Já ouviu falar no DASA?

Dependentes do Amor e Sexo Anônimos
é uma Irmandade baseada no programa de recuperação dos Alcoólicos
Anônimos, marcada pela ajuda mútua, aberta a todas as pessoas de
qualquer idade e inclinação sexual. Todos os membros têm um padrão
comum de comportamento obsessivo/compulsivo, seja sexual, seja
emocional (apego desesperado a uma única pessoa), ou ambos, pelo qual
as atividades e as relações se vêem cada vez mais destrutivas e afetam
a toda a vida: carreira, família e o conceito de amor próprio.

Os 12 passos dos DASA:

 Admitimos que éramos impotentes perante a DASA – tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
 Acreditamos que um Poder Superior poderia devolvernos a sanidade.
 Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
 Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
 Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro, a natureza exata de nossas falhas.
 Prontificamonos a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
 Rogamos humildemente a Deus que nos livrasse de nossas imperfeições.
 Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e
nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
 Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre
que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicálas ou a
outrem.
 Continuamos a fazer o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
 Procuramos melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em
que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em
relação a nós, e forças para realizar essa vontade.
 Procuramos transmitir esta mensagem aos dependentes de amor e sexo e
praticar estes princípios em todas as áreas de nossas vidas.

ELES PRECISAM MAIS DE SEXO?
Carmita ainda cita alguns fatores biológicos que podem de alguma forma
interferir na compulsão sexual: descompensação na liberação de
serotonina e o nível de testosterona, nos homens, e de progesterona e
estrógeno, que regulam o interesse sexual das mulheres ao longo do mês
e marcam períodos de maior desejo ou maior inibição. Segundo a
psiquiatra, tais substâncias agem em conjunto com fatores psicológicos
e socioculturais, podendo acontecer de algumas áreas do cérebro serem
mais estimuladas que outras. "É por essa razão que homens e mulheres de
hoje respondem a algumas situações de forma diferente que os de épocas
anteriores. Prova disso é aumento da freqüência de episódios de
compulsão entre o público feminino, a partir da liberação sexual",
completa.

"ANOREXIA SEXUAL É UM QUADRO TÍPICO FEMININO: EVITA-SE O SEXO POR UM TEMPO, PRECEDIDO DE UM PERÍODO DE FARRA"

O
psicólogo Oswaldo Rodrigues endossa a opinião da psiquiatra e diz não
ser falaciosa a idéia de que homens precisam mais de sexo que mulheres.
Para ele, tal concepção é conseqüência de uma construção social que
valoriza a expressão sexual deles e o papel delas como mãe. "Os homens
aprendem a se referirem a coisas sexuais a cada momento em que possam
fazê-lo, enquanto as mulheres não precisam pensar nisso, pois têm
outras atribuições sociais. Aprendem a serem responsivas sexualmente,
desde que estimuladas ‘adequadamente’", explica.

Todo este
emaranhado de fatores faz com que a compulsão seja manifestada de forma
diferente nas mulheres. Uma de suas características que a difere com
relação a dos homens é o fato de as mulheres se tornarem não apenas
dependentes da relação sexual, mas principalmente do processo de
sedução que envolve a "caça" do parceiro, como aponta o estudo Comportamentos sexualmente compulsivos e dependentes em mulheres: um assunto de cuidado de saúde das mulheres, publicado no Journal of Midwifery & Women’s Health,
em 2007. Segundo o artigo, elas são tão sexualmente compulsivas quanto
os homens, mas apresentam comportamento mais relacionado à postura de
vítima. "Tendem a participar da ‘perpetração passiva’, que inclui
voyeurismo (estimulação visual), masturbação com objetos (até chegar à
dor), exibicionismo (exibição de roupa íntima em locais públicos ou em
casa) e sexo anônimo (com estranhos e conhecidos, com quem cruzam em
bares e locais públicos; casos de uma noite; e grupos de sexo)", diz o
texto.

Outro traço tipicamente feminino é a anorexia sexual, quadro
caracterizado pelo evitamento de sexo e da depravação sexual, precedido
por um período de farra. Isto faz com que "as mulheres se sintam
poderosas e protegidas contra todas as feridas", afirma o artigo. Nele,
também são lembradas algumas conseqüências dos atos de compulsão para
saúde da mulher, entre elas a transmissão de doenças sexualmente
transmissíveis, gravidez indesejada, abortos e violência.

Comer e transar, é só começar?

Você
já pulou refeições para continuar relações sexuais? Já teve desejo de
comer algo quando vivenciou uma frustração sexual? Até que ponto o seu
senso de estar atraente e desejável depende do seu tamanho, peso ou
aparência? Estas são algumas das perguntas que podem ajudar a verificar
a interação entre as compulsões sexual alimentar, como revela o artigo Dependência de comida e sexo: ajudando o clínico a reconhecer e tratar a interação, publicado em 2005, na revista Sexual Addiction & Compulsivity.

Segundo
Cynthia Power, autora do estudo, é importante ter em mente que o
cérebro pode ser "seqüestrado" por dependências que recompensam
comportamentos de promoção de sobrevivência, como comer e fazer sexo. A
pesquisadora também propõe a utilização do termo "solução falha" para
remover as sensações de vergonha e culpa relacionadas ao processo de
adição (vício). "Os pacientes parecem se tornar mais positivamente
orientados, na medida em que compreendem que estão verdadeiramente
tentando resolver alguns assuntos centrais em suas vidas, que eles não
são verdadeiramente pessoas ruins e inadequadas, que as soluções que
escolheram para resolver suas questões centrais são falhas porque estão
criando mais problemas. Não são pessoas ruins; a solução deles é
extremamente falha e novos caminhos precisam ser encontrados. Esta
atitude de ‘mudança’ é o fundamento para a recuperação", afirma.

Fenômenos interligados
A teoria desenvolvida pela médica faz sentido quando utilizada para
analisar o caso de uma compulsiva, disponível no site da irmandade
Dependentes de Amor e Sexo Anônimos. Em seu depoimento, a personagem
diz já ter passado pelos Alcoólicos Anônimos e pelos Compulsivos
Anônimos antes de ingressar na irmandade em questão. Para a mulher, a
comida era um meio de preencher a solidão que sentia e a forma de
consumi-la dependia das suas relações afetivas. "Às vezes, depois de
algum episódio degradante, como por exemplo, fazer sexo com alguém num
canto escuro de algum restaurante, eu ficava envergonhada e me decidia
a mudar. Aí então, voltava a engordar, para me tornar feia e
indesejável. Então, movida pela necessidade, eu emagrecia e começava
novamente o ciclo de sedução", diz a anônima.

De
acordo com Cynthia Power, autora do estudo, o ato de entender o
conceito de interação entre desordens que causam dependência motiva
vários pacientes a trabalhar simultaneamente nos dois tipos de
dependência e a verificar se existem outros transtornos relacionados.
"Os vícios são tentativas falhas de que recompensa ajuda a motivar as
pessoas a procurar outras recompensas saudáveis. O paciente não tem
mais que trocar adições, mascarar uma com outra, alterná-las ou
empregálas em outras múltiplas formas de interação de dependência.
Identificar fontes importantes que produzem recompensa de forma
saudável se torna, então, o principal foco da terapia", diz.

O cérebro pode ser "seqüestrado" por dependências que recompensam ações de sobrevivência, como comer e fazer sexo

IMPACTOS NA VIDA DO COMPULSIVO
A compulsão sexual provoca uma série de desdobramentos na vida do
dependente. Uma delas é a transformação da obsessão e da fantasia
sexual em estratégia básica de satisfação. "O sexo vira o instrumento
que regula a vida emocional. Planejar, calcular, imaginar e procurar
oportunidade é uma boa maneira de passar os dias", conta Ana Cristina
Canosa. Segundo ela, conforme o tempo passa, o nível de atividade passa
a ser insuficiente para o indivíduo, fazendo com que necessite de
quantidades crescentes para manter o nível de alívio emocional e tenha
comportamento cada vez mais descontrolado. "A freqüência, extensão e
duração da relação sexual geralmente excedem a intenção da pessoa. Ela
persiste no padrão, mesmo que seja consciente dos riscos a que está
exposta", explica a terapeuta.

A
incapacidade de autocontrole, bem como a vergonha de não ter uma vida
dentro dos limites apropriados e de mentir por não se controlar são
traços que compõem o perfil do dependente e intensificam o sofrimento
que sente. Ana Cristina conta que ele faz esforços constantes para
parar ou, ao menos, reduzir o hábito, mas se não consegue aliviar a
angústia com sexo, cai no desespero. Por isso, dedica maior parte do
tempo à busca de uma relação, à prática ou à recuperação,
negligenciando atividades sociais, ocupacionais ou recreativas
importantes, como trabalhar e estar com a família e amigos. "As
decisões não se baseiam em outros tipos de julgamento que não aquele
que priorize o enfoque da sexualidade", completa a psicóloga.

"A
IDÉIA DE QUE HOMENS PRECISAM MAIS DE SEXO QUE MULHERES É CONSEQÜÊNCIA
DE UMA SOCIEDADE QUE VALORIZA A EXPRESSÃO SEXUAL DELES E O PAPEL DELAS
COMO MÃE"

Ana
Cristina também lembra que os dependentes de sexo estão sujeitos a
outras conseqüências ainda mais severas, entre elas contaminação por
AIDS e DSTs, perda de emprego, risco de estupro e acidentes, problemas
com os parceiros e com guarda dos filhos e prisão por cometer infrações
legais, entre elas a pedofilia. "Os dependentes sexuais sabem que
correm perigo, pois o que lhes importa é satisfazer a compulsão,
independente da situação, local ou pessoa com quem se envolvem", afirma
a especialista.

Aproximadamente 20% dos internautas se engajam em algum tipo de atividade sexual na rede

Um
dos principais meios utilizados por dependentes para ter acesso a novos
parceiros e praticar o sexo tem sido a Internet. Artigo publicado em
2005 na revista Sexual Addiction & Compulsivity afirma
que "aproximadamente 20% de todos os usuários de internet se engajaram
em algum tipo de atividade sexual na rede, incluindo acessar informação
sobre saúde sexual, relacionamentos por chat, observação de conteúdo pornográfico, marcar encontros cara a cara". Intitulado Relação
entre compulsividade sexual, homofobia internalizada e comportamento
sexual de risco para HIV em salas de bate-papo da internet de usuários
gays e bissexuais
, o estudo verificou que os principais fatores
que fazem com que homens recorram à rede para se relacionar com pessoas
do mesmo sexo ou mulheres são o anonimato e o fácil acesso, que
permitem esconder suas atividades sexuais.

O levantamento foi feito por nove pesquisadores que entraram em salas de chat do site Men for Men,
para falar sobre o estudo. Os interessados em participar eram
encorajados a acessar uma relação de 123 perguntas. Segundo o estudo,
no ano anterior à pesquisa, aproximadamente metade dos entrevistados
(49%) teve atividades sexuais face a face com, pelo menos, cinco
parceiros que conheceram pela rede. Para os responsáveis pela pesquisa,
"esta alta prevalência de atividade da Internet como ponto de encontro
para conhecer parceiros sexuais sugere que a Internet está se tornando
um importante método para formar redes de comunicação de cunho sexual
para homens gays e bissexuais".

"ANONIMATO E FÁCIL ACESSO LEVAM HOMENS E MULHERES À REDE PARA SE RELACIONAR COM PESSOAS DO MESMO SEXO"
Compulsivos
gays e bissexuais têm comportamento sexual de risco maior,
possivelmente devido à negação e à vergonha relacionadas à dependência

O
estudo também revela alta a prevalência de comportamento sexual de
risco. Em indivíduos sexualmente compulsivos de caráter moderado, foi
constatada maior porcentagem de trato anal receptivo, trato anal ativo
e trato oral receptivo – todos praticados sempre sem proteção. Para os
pesquisadores, o fato pode ser atribuído à negação e vergonha
relacionadas à dependência. "A internalização de atitudes negativas
socialmente construídas sobre homens gays e bissexuais foi apontada
como fator significativo para a compulsão sexual. Os achados são
consistentes com resultados de pesquisas anteriores que sugerem que
homofobia internalizada tem influência negativa sobre a saúde mental e
bem-estar destes homens, incluindo sintomas psicossomáticos e vício",
dizem no artigo.

A estreita relação entre rede e compulsão sexual também foi verificada em estudo que serviu de base para o artigo Características e comportamentos de compulsivos sexuais que usam a internet para propósitos sexuais, publicado em 2006, na revista Vício e compulsividade sexual.
A metodologia foi basicamente a mesma da pesquisa internacional:
questionários hospedados em um site da Internet. Participaram do
levantamento 1.835 pessoas (931 mulheres e 904 homens). Entre elas,
1.458 (658 e 800, respectivamente) disseram utilizar a rede para
propósitos sexuais. A idade média dos entrevistados foi 29,7 para o
sexo feminino e 31,5, para o masculino. Entre eles, 90% se definiram
como heterossexual; 8%, bissexual; e 2%, homossexual.

O
grupo de compulsivos foi composto de 82 pessoas (74% eram homens e 26%,
mulheres). Tais participantes pertenceram tanto à categoria que gasta
de 3 a 10 horas por semana na rede com propósitos sexuais, quanto a que
gasta mais de 15 horas. O cruzamento de dados mostrou que vários deles
aumentaram o consumo de pornografia depois que começaram a utilizar a
Internet. No entanto, advertem os pesquisadores, tal comportamento deve
ser relativizado, pois alguns entrevistados alegaram que o consumo de
pornografia fora da rede diminuiu ou foi abandonado. Na opinião dos
estudiosos, é necessário não enfatizar demasiadamente este tipo de uso
da Internet. "A maior parte das pessoas que a usam com propósitos
sexuais não tem qualquer problema, mas, pelo contrário, vê atividades
sexuais pela rede como saudáveis e positivas", afirmam no artigo.

BUSCANDO AJUDA
De acordo com Oswaldo Rodrigues Júnior, o quadro de compulsão sexual
geralmente se instala na vida de uma pessoa entre os 15 e 20 anos -
época em que se formam os padrões de comportamento e expressão sexuais.
No entanto, suas conseqüências mais destrutivas demoram a ser notadas.
Costumam ser percebidas, em média, entre os 40 e 45 anos, quando o
indivíduo geralmente já possui uma família e uma carreira profissional
consolidada.

"HOMENS JULGAM QUE O SEXO QUE BUSCAM PARA SEUS ALÍVIOS NÃO SEJA TRAIÇÃO; DIZEM NÃO HAVER ENVOLVIMENTO EMOCIONAL"

As
atitudes do dependente começam a chamar a atenção dos familiares quando
passa a buscar situações "ansiógenas" com mais freqüência, pois com
elas efetiva-se a produção do desejo sexual e a ação sexual para
diminuir a ansiedade. São nestas condições que os familiares, em
especial a parceira no casamento, tendem a "saber" e "descobrir" que o
marido tem relacionamentos extraconjugais. "Aqui aparece a quebra da
confiança no relacionamento. Estes homens não consideram que o sexo que
buscam para seus alívios é uma traição a suas parceiras. Justificam-se,
inclusive, afirmando que nunca se envolveram emocionalmente com estas
pessoas, o que não alivia em compreensão pela esposa. Para ela, o ato
do marido é apenas uma ‘sem vergonhice’, nunca uma doença", afirma o
psicólogo.

Vida a dois: o tratamento é de longo prazo e às vezes pode requerer medicamentos para suprimir o desejo de sexo

Para
a cônjuge de um dependente de sexo, a descoberta da existência de
comportamentos compulsivos é um momento estressante e que pode vir
acompanhado de diversos sintomas, tais como ansiedade, depressão,
irritação, raiva, pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos
de checagem, dificuldade de concentração, aumento do isolamento e
hipervigilância. Segundo estudo divulgado em 2006, na Sexual Addiction & Compulsivity, a gravidade desta resposta do parceiro pode ser agravada pela progressão dos comportamentos compulsivos.

Intitulado Revisão da literatura de pesquisa em tratamento de sistemas familiares de dependência sexual,
o artigo é fruto de um levantamento feito com 63 mulheres atualmente
casadas ou divorciadas de dependentes de sexo assumidos. Nele também é
afirmado que a crise faz com que as esposas aprendam a desenvolver
métodos adaptativos e efetivos de lidar com estresse e a adotar medidas
de segurança ou limites para se proteger contra outras injúrias. "Se o
marido continuar a fazer, liberar ou negar seus comportamentos
destrutivos, ou não tomar atitudes para ajudar a restaurar segurança na
relação, ela (a esposa) pode desenvolver habilidade de autoproteção e
formas alternativas de administrar ansiedade e estresse", diz o texto.

O desejo sexual

Trata-se
de um fenômeno subjetivo e comportamental extremamente complexo.
Contribuem para a gênese do desejo sexual as fantasias, os sonhos
sexuais, a iniciação à masturbação, a receptividade do companheiro(a),
as sensações genitais, as respostas aos sinais eróticos no meio
ambiente, etc. O desejo é o que dispõe a pessoa à atividade sexual e
compõe- se de três atitudes: a motivação ou aspiração sexual,
estímulo sexual e o impulso sexual. Do desempenho sexual participam a
excitação sexual e o orgasmo.

A
motivação sexual estatisticamente normal deve envolver, na seguinte
ordem decrescente: indivíduos humanos (contrário ao bestialismo);
indivíduos vivos (contrário à necrofilia); pessoas livremente
concordantes (contrário ao assédio); pessoas livremente receptivas
(contrário à violentação); pessoas de faixa etária relativamente
compatível (contrário à pedofilia); parentes de grau não próximo e de
primeiro grau (contrário ao incesto); locais adequados e em
circunstâncias propícias (contrário ao exibicionismo); pessoas
disponíveis civilmente (contrário ao adultério); outra pessoa
(contrário à auto-satisfação).

As
situações sexuais cuja motivação não considerou algum dos itens supra
listado são, estatisticamente, não-normais. Daí até que as considere
doença, há necessidade de morbidez – de sofrimento, seja da pessoa ou
do(a) outro(a). Evidentemente, como se trata de um ajuizamento atrelado
à cultura e sustentado pela estatística, podem haver mudanças de acordo
com a época e com a sociedade.

A
motivação sexual e o estímulo sexual são quase a mesma coisa, dizem
respeito à influência que o "objeto" exerce sobre o "sujeito": é o
efeito sexual causado por alguma coisa do ambiente sobre a pessoa, seja
a cultura, seja a outra pessoa. Academicamente pode-se dizer que a
motivação é cultural e geral, enquanto o estímulo é específico e
pessoal. De qualquer forma, ambos representam a valoração do objeto
pelo sujeito e acontecem nessa ordem; primeiro a motivação, depois o
estímulo. A motivação é a disponibilidade para o sexo; decidir com o
quê, como, quando, onde e com quem fazer esse sexo é papel do estímulo.

Neurofisiologicamente,
o impulso sexual é a parte do desejo que se experimenta no corpo e que
estimula a atividade sexual imediata. Provavelmente é o resultado da
ativação das redes neurais do sistema nervoso central e será percebido
como uma inclinação ao sexo, vulgarmente definido pela palavra "tesão".
A fase de excitação sexual é, basicamente, o preparo do organismo para
o ato sexual. Se o sexo é predominantemente despertado pela motivação,
a excitação deve ser bem mais estimulada. Na fase de excitação sexual
participa ativamente a motivação, portanto, há influência do meio e de
valores morais.

Para alguns co-dependentes, fazer sexo é a maior prova de amor: submeter-se aos rituais propostos pelo parceiro é uma delas

Em
alguns casos, a reação de não-aceitação da conduta sexual do parceiro
faz com que o dependente procure ajuda, conta a psiquiatra Carmita
Abdo. Em outros, é ele mesmo que se sente promíscuo e resolve pedir
auxílio. O tratamento é feito em longo prazo e objetiva recuperar as
áreas de vida que foram destruídas pela compulsão. Dependendo do
especialista e do paciente, pode haver a prescrição do uso de
medicamentos para suprimir o desejo de sexo, como antidepressivos ou
antipsicóticos. "Contudo tais tentativas de uso destes remédios têm
sido frustradas pelos dependentes que os abandonam assim que estes
efeitos anti-sexuais se iniciam", revela Oswaldo Rodrigues Júnior.

Na
opinião da terapeuta familiar Miriam Felzenszwalb, para que o
tratamento do dependente tenha êxito, é necessário que "ele se dê conta
de que tem um problema e terá que trabalhar para refazer estes laços
emocionais e interromper este ciclo de relacionamentos estabelecidos".
Para a psicóloga, é importante que o tratamento seja estendido ao
parceiro do compulsivo. "Esta pessoa pode acabar virando refém do
problema do cônjuge, por medo de ser trocado, por exemplo. De uma forma
geral, ao atender casos de compulsão é necessário que o profissional de
saúde mental não rotule uma pessoa de vítima e a outra de algoz, pois
em um casal, um indivíduo vai até onde o outro deixar", diz.

CO-DEPENDÊNCIA
Se
por um lado existem parceiros que chegam a desenvolver habilidades de
autoproteção por conta da dependência sexual do cônjuge, existem casos
em que é verificada uma dinâmica de co-dependência, sendo sustentadas
as dependências individuais e do par, explica a psicóloga Ana Cristina
Canosa. Desta forma, o parceiro do compulsivo não consegue ajudá-lo por
também estar vivenciando uma relação de dependência, também marcada por
ansiedades e angústias. "Ele vive a vida do outro. Não se destaca como
diferente, não enxerga os conflitos de forma clara e racional, nem
auxilia numa proposta mais saudável", explica.

"O
SEXO TORNA-SE O INSTRUMENTO QUE REGULA A VIDA EMOCIONAL. PLANEJAR,
IMAGINAR E PROCURAR OPORTUNIDADE É UMA BOA MANEIRA DE PASSAR OS DIAS"

Segundo
a terapeuta, entre os co-dependentes, alguns sofreram violência na
infância, estresse póstraumático ou desagregação familiar, assim como
os dependentes. Outros entendem que fazer sexo é a maior prova de amor,
portanto aceitam e cooperam com comportamentos sexuais dos quais nem
gostam, para tentar controlar o compulsivo sexual e mantê-lo saciado.
"Também existem situações em que toda a família pode ter uma atitude
co-dependente, o que dificulta em demasia o tratamento de quem tem
compulsão", completa Ana Cristina.

A recuperação de casais que vivem uma relação de co-dependência costuma se dar a partir de três fases, conforme consta no estudo Tratamento em longo prazo de parceiros de dependentes sexuais: uma aproximação multifase, publicado em 2006 no periódico Sexual Addiction & Compulsivity.
De início, o co-dependente é pressionado por ele mesmo e por familiares
a larlargar a relação. Freqüentemente pede ajuda do terapeuta para
ajudar a resolver este impasse, que acaba sendo ameaçador por estar
acostumado a adiar e silenciar seus desejos e necessidades e pelo medo
de ser negado ou ignorado. Geralmente, há a preocupação de contaminação
por DSTs e de que o dependente tenha exposto as crianças ao
comportamento sexual.

Passada esta etapa, vem o período de
normalização da realidade. Nele, o parceiro está engajado na
recuperação e, relutantemente, começa a reconhecer que foi
negligenciado pela família quando mais jovem. Esta reflexão o força a
confrontar o próprio isolamento e solidão, motivo que fez com que fosse
usado como parceiro de dependente sexual com quem podia se distrair e
fugir da própria realidade. Nesta fase da recuperação, muitos parceiros
participam de encontros de 12 passos (similar aos Alcoólicos Anônimos),
atendimentos individuais ou grupo de Psicoterapia.

Na
terceira e última etapa, o co-dependente ingressa em um período de mais
integração sobre o significado do vício em suas vidas e o impacto da
própria educação deles tiveram sobre os sentimentos de segurança e
confiança no mundo. Eles exploram abertamente causas e implicações de
crescer em ambientes nos quais suas necessidades eram consideradas sem
importância. Há uma grande disponibilidade para outras áreas da vida do
co-dependente e pode ser que nesta época ele se envolva com novos
esforços profissionais e pessoais. Neste período, ele explora mais
profundamente aquelas áreas do passado que, por anos, foram negadas e
tidas como problemáticas.

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Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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