Perversão e Fetichismo

Perversão e Fetichismo

Autor: *Breno S. Rosostolato

Resumo:
O texto em questão teve como tema central o fetichismo analisado à luz
da psicanálise. Para chegar ao fetichismo, foi trabalhada a questão da
sexualidade segundo a teoria freudiana, bem como destacado o conceito
psicopatológico de perversão.

Em princípio
foram apresentadas algumas das propostas de Freud e de outros autores,
em que tentei realizar um diálogo entre eles quanto à dinâmica e
etiologia da perversão, uma vez que o fetichismo se enquadra como uma
delas. Prática sexual que efetua um desvio de objetivo (coito sexual) e
de objeto (pessoa do sexo oposto). O fetichismo exprime o exercício de
uma sexualidade que não se “genitalizou”, fixada nos estágios
anteriores do desenvolvimento da libido.

Concluo que, tendo em vista meus estudos e leituras, posso afirmar que
no fetichismo não existe o coito, e que o prazer sexual é
infantilizado, característica que atribuímos às perversões.

Palavras Chaves: Sexualidade; Perversão; Fetichismo.

PERVERSÃO E FETICHISMO

UMA ESTRUTURA PSÍQUICA: A PERVERSÃO

“O termo perversão, que tem origem no latim perversione, designa
o ato ou efeito de perverter-se, isto é, tornar-se perverso ou mau,
corromper, depravar, desmoralizar. Pode designar ainda a alteração ou o
transtorno de uma função. Na tradição da medicina, esse termo foi
reservado para designar o desvio ou a perturbação de uma função normal,
sobretudo no terreno psíquico e, mais propriamente no terreno da
sexualidade”. (Ferraz, 2000, p.13)

Freud
(1905) disse que “a neurose é, por assim dizer, o negativo da
perversão” (p.44), uma vez que, em ambas as estruturas psíquicas
existem determinações e formulações bem distintas uma da outra, no que
se refere a mecanismos de defesa, modos de manifestações entre outras.
Em um aspecto, ambas são iguais: têm sua origem na sexualidade infantil.

Freud
(1905) continua: “… de modo algum os sintomas surgem apenas à custa
da chamada pulsão sexual normal (pelo menos não de maneira exclusiva ou
predominante), mas que representam a expressão convertida de pulsões
que seriam designadas de perversas…” (p.44)e acrescenta “portanto, os sintomas se formam , em parte, a expensas da sexualidade anormal…” (p.44), chegando assim à conclusão de que a neurose é oposta à perversão.

O
raciocínio teórico começa a ter um formato, diante da comparação entre
a neurose e a perversão, pois o autor assume a diferença entre as duas
como estruturas de processos distintos de construção psíquica. O que de
fato começa a surgir é que, enquanto os neuróticos funcionam
psiquicamente adequando o ego às exigências do ambiente, recalcando
para o inconsciente conteúdos conflitantes e angustiantes, no
psicótico, por exemplo, o ego fica à mercê do id, sujeitando-se a ele,
rejeitando a realidade, apropriando-se de uma realidade substituta
(delírios e alucinações).

Isto quer
dizer que as perversões indicarão uma terceira forma de o ego negociar
com os desejos do id e com a realidade. Em suma, os perversos colocam
em prática aquilo que os neuróticos não têm coragem de manifestar.
Inclusive, muitos dos atos característicos dos perversos, os neuróticos
reprimem, recalcam. Isto é, na perversão é possível considerar, ao
mesmo tempo, as exigências do id e as da realidade, sem que uma anule
ou interfira na outra. Não há nem o recalcamento dos desejos, como
ocorre na neurose, nem rejeição a realidade, como ocorre na psicose.

As
manifestações perversas são aludidas por Freud (1916) em sujeitos que
“riscaram de seu programa a diferença entre os sexos” (p.356).

No
entanto, Freud (1905) indica que “nos neuróticos (sem exceção)
encontram-se moções de inversão, de fixação da libido em pessoas do
mesmo sexo” (p.44). E que “no inconsciente dos psiconeuróticos é
possível demonstrar, como formadoras do sintoma, todas as tendências à
transgressão anatômica, encontrando-se entre elas com particular
freqüência e intensidade as que reivindicam para as mucosas da boca e
do ânus o papel dos genitais”. (p.45)

Acontece
que os neuróticos recalcam estas tendências à perversão, pois agem mais
de acordo à moral vigente e incorporada ao ego sob forma de superego.
Tendo em vista, portanto, que na perversão não ocorre o recalcamento
dos impulsos como na neurose, Freud (1905) escreve que:

“Toda
perversão ativa, portanto é acompanhada por sua contrapartida passiva:
quem é exibicionista no inconsciente é também, ao mesmo tempo, voyeur;
quem sofre as conseqüências das moções sádicas recalcadas encontra
outro reforço para seu sintoma nas fontes da tendência masoquista”.
(p.45)

O que o autor nos demonstra é
que a perversão seria uma espécie de dualidade entre as patologias do
psiquismo, pois, de fato, existe uma oposição ao que foi recalcado
anteriormente. É importante reafirmar que, na perversão, o sujeito não
recalca, mas, principalmente, possui outra forma de defender-se
internamente dos conteúdos conflitivos a ele. Neste sentido, Valas
(1990) esclarece “… o neurótico passa ao ato realmente para sustentar
um desejo desfalecente, ao passo que o perverso finge, em suas
encenações, para realizar um desejo decidido, senão advertido, e obter
assim um gozo inconfessável”. (p.105)

Em um outro momento, definindo melhor o surgimento da perversão, Freud (1917a) diz que:

 “Através
de cuidadosas investigações (somente possibilitadas, na verdade, por
uma autodisciplina desinteressada), vimos, a saber, de grupos de
indivíduos cuja vida sexual se desvia, da maneira mais surpreendente,
do quadro habitual da média. Algumas dessas pessoas pervertidas,
poderíamos dizer assim, riscaram de seu programa a diferença entre os
sexos”. (p.356)

O que vemos então é
uma concepção de perverso como corrompido, opositor. Isto é a princípio
colocado para a homossexualidade, e que conforme o autor menciona,
representa o surgimento de um “terceiro sexo”.

Caminho
agora através da ramificação da perversão, pois, como o objeto sexual
foi modificado e sua “finalidade sexual” também, deparamos com grupos
bem distintos, com um funcionamento psíquico diferenciado das pessoas
ditas normais.

Nas palavras de
Freud (1916): “renunciam à união dos dois genitais e [que] substituem
os genitais de um dos parceiros envolvidos no ato sexual por alguma
outra parte ou região do corpo” ou como outros que “mantêm os genitais
como um objeto”, este último, o fetiche.

Outro grupo mencionado pelo autor são os voyers,
cujo desejo consiste em olhar outras pessoas, enquanto estiverem
fazendo algo relacionado ao sexo. Assim, encontramos também os
exibicionistas, a contraparte dos voyeristas, os quais expõem partes do
corpo. Sabemos não ser habitual mostrá-las nuas em público. O fato é
que existe o prazer em ser olhado, apreciado e desejado por outras
pessoas.

Os sádicos seriam, conforme
Freud (1916), “pessoas enigmáticas, cujas tendências carinhosas não têm
outro fim senão o de causar sofrimento e tormento a seus objetos, indo
desde a humilhação até as lesões físicas”. (p.358). Como estou falando
de uma estrutura que permite a manifestação de oposições quanto ao
objeto existente, para contrabalançar com sádicos, os masoquistas,
“cujo prazer consiste em sofrer toda espécie de tormentos e
humilhações…” (p.358) e assim, o sofrimento físico, a submissão,
seriam aspectos prazerosos.

A
pedofilia embora não mencionada por Freud, também é uma forma de
perversão, em que o sujeito adulto tem como objeto sexual uma criança.
A necrofilia, por sua vez, é a atração em se relacionar sexualmente com
cadáveres. O que posso afirmar é que estes tipos de personalidade e
condutas intrapsíquicas são de fato perversões.

O
que parece bastante significativo nas perversões é que a libido, e
entendamos aqui como princípio ativo da pulsão, volta-se para objetos
sexuais diferentes dos normais, não esquecendo que o alvo sexual é
modificado também. Isto é, nas perversões ocorre uma modificação tanto
do objeto sexual quanto do alvo sexual, a satisfação via coito
raramente é incluída nas atividades sexuais perversas e a reprodução da
espécie é um objetivo menos ainda pretendido.

 

O Fetiche

A
respeito do fetiche propriamente dito, vamos nos basear, para tal
discussão, em dois textos chaves de Freud. Um intitulado, “Substituição
imprópria do Objeto sexual – Fetichismo”, texto este contido no livro
“Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” de 1905, e outro texto,
até para fazermos um contraponto, intitulado “Fetichismo”, de 1927, já
mais atualizado em relação ao primeiro.

O
autor relata que em seus estudos sobre o tema abordado, muitos homens
freqüentavam sua clínica, apresentando uma “escolha objetal permeada
por um fetiche”. (FREUD, 1927, p.179). Embora muitos de seus clientes
reconhecessem uma anormalidade no fetiche, não associavam esta
preferência a uma doença ou a um sintoma. Para surpresa de Freud, os
pacientes não sofriam por tal fato, ao contrário, mostravam-se muito
satisfeitos, pela facilidade de prazer que o fetiche lhes proporcionava
na vida sexual e erótica.

Freud
(1927) afirma contundentemente que o intuito do fetiche é ser um
“substituto para o pênis” (p.179), mas não um pênis ocasional, qualquer
pênis, um específico, remetendo-se à primeira infância para explicar
tal importância deste pênis.

O pênis
específico seria o suposto pênis materno, mas, mais do que o órgão em
si, o significado deste seria simbólico, em que a criança valoriza-o,
projetando uma importância diferenciada para ele, lembrando que estamos
falando da importância do pênis durante o período fálico do
desenvolvimento psicossexual.

Neste
sentido, o pênis materno foi “perdido”. Sedimentado e cristalizado
psiquicamente pela criança na fase fálica, este pênis que foi
supervalorizado pelo menino. O fetiche serviria então para preservar
este pênis específico de sua extinção. Logicamente, o que está aqui em
jogo é a fantasia de castração do menino que teme pela perda do seu.

Remeto-me
aqui ao estudo da castração na criança, bem como a angústia gerada pela
mesma. Este aspecto, inclusive, é ponto norte para a manifestação
fetichista e, por isso, é importante para a compreensão desta
psicopatologia sexual, assim como, para facilitar a leitura do texto do
autor, uma vez que este é, a nosso ver, um tema deveras difícil e
complexo na sua apreensão.

O fetiche é então o substituto do pênis da mulher(FREUD,
1927 – p.180), afirma o autor. Ou seja, um substituto do pênis da mãe,
que a criança acreditou existir, cuja falta constatou, mas que insiste
em não querer abandonar.

É importante
insistirmos que a fixação do falo na mãe é o que permeará a curiosidade
da criança em querer visualizá-lo. No entanto, o fato deste pênis não
existir trará conseqüências ao pequeno ser, levando-o a insistir nesta
crença ao invés de aceitar a realidade da castração materna. Por sua
vez, esta insistência trará conflitos internos à criança e
conseqüências para a sexualidade adulta.

A
explicação dada para este fato, de acordo com a psicanálise freudiana,
é que a criança recusa a ausência de um pênis na mãe. Diferente do
mecanismo de recalcamento da neurose, mas mais parecida com a rejeição
da psicose, nas palavras de Freud (1927), “… cheguei à preposição de
que a diferença essencial entre a neurose e a psicose, consistia em
que, na primeira, o ego, a serviço da realidade, reprime um fragmento
do id, ao passo que, na psicose, ele se deixa induzir, pelo id, a se
desligar de um fragmento da realidade”. (p.183)

Isto
é, nem recalcamento, nem rejeição, a recusa sendo um artifício da
perversão “… é o modo de defesa que o sujeito opõe à angústia de
castração…”.(AULAGNIER-SPAIRANI, 1990, p. 48)

Ou
seja, a recusa seria uma forma de afastar esta angústia da criança, o
que poderíamos entender como sendo um mecanismo de defesa do sujeito,
tendo em vista o perigo eminente da castração. Para tal, recorro a
Nasio (1993), em que afirma:

“Essa
angústia não deve ser confundida com a angústia que observamos nas
crianças sob a forma de medos, pesadelos etc. Esses distúrbios não
passam de manifestações de defesas contra o caráter intolerável da
angústia inconsciente. Uma angústia vivenciada pode ser, por exemplo,
uma defesa contra essa outra angústia, não vivenciada e inconsciente”.
(p.16)

Assim, a recusa é o mecanismo
por meio do qual o sujeito enxerga e nega ao mesmo tempo a constatação
de uma percepção. Do caso em questão, a constatação de ausência de
pênis na mãe. No entanto, esta recusa não seria fruto apenas da
constatação da falta de um pênis, na mãe, mas também porque apontaria
para uma angústia insuportável no menino relativa a uma ameaça de
perda. Ou seja, se a mãe, em algum momento, foi castrada deste órgão, o
mesmo destino poderia ter a genitália do menino.

Ainda
sobre o mecanismo de “recusa”, presente na perversão, Bleichmar (1984)
esclarece “O fetiche é uma presença que substitui uma ausência
significando, portanto, a realização de um desejo que não coincide,
entretanto, com uma alucinação do falo, como ocorre na experiência
psicótica da alucinação de desejos.” (p.69). Concluímos que a diferença
entre perversão e psicose é que nesta última “a ausência na realização
alucinatória de desejos é a de um objeto real; no caso do fetichismo, é
uma ausência vivida sobre a base de uma presença ilusória” (p.69)

Então,
para entendermos melhor este movimento intrapsíquico, que constrói ou
que dá vazão para o fetiche, temos no menino a recusa em aceitar o fato
de que a mãe não possui um pênis como o dele. Ignora esta situação, ao
mesmo tempo em que está ciente dela. Uma vez que se depara com tal
realidade da castração materna, a criança se angustia, pois, se a mãe
alguma vez já possuiu o pênis, e agora perdera, então, o mesmo poderá
ocorrer com o próprio menino.

Seguindo
a formulação ainda do mesmo autor, inconscientemente, tal substituição
da falta de pênis materno, que ocorre no fetichismo e que remete à
recusa da castração, tem em vista macular, obturar a realidade
constatada.

Freud (1927) faz uma
consideração às duas retóricas sobre a sustentação do fetiche, em que
ele explica, “Permanece um indício do triunfo sobre a ameaça de
castração e uma proteção contra ela”. (p.181)

Referimo-me
neste instante ao termo “substituto”, utilizado pelo autor também em
outro momento de seus estudos sobre o fetichismo, em que afirma que, “O
substituto do objeto sexual, geralmente é uma parte do corpo (os pés,
os cabelos) muito pouco apropriada para fins sexuais, ou então um
objeto inanimado que mantém uma relação demonstrável com a pessoa a
quem substituiu, de preferência com a sexualidade dela (um artigo de
vestuário, uma peça íntima)”. (FREUD, 1856 – p.32)

Este
é o ponto central para entendermos a origem e a finalidade do fetiche,
pois o autor supõe que “os órgãos ou objetos escolhidos como
substitutos para o falo ausente na mulher, fossem tais, que aparecessem
como símbolo do pênis” (FREUD, 1927, p.182), embora assuma que este não
seria o fator decisivo na constituição do fetiche.

É
verdade que uma vez que o menino desmentiu a ausência de pênis na mãe,
a própria criança cria um substituto para esta falta assumindo, assim,
uma tendência fetichista. O processo pelo qual o objeto ganha as
propriedades de fetiche depende de a uma “interrupção da memória, como
na amnésia traumática” (FREUD, 1927 – p. 182). Ou seja, a atenção do
menino ao presenciar a falta de pênis na mãe, fica detida no local do
corpo desta que aglutinou sua última impressão, antes da estranha e
traumática visão. Fica, então esta visão, retida como fetiche.

Isso
quer dizer que o substituto desta ausência do pênis na mãe ou o
fetiche, seria o primeiro objeto, ou partes do corpo, agradável à
criança, uma vez que permitiria a ela cristalizar seu olhar nisso.
Seria então a tábua de salvação da criança, pois vem como representante
da última visão agradável que a criança teve antes de verificar e
constatar a falta de pênis materno.

O
autor dá exemplos como o pé ou o sapato, uma vez que, teoricamente, em
uma tentativa de ver a genitália da mãe, o menino inicia sua busca de
baixo para cima. Assim, como imagem que permaneceu pré-trauma, o
fetiche passa a ser os pés, dedos, sapatos, entre outros objetos,
substituindo a imagem derradeira e traumática de castração materna.

Outro
exemplo dado pelo autor como fetiche é a fixação nos pelos púbicos,
este como acompanhamento à genitália feminina, a qual a criança aguarda
ansiosamente em ver, assim como peças de roupa, associados ao momento
de se despir. Porém, enquanto a mãe poderia ser “encarada como fálica”.
(FREUD, 1927 – p.182)

Em sua obra “Três Ensaios”, destaco a seguinte passagem, cuja menção entendo como importante:

“O
caso só se torna patológico quando o anseio pelo fetiche se fixa, indo
além da condição mencionada, e se coloca no lugar do alvo sexual6
normal, e ainda, quando o fetiche se desprende de determinada pessoa e
se torna o único objeto sexual. São essas as condições gerais para que
meras variações da pulsão sexual se transforme em aberrações
patológicas”. (FREUD, 1856 – p.33)

Concordo
com esta afirmação, pois, o indivíduo que sente prazer única e
exclusivamente através do contato com um objeto, ou com determinada
parte do corpo, ao ater-se somente a isto, estará limitado em relação
ao seu próprio prazer. Ou, até mesmo, demonstra certa “atrofia” em
relação à percepção do próprio corpo e de suas possibilidades, enquanto
desejante e criativo. Por mais que o fetiche sirva como uma salvação ao
indivíduo, a exclusividade de interesse prazeroso a um objeto nos
parece patológico, ainda mais se considerarmos que no fetichismo existe
o prazer, mas não o coito. Ou seja, o êxtase do orgasmo de um ato
sexual nunca é alcançado via relação sexual genital.

O
que até agora podemos afirmar é que a discussão sobre o fetichismo, não
só gira em torno da castração, como também podemos localizar fases da
criança em que acontecem todos os conflitos dos quais se originou a
perversão, incluindo o fetichismo.

O
que mais surpreende é que, a partir desta explicação, entendemos o
porquê de no fetichismo não existir o coito. Isto é, a pessoa
fetichista, possui formas  ainda muito infantis de se relacionar com o
outro. Como não aceitou a vagina da mãe como um órgão diferente do
pênis, e continuou fantasiando a existência desse pênis na mãe,
automaticamente, isto reflete no não reconhecimento da diferença
essencial entre o homem e a mulher. Assim, a agravante do fetiche
localiza-se na inexistência de diferenciação sexual. O fetichista não
reconhece a genitália da mãe, e conseqüentemente de seus futuros
relacionamentos, como também, não possui a percepção de seu próprio
genital e do jogo complementar que pênis e vagina efetuam nas relações
sexuais de caráter genital.

Como
conclui Chasseguet-Smirgel (1991), “só podemos nos curvar diante do
fato de que todos temos em nós, em diferentes graus, ódio da realidade.
Podemos apenas desejar que ele encontre uma saída na satisfação que
obtém no convívio com as obras de arte, com a criação, quando é
possível, e com o amor”. (p.308)

Isso
quer dizer que na perversão, como no fetichismo, o sujeito bravamente
reluta para não expor-se a uma realidade martirizada com elementos
desagradáveis e angustiantes. Ao sair do princípio do prazer e,
situar-se no registro do princípio da realidade, o sujeito é conduzido
à leis que ainda não são suportadas, apenas com o tempo. O fetichismo é
uma forma de burlar estas leis, camuflar algo que romperia o prazer, ou
seja, a castração.

CONCLUSÃO

Para
concluir a respeito da perversão, o ser perverso então seria uma pessoa
que, para não suportar uma realidade desprazerosa e horrível, busca na
fantasia a fuga para tal realidade. Fantasia de que existe algo que ele
sabe que não existe.

Mais adiante, o
menino vê seu “grande amor”, a mãe, sem o pênis, e então para não ter
que aceitar a castração da mãe, e conseqüentemente a sua, o pequeno ser
recusa, não quer aceitar o fato da falta do pênis, compensando esta
falta. Escolhe um substituto para o lugar do falo. Estou falando então
do fetiche.

É em prol do prazer
sexual que o fetichista substitui a falta do pênis da mãe por uma peça
de roupa, pelo pé etc., tendo essa substituição a função de
tranqüilizar o sujeito da sua angústia de castração. É a salvação para
a pessoa quanto a um conflito insuportável.

Bem,
a perversão, tem como eixo a mudança de objeto sexual para um objeto
inusual. Por exemplo, negando as diferenças entre os sexos, ou
transformando o alvo que se torna o “olhar” e ser “olhado” etc.
           
Devo fazer uma ressalva: a perversão, de todas as estruturas psíquicas,
é uma das mais atraentes e sedutoras, pois está mais presente nas
pessoas do que podemos imaginar, assim, me atrevo a dizer que as
pessoas são um pouco fetichistas. O estudo sobre o tema me leva a
concluir que, em graus maiores, ou em graus mais brandos, possuímos
tanto escolhas objetais “normais”, como o contrário. Escolhas que por
vezes nos trazem prazer, mas que podem incluir objetos inusitados, em
que as fixações são mais comuns em determinadas partes do corpo, no uso
de determinado utensílio etc. Isto facilitaria a obtenção de prazer.

É
lógico que nossas escolhas de objeto sexual, nossos investimentos
libidinais depositados no objeto, demonstram que o prazer vem
acompanhado de outros princípios. É múltipla a exploração das
possibilidades que as pessoas têm em obter prazer. Muitas destas formas
prazerosas podem nos parecer estranhas, podem nos causar repugnância,
podem ser engraçadas ou nojentas. De qualquer forma, o que está por
trás desta multiplicidade sexual são elementos que de alguma maneira
foram constituídos e agregados no psiquismo e que regem nossas condutas
sexuais.

Por tudo o que foi dito, posso tirar como “moral da história” que há sempre uma explicação para cada ato e escolha sexual.

Referências Bibliográficas:

AULAGNIER-SPAIRANI, P. O Desejo e a perversão. Campinas: Papirus, 1990.
BLAICHMAR, H. Introdução ao estudo das perversões. Teoria do Édipo em
Freud e Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
CHASSEGUET-SMIRGEL, J. Ética e Estética da Perversão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
FERRAZ, F. C. Perversão: Clínica Psicanalítica São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.
FREUD, S. (1905a) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de
Janeiro: Imago, 1980, v. 4-5.
___(1917a) Conferências introdutórias sobre psicanálise (Conferência
XX: A Vida Sexual dos Seres Humanos). In Op. cit., v.16.
___(1917b) (Conferência XXI: O Desenvolvimento da libido e as
organizações sexuais). In Op. cit., v. 16.
___(1927) Fetichismo. In Op. cit., v.21.
NASIO, J. D. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
VALAS, P. Freud e a Perversão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.

Sobre reanjinha211

Psicóloga clínica em São Paulo. Especialista em psicossomática psicanalítica.
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